sexta-feira, 5 de julho de 2013

"Primavera Árabe"


Egito muda o rumo da chamada "Primavera Árabe"

04/07/2013 http://portalctb.org.br/site/opiniao/19830-egito-muda-o-rumo-da-chamada-qprimavera-arabeq
Lejeune Mirhan


O mundo assistiu, desde domingo, àquilo que a BBC de Londres chamou de “a maior manifestação de massas da história da humanidade ocorrida em um só dia em um país”. Pura verdade. O Egito assistiu no domingo, 30 de junho, a 17 milhões de pessoas nas ruas. E nesta quarta, 3 de julho, foram 30 milhões. E esse que é o maior país árabe, possui 82 milhões de habitantes. Grosso modo, podemos dizer que 36% de sua população saíram às ruas para pedir o fim do governo de Mohamed Mursi.

Seria como imaginarmos que 72 milhões de brasileiros saíssem às ruas para protestar. Inimaginável. E olha que a Globo, em seu Fantástico domingo noticiava assim: “milhares de pessoas vão ás ruas no Egito” (sic). Se falasse centenas de milhares estaria mentindo.

Em função do peso político e estratégico para todo o mundo árabe e mesmo o Oriente Médio que tem o Egito, vale a pena refletir sobre os acontecimentos dos últimos dias. Até porque a grande imprensa (TVs e jornais burgueses), procurou dar um enfoque completamente distinto da realidade. Como essas empresas não fazem jornalismo e sim propaganda, servem a interesses de classe e de partidos conservadores, os que estão em outro campo precisam se posicionar.

Que erros Mursi cometeu?

As eleições de maio de 2012, de fato, foram as primeiras em 60 anos. Aos que não conhecem bem a história do Egito, desde que Gamal Abdel Nasser destituiu a monarquia do rei Farouk em 1952, em 60 anos apenas ele e mais dois generais egípcios governaram o país. Foi Anuar El Sadat, de 1970 até 1979, quando foi assassinado, e Hosni Mubarak, de 1979 até 2011, quando foi destituído e o Exército assumiu o comando do país por um ano e meio.

O que a mídia chamou de “primavera árabe”, nada teve de primavera. Os árabes mais conscientes, para refutar essa terminologia a chamam de “inverno árabe”. O que ela trouxe na essência não foram mudanças substanciais, rupturas, melhorias para o povo árabe. Trouxe o tal “gigante adormecido” de que a mídia tupiniquim tanto fala para enaltecer certos setores de uma direita reacionária, antidemocrática e despótica que não preza a democracia.

No caso do Egito e da Tunísia, os primeiros países árabes que tiveram eleições, venceram os partidos islâmicos conservadores. Em alguns aspectos da vida social e política acabaram por piorar as coisas para o povo. No caso específico do Egito, o governo dito “democrático” de Mursi governou única e exclusivamente para o seu partido, que é religioso e se chama Partido da Justiça e da Liberdade, braço política da Irmandade Muçulmana. Essa gente defende o Estado islâmico, a volta do Califado Islâmico. Eles têm saudades dos sultães otomanos que governaram o império islâmico por mais de 400 anos.

O Egito de Mursi não rompeu os acordos com o FMI. Ao contrário, se submeteu a eles. O grupo palestino que posa de revolucionário para a mídia, chamada Hamas, que é um partido islâmico e não integra a OLP, a resistência palestina que é laica, adora o Mursi. Até porque a Faixa de Gaza faz fronteira com o Egito e o grande sonho dos palestinos que vivem nessa área que é considerada a maior prisão a céu aberto do mundo, era de que a fronteira na cidade de Rafah fosse imediatamente aberta para o livre trânsito de pessoas e mercadorias. Que nada. Mursi a manteve fechada, obedecendo às ordens dos Estados Unidos e de Israel. Em certa medida até piorou a situação.

Para piorar as coisas, Mursi governou apenas para a sua Irmandade. Não era o presidente de todos os egípcios. É bem verdade que ele não era o candidato original da Irmandade. O nome que eles trabalhavam foi impugnado pela comissão eleitoral simplesmente porque tinha nacionalidade estadunidense. Mursi surgiu de última hora, sem preparo algum. Um completo incapaz.

Como disse, o Egito não tem tradição alguma de eleição e de democracia. E quando fez a primeira, a própria esquerda e setores nacionalistas e patrióticos, socialistas e comunistas acabaram dividindo-se em três grandes candidaturas. Estas ficaram em 3º, 5º e 6º lugar e não foram ao segundo turno. A soma deles, garantiria uma vaga no 2º turno. O principal deles, Hamdeen Sabahi, um homem de esquerda, ficou em 3º lugar e era apoiado pelo PC Egípcio entre outras forças. Hoje, Hamdeen é um dos líderes da chamada Frente de Salvação Nacional, que assumiu o comando ao país com a queda de Mursi.

Outro grave erro de Mursi foi a modificação da Constituição do país, que sempre foi laica. Nas mudanças operadas por ele em dezembro passado na calada da noite, introduziu mudanças que retrocederam em relação à laicidade do país. Começam as exigências do uso do véu pelas mulheres e proibições de venda de bebidas alcoólicas. Tal qual seu amigo e irmão da Irmandade, o pretenso sultão otomano da atualidade, Tayip Erdogan da Turquia, vem fazendo.

No entanto, houve uma gota d’água que irritou profundamente o povo árabe do Egito. Que Mursi apoiava e ajudava a financiar os terroristas jihadistas, salafistas, wahhabitas e da Irmandade no ataque que a Síria vem sofrendo há mais de dois anos todo mundo sabia. Mas, há um mês ele rompeu relações diplomáticas com a Síria, o mais antigo país árabe e dos mais antigos da humanidade. Seguiu claras orientações do imperialismo estadunidense, de Israel, mas principalmente da União Europeia que odeia Bashar Al Assad.

A Frente de Salvação Nacional

Os patriotas, nasseristas, comunistas e socialistas egípcios parecem ter aprendido lições da experiência da dispersão eleitoral do ano passado. Após a derrota eleitoral, agora se agruparam em uma frente ampla. Criaram a FSN que agrupa em torno de 30 partidos políticos de um espectro ideológico amplo. O Partido Comunista Egípcio não a integra formalmente, mas a apoia.

A Frente de Salvação Nacional é composta pelas seguintes organizações: Partido da Constituição – Mohamed El Baradei; Corrente Popular Egípcia – Hamdeen Sabahi; Partido do Congresso Egípcio – Amr Moussa; Partido da Nova Comitiva – Mounir Fakhri Abdel Nour; Partido do Egito Livre – Amr Hamzawy; Partido Social Democrata Egípcio – Mohamed Abu Ghar; Partido da Frente Democrática – Sakina Fouad; Partido dos Egípcios Livres – Ahmed Saeed; Aliança Democrática Revolucionária que inclui 10 partidos e movimentos revolucionários; Partido do Aglomerado – Gouda Abdel Khalek; Partido da Reforma e Desenvolvimento – Nosso Egito; Partido da Liberdade; Partido da Geração Democrática; Partido Socialista Egípcio; Aliança Popular Socialista; Socialistas Revolucionários; Partido da Paz Social; Partido Egito do Futuro; Partido da Dignidade; Assembleia Nacional para a Mudança e a Aliança dos Partidos Nasseristas. Além disso, é integrada pela Central Geral dos Camponeses, União Independente dos Camponeses e a Frente Nacional das Mulheres (fonte: www.orientemidia.org).

Um dos seus líderes, uma espécie de coordenador, é Mohamed El Baradei. Ele presidiu a Agência Atômica Internacional por cinco anos. Teria sido reeleito por mais um mandato como é da tradição na ONU, mas foi vetado pelos EUA. Seu maior crime: disse que o programa nuclear iraniano não visava à construção da bomba, tinha fins energéticos e científicos. Foi banido. Caiu em desgraça. Mas ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

Baradei não é homem de esquerda. Talvez de centro. Um técnico. Teria sido imensamente votado nas eleições do ano passado, mas declinou de sua candidatura, abrindo espaços políticos para outras forças. Agora, é líder do Partido da Constituição. Foi duro contra o fundamentalismo religioso de Mursi e as mudanças na Constituição egípcia. Dialogava com as forças armadas em nome da FSN para as mudanças de rumo no país.

É preciso registrar as quatro reivindicações unitárias da Frente, apoiadas pelo PC Egípcio: 1. Renúncia imediata de Mursi; 2. Governo de transição com eleições em pelo menos seis meses; 3. Medidas econômicas em favor das massas populares e 4. Suspensão da atual Constituição e elaboração de uma nova. Esse é o programa que unifica toda a oposição.

O papel das forças armadas

As forças armadas egípcias tiveram grande papel na história. Apoiaram a derrubada da monarquia em 1952, deram sustentação para Nasser nacionalizar o canal de Suez e peitaram Israel em pelo menos dois confrontos diretos.

Uma das primeiras medidas de Mursi foi trocar o comando das forças armadas. Aposentou 12 generais de altas patentes e nomeou novos. Alguns mais jovens inclusive. Dentro de sua linha mais religiosa. No entanto, essas mexidas de nada adiantaram. Seu projeto político e religioso, de sua Irmandade, não conta com nenhum respaldo na tropa. Os militares egípcios defendem a laicidade do Estado, da mesma forma que isso na Turquia é um tabu. Não se admite o retorno de um Estado religioso e fundamentalista.

Esse jovem comandante do Estado Maior das Forças Armadas, Abdel Fattah Al Sisi, dialogava com a FSN. O ato do dia 30 de junho fora marcado pela oposição um mês antes. Já se sabia que ele levaria milhões às ruas. Diferentemente do Brasil, os partidos levaram sim suas bandeiras, suas faixas, suas reivindicações. O general Sisi dialogava com a oposição. Assim, no domingo, em pronunciamento à nação, deu ultimato ao presidente Mursi. Não para que ele saísse, mas para que ele mudasse os rumos da economia do país, formasse um governo que tivesse partidos de todas as correntes políticas.

Mursi não mudou de posição, nem arredou o pé. Foi inábil politicamente até seus últimos momentos na presidência. Discursou na TV Al Jazeera que transmite em inglês e na TV Al Mayadeen (libanesa) que transmite em árabe e reafirmou que nada mudaria. O máximo que fez foi admitir “certos erros”.

Isso enfureceu ainda mais as massas árabes. Já desde a manhã da quarta-feira (3) em todas as cidades egípcias o povo tomou conta das ruas e praças. Os cálculos eram de 30 milhões de egípcios protestando e pedindo a saída do presidente.

O ultimato venceu às 19h. Novamente, o general Al Sisi foi à TV. As imagens atrás do púlpito em que discursou tinham, além da bandeira nacional, as bandeiras das três forças militares. À sua esquerda e à sua direita, duas fileiras de cadeiras duplas com todas as lideranças nacionais, dos partidos, das Igrejas Coopta (a mais antiga Igreja cristã da terra), Islâmica, o presidente do Supremo Tribunal Federal de lá e organizações da sociedade civil. Mostrou ampla unidade nacional.

Nesse pronunciamento, ficava nomeado como novo presidente do Egito o jurista de carreira – cristão inclusive, o que mostra que o problema nunca foi religioso como muitos procuram mostrar – Adly Mansour. Que era vice-presidente da Suprema Corte desde 1992. Ela fora incumbido de reescrever, com auxílio de juristas, a constituição da República. Deve indicar a formação de um governo de união nacional. Fala-se no nome de Baradei para primeiro-ministro, para formar um governo “técnico”, que recupere aceleradamente a economia nacional.

No entanto, também no seio das forças armadas, o rompimento de Mursi com a nação Síria, da qual o Egito fora associado no que foi chamado de República Árabe Unida – RAU em 1958, caiu igual a uma bomba. Repercutiu de forma extremamente negativa essa atitude serviçal ao sionismo e ao imperialismo.

A repercussão na mídia burguesa

O que chamamos de mídia burguesa não passa de uma organização empresarial, capitalista, que vende propaganda. Nunca notícia. Está a serviço de um tipo particular de capitalismo, que é o financeiro. É golpista de primeira hora. Jamais teve apreço por democracia alguma. Muito ao contrário. Sempre que pode, em qualquer país do mundo, apoia abertamente golpes de Estado contra presidentes democraticamente eleitos. Criminaliza a política em geral. Aliena o povo. Embandeira-se falsamente com palavras de ordem “moral” e “ética”, mas seus protegidos são os maiores corruptos.

No caso do Egito, a cobertura não poderia ser diferente. A mídia golpista passou a defender o “presidente eleito democraticamente” e a “condenar o golpe de estado” (sic). A sua “democracia” é de fachada. Apega-se à forma e despreza o conteúdo. Faz o jogo do imperialismo, que queria ver Mursi no comando, para não abrir fronteira aos palestinos. Para financiar a derrubada do presidente sírio. Para ver o Egito se ajoelhar ao FMI.

No caso do Brasil, os comentaristas dos telejornais, em especial da tal Vênus Platinada, se contorceram em usar e abusar do termo “golpe militar”, “golpe de Estado”, “tomada de poder pelos militares”. A indignação dessa gente é completamente seletiva. Alinharam-se imediatamente aos golpistas em Honduras em 2011 e aos golpistas no Paraguai em 2012. Na maior cara dura. Agora, em completo desprezo aos 30 milhões que foram às ruas, se agarram a Mursi, não porque gostem dele, mas é o que eles têm de plantão para manter o mundo árabe na órbita imperialista.

Quem ganha e quem perde com as mudanças no Egito

É preciso ainda ver os rumos que as coisas irão tomar. Ainda não temos respostas para todas as perguntas. Nem temos ainda as perguntas certas a serem feitas. Mas, alguns palpites iniciais podemos e devemos oferecer.

A primeira certeza que tenho é de que o grande derrotado são os Estados Unidos. Se Mursi nunca foi o presidente do sonhos dos imperialistas, tampouco eles tiveram plenamente o controle de forma a indicar um aliado seu diretamente como Mubarak foi por 30 anos. Obama mesmo acaba de dizer que vai rever a ajuda militar em armamentos de 1,5 bilhão de dólares que todos os anos o Egito recebe desde 1981 (foram pelo menos 45 bilhões de dólares no período). Ainda que não fosse em dinheiro, essa ajuda sempre foi fundamental para armar o exército egípcio.

Sabemos que o que está em jogo ali não é essa ajuda. Mas, o acordo de paz com Israel, que Mursi preservou e agora volta à mesa e volta a assombrar os planejadores do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

O segundo maior derrotado nesse processo é, sem dúvida alguma, a Turquia. Erdogan já vinha se isolando e enfrentando protestos populares cada dia maiores. Chegou a dizer que as manifestações que lá ocorriam tinham a mesma natureza que as do Brasil, como que para conseguir solidariedade da presidente Dilma. Que elas eram insufladas artificialmente para desestabilizar seu governo. Falso. As TVs turcas ignoraram completamente os milhões nas ruas do Egito durante todo o dia da quarta, 3 de julho. Ele deve estar apavorado neste momento. Deve temer sua sombra, mas em especial seu Exército, guardião da constituição e da laicidade do Estado turco.

Perde também o Hamas, o grupo palestino criado há 20 anos com a ajuda de Israel, que certas correntes que se dizem de “esquerda” no Brasil acham que é revolucionário. Não bastasse o seu financiador ter deixado o poder no Catar para seu filho de 33 anos, para onde na cidade de Doha eles mudaram o seu escritório político deixando Damasco por fazerem oposição ao presidente Bashar, agora se veem órfãos de seu outro aliado que é a Irmandade. Se já estavam isolados entre os palestinos pelas suas posições e distantes dos 13 partidos que integram a estrutura da OLP, da resistência palestina, que é laica e democrática, agora se isolam ainda mais.

Parece que vão pagando caro todos os que conspiraram pela derrubada do governo do presidente sírio, Dr. Bashar al Assad. A primeira que sai foi a que havia dito “Bashar tem que sair” (sic), que foi a “Hilária” Clinton. Depois, caiu o emir do Catar, Hamad Al Thani. Agora Mursi paga o seu preço. Quem será o próximo?

Sobre quem ganha, também só tenho uma certeza. As massas árabes da Síria foram para as ruas nesta quarta, 3 de julho. Dançaram e cantaram. Comemoraram a queda do traidor dos árabes. O grande vencedor é o jovem presidente Bashar. Ele aproveitou para dar uma entrevista para o jornal sírio Al Thawra (A Revolução), onde afirma que a maior derrota é do “islã político”. Sua frase exata: “todos os que usam a religião a serviço de seus interesses políticos ou de interesses de seus grupos, cairão, em todo o mundo, um depois do outro”. Tem sido profético o presidente sírio. Elogia o povo milenar egípcio, com forte pensamento pan-árabe.

Também nesse sentido, se fortalece o pensamento secular, pan-arabista, patriótico, que já vinha ganhando terreno desde as mobilizações de janeiro de 2011. Nesse sentido, fortalecem-se as forças de esquerda, socialistas e comunistas. Não por acaso, no mesmo dia 3 de julho o PC Libanês, o mais antigo do Oriente Médio, emitiu nota saudando o povo egípcio pela sua vitória nas ruas, com a queda de Mursi. A mesma coisa fez o PC Egípcio, que participou de todas as manifestações anti-Mursi.

Por fim, o fortalecimento da Rússia no cenário mundial. Ela que vinha apoiando desde o primeiro momento a resistência dos sírios aos ataques externos, agora, mais do que nunca, é alçada a país que os analistas burgueses chamam de global player. Veio para ficar. Seu poder e cacife ampliam-se consideravelmente. Sem falar da China. Mesmo que discreta, cresce no cenário internacional.

Desdobramentos e conclusões

Como já disse, é cedo para tirarmos muitas lições e conclusões. Muitos cenários podem ocorrer.

É provável que Baradei vire mesmo primeiro-ministro de um governo que recupere a economia nacional, rompa acordos com o FMI, atenda as aspirações básicas do povo, em especial dos mais pobres, criando empregos. Que retorne à soberania nacional. Que indique um secretário-geral da Liga Árabe, como é da tradição do Egito ocupar esse posto, que seja verdadeiramente comprometido com as causas árabes.

Mas que, fundamentalmente, restabeleça de imediato as relações políticas e diplomáticas com a Síria. Que se interrompa o financiamento e o apoio aos terroristas que atacam a Síria. Que se abra a fronteira do país com a Faixa de Gaza. Que apoie o processo de paz na Palestina. Enfim, que restabeleça o diálogo nacional com todas as forças políticas, entidades da sociedade civil e as centrais sindicais.

Podemos estar presenciando, agora sim, uma verdadeira primavera dos árabes. Quiçá o avanço em uma situação geopolítica que possa trazer a ampla independência nacional dos países árabes, que possa trazer democracia popular e bem-estar para as massas. Mais do que um desejo pessoal, é uma aspiração desse povo milenar que tantos legados deixou para toda a humanidade.

oc lejeuneLejeune Mirhan é sociólogo, professor, escritor e arabista. Colunista da Revista "Sociologia" da Editora Escala e colaborador do Portal Vermelho (onde este artigo foi originalmente publicado). Foi professor de Sociologia e Ciência Política da Unimep entre 1986 e 2006.

Mãe Pela Igualdade


Carta Aberta de uma MÃE à Presidenta Dilma Rousseff
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2 comentários:
Copiei de Maju Giorgi, Mãe Pela Igualdade

Meu nome é Maria Júlia Giorgi e, antes de qualquer coisa, sou “MÃE”. Ao contrário de muitos, não vou acusá-la por tudo que está acontecendo, porque tenho absoluta certeza que a culpa não é sua, ou, pelo menos, não é SÓ sua. Vou falar um pouco da minha FAMÍLIA, para que a senhora veja o quanto ela se parece com o país diverso que a senhora dirige. Eu tenho 2 filhos, um menino de 25 anos e uma menina de 22. André e Gabriela, BRASILEIROS. O meu filho é GAY. É jornalista, fotógrafo e já tem, aos 25 anos, um reconhecimento profissional invejável. É retratista e, inclusive, a senhora já foi fotografada por ele quando ainda era Ministra, em uma Couro Moda há alguns anos atrás, numa época em que eu ainda era sua fã e admirava sua personalidade que parecia indestrutível. Meu filho é um trabalhador e paga todos os tributos devidos ao seu governo. É muito espiritualizado e se enche de fé ao dizer “O meu Deus é o mesmo de Gandhi e de Bhagavad Gita.” Esse menino é um orgulho para nós todos, sua FAMÍLIA. A Gabriela, minha filha, é heterossexual, e se formará, COM LOUVOR, num futuro bem próximo, em Psicologia em uma das melhores universidades deste país. Ela tem um sonho… o de trabalhar com crianças com DDA, e eu tenho absoluta certeza que irá concretiza-lo com sucesso. A Gabi é EVANGÉLICA praticante. Foi a religião que ela escolheu e na qual quis ser batizada ainda no começo da adolescência, e contou com nosso apoio irrestrito. O pai dos meus filhos, meu marido, é economista e também paga todos os tributos devidos à nação. É daqueles homens que nasceram para ser PAI e que têm nos filhos seus melhores amigos. Ele vive para os dois, para a FAMÍLIA, e não mede esforços para dar conforto e estabilidade a todos. Ele é católico praticante, daqueles que carregam Nossa Senhora e São José na carteira para que o protejam em momentos difíceis. Meus dois filhos têm relacionamentos estáveis que já duram anos. E meus dois genros são completamente inseridos na minha família como um todo, que inclui avós, tios, primos, amigos, festas de Natal, de Páscoa e viagens de família.

Mas nem sempre foi assim! Eu precisei lutar muito, muito para chegar neste HOJE. Eu tive que vencer uma depressão, fobia social, quase tive meu casamento desfeito, vi a minha vida estraçalhada por uma sociedade homotransfóbica e por um governo omisso e rendido ao fundamentalismo. Cada vez que meu filho saia de casa, eu era tomada por um medo incontrolável de que ele não iria voltar. Meu filho, presidenta, sempre foi GAY. Eu me lembro de que quando ele era muito pequenininho, deveria ter uns 5 anos, um dia, vendo ele brincar, perguntei ao meu irmão: “Você acha que ele é GAY??” E o meu irmão me dizia: “Nãaao… acho que ele vai ser um intelectual!” Hoje, eu e meu irmão damos risada dessa época. Meu irmão diz: “É lógico que ele já era gay, eu só queria te acalmar!” Por amor a este filho, que eu sabia que jamais deixaria de ser gay, eu resolvi me levantar do sofá, largar a minha vidinha de dona de casa, a minha zona de conforto, as flores do meu jardim, e transformar o mundo… primeiro ao meu redor, dando ao meu filho, segurança, amor, autoestima, os mesmos direitos e deveres dentro da nossa casa e do nosso mundo que de qualquer filho heterossexual, e uma família livre da homofobia. Eu consegui, e hoje posso tranquilamente cobrar do Estado aquilo que eu já fiz na minha casa. Há alguns anos, me juntei aos muitos que diária e incansavelmente lutam neste país por direitos e contra a HOMOTRANSFOBIA. Eu vi o seu governo desde o começo rendido ao fundamentalismo em prol da governabilidade que precisava da bancada evangélica para ter números em outras causas. Ou seja: vi os direitos do meu filho e de toda a comunidade LGBTT usados como moeda de troca. O KIT GAY, apelidado assim pelos fundamentalistas, que não passava de uma forma de esclarecer professores, e apenas professores, da rede pública sobre orientação sexual e identidade de gênero e mostrar como lidar com a diversidade, derrubou um Ministro e foi sumariamente descartado pela senhora com a preconceituosa e dolorida frase: “O meu governo não fará propaganda de “OPÇÃO” sexual”. Mas a comunidade LGBTT ajudou na sua eleição e, este movimento social suprapartidário, sempre teve nas horas oportunas uma bandeira levantada como exclusividade do seu partido para em seguida ser jogado na arena de leões. No seu governo vimos um arauto da discriminação ser agraciado com uma COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E MINORIAS. E vimos, rapidamente, uma causa que em 2012 era absolutamente relegada a segundo plano por essa comissão, tendo pouco mais de 1% de sua pauta ligada a ela, ser elevada a protagonista como ALVO da apelidada CURA GAY, pelo absurdo que sugere. Infelizmente para os fundamentalistas, e digo FUNDAMENTALISTAS e não evangélicos, jornalistas não são de fácil manipulação e imediatamente a imprensa brasileira somou sua voz a nossa contra essa INJUSTIÇA.

Faço a diferenciação e deixo claro que minha filha é evangélica e fundamentalistas NÃO a representam. A família do meu genro é evangélica e fundamentalistas NÃO os representam. Tenho primas e amigos evangélicos e fundamentalistas NÃO os representam. Ao Pastor Ricardo Gondim, fundamentalistas NÃO o representam. Ao Conic e a toda liderança evangélica que se levantou contra Marco Feliciano na CDHM, fundamentalistas NÃO os representam. Fundamentalistas são aqueles que atacam em todas as frentes, tentando violar o Ministério Público, o Poder Judiciário que é o guardião da nossa Constituição, a independência entre os poderes que é base de nossa DEMOCRACIA, os Conselhos e Órgãos de Classe, a Laicidade do Estado e, finalmente, o Poder Divino que nos concedeu livre arbítrio, contrariando seus desejos, com suas infinitas PECs e PDCs.

Estes fundamentalistas, que dizem ir para as ruas contra a corrupção, tiveram, nos últimos dias, circulando na internet a prova de que formam a bancada mais corrupta de todas. E é por eles que o executivo deste país está sequestrado em prol da governabilidade. Enquanto isso, nos chegam notícias de LGBTTs que morrem e são torturados pelo país afora, como o menino de 20 anos que foi apedrejado com tijolos de concreto esta semana em Uberlândia e vemos uma MÃE desesperada vir a TV fazer um apelo por JUSTIÇA. Por isso, quando meus filhos nasceram, entreguei os dois a Nossa Senhora, para que os cobrisse com seu manto sagrado e os protegesse, talvez já intuindo que neste país a proteção só pode vir dos céus. E até hoje entrego meu filho a Nossa Senhora, quando sai às ruas do país CAMPEÃO MUNDIAL EM CRIMES HOMOFÓBICOS. Nossa Senhora, essa que vi sendo quebrada a marteladas na TV, por um pastor, Nossa Senhora, esta que representa a MÃE em uma religião que é taxada de FAJUTA E MORTA por certo fundamentalista que hoje tem a indecência de vir a público se dizer representante dela e de todos os cristãos.

Presidenta… a senhora já ouviu dizer que LGBTTs têm poder econômico proveniente de dízimo, bancadas, mídias impressas, isenção tributária, radio, TV, capilaridade no estado, que fazem PECs ou usam de qualquer mecanismo que seja pra lutar contra os direitos de alguém neste país ? Ou que algum fundamentalista neste país foi morto, torturado, expulso de algum lugar ou perdeu seu emprego por discriminação? A senhora sabia que o direito de CRER deles está assegurado na mesma lei do racismo e preconceito em que LGBTTs lutam diariamente, com esforços vãos, para colocar seu direito de SER através do PLC 122? Que atingimos o direito ao casamento CIVIL igualitário através do Judiciário, mas que ainda teremos que mover céus e mares para que ele vire lei? Me diga, Presidenta, aonde estão esses privilégios que dizem que a comunidade LGBTT quer ou tem neste país, porque, por mais que eu tente, não consigo ver.

O que eu posso ver, pela primeira vez e frente aos absurdos que vem acontecendo , é a imprensa livre e a opinião pública espontaneamente se levantando contra as injustiças que sofre a Comunidade LGBTT. Se levantando contra a tentativa de se fazer acepção de seres humanos, a favor de direitos de cidadãos contribuintes, pelo fim do preconceito. O mundo ocidental está em evolução permanente, Presidenta, e a não ser que nos coloquem numa redoma blindada, seguiremos o curso natural da história a caminho da igualdade cuja luta incendeia o mundo neste momento. Não teve nazista, escravagista ou Ku Klux Klan que impedisse a história de avançar, por mais que tentassem.

Olhe o mundo ao seu redor neste momento e se inspire. A senhora quer ser lembrada pela história como Nelson Mandela, que coloca milhões nas ruas para homenageá-lo e reverencia-lo por sua luta por Igualdade, ou como o fundamentalista Mohamed Morsi, que coloca outros milhões para protestar contra ele e contra a violação da laicidade do estado? Eu peço, como mãe, que seu governo dê a todos os seus cidadãos os mesmos direitos e os mesmos deveres, nem mais nem menos, assim como eu fiz na minha FAMÍLIA. E isso só acontecerá com a criminalização da homotransfobia através do PLC 122 (onde já está o preconceito religioso), a legalização do casamento CIVIL igualitário, a educação contra a homotransfobia e a proteção do Estado contra absurdos como a CURA GAY. Eu garanto que, neste dia, eu voltarei para as flores do meu Jardim e nunca mais se ouvirá falar de ATIVISMO LGBTT, porque ele só existe em função do preconceito e do cerceamento de direitos. E não veja nesta carta nenhuma tentativa de intimidação, chantagem ou ameaça, não é desta forma que dirigimos nossa luta, nós não lançamos mão deste tipo de expediente. A nossa, é feita com honestidade, coerência , argumentos e a favor dos nossos direitos sem nos colocarmos contra os de ninguém. Não, Presidenta, os cristãos NÃO são todos iguais. LUTE POR NÓS PRESIDENTA!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O perfil dos manifestantes no Facebook - Eliseu Barreira Junior


http://ideas.scup.com/pt/o-monitor/o-perfil-dos-manifestantes-no-facebook/
O perfil dos manifestantes no Facebook
OLHAR DA SEMANA, por Eliseu Barreira Junior

Quem são, o que curtem e quais ídolos admiram os usuários do Facebook que mais falaram dos protestos que mobilizaram o Brasil


O usuário do Facebook que protestou na rede social nas últimas semanas é homem, tem entre 20 e 29 anos e vive em São Paulo. Gosta de ouvir Adele e rock, lê a Bíblia tanto quanto as histórias fantásticas de O senhor dos anéis e assiste a filmes de ação como Star Wars e Avatar. Quando vê TV, fica dividido entre o humor dos programas Os Simpsons, CQC e Pânico. Crítico aos gastos com a Copa das Confederações, curte futebol e torce, principalmente, para o Corinthians. Seus atletas preferidos são Anderson Silva, Ayrton Senna e Kaká. Se precisa de inspiração, recorre às lições de figuras cristãs, budistas e espíritas.

Traçado numa análise exclusiva a partir dos dados coletados pelo monitoramento público do Scup, esse perfil reflete traços marcantes do brasileiro médio e mostra interesses de uma juventude que se alimenta de símbolos pop para mudar o país. O estudo, feito com os “likes” dos 3600 usuários que mais falaram dos protestos no Facebook entre os dias 13 e 27 de junho, traz alguns insights interessantes.

Primeiro, o sincretismo religioso fincou raízes fortes em nossa sociedade. Os manifestantes têm como modelo Jesus Cristo, Mahatma Gandhi e Chico Xavier – os gênios Albert Einstein e Steve Jobs completam o panteão dos cinco mais inspiradores.

Segundo, gente como Karl Marx e Che Guevara, que fez a cabeça de uma geração de revolucionários, apesar de lembrada, não motiva mais como antigamente. Nelson Mandela, Clarice Lispector e Martin Luther King Jr vêm à frente deles. Parece que as conquistas práticas de Mandela e King são mais digeríveis pelos manifestantes do que as utopias de Marx e Che.

Terceiro, o rock é o estilo de música que domina o dia a dia dos manifestantes. Dos 15 artistas e bandas identificados, 10 se enquadram nessa categoria. Os mais destacados são Beatles, Legião Urbana e Coldplay. Bem que a letra de “Que país é esse?”, do Legião, poderia ser eleita o hino dos manifestantes: “Nas favelas, no Senado / Sujeira pra todo lado / Ninguém respeita a Constituição / Mas todos acreditam no futuro da nação / Que país é esse? / Que país é esse? / Que país é esse?”.

Quarto, diversos elementos da cultura pop despertam o interesse de quem decidiu protestar “contra tudo” nas últimas semanas. Star Wars, Piratas do Caribe, Shrek e o corajoso bruxinho Harry Potter compõem a lista. O que há em comum entre essas histórias? A luta entre o bem e o mal e anti-heróis. Nos protestos de rua que vimos, partidos, políticos e instituições seriam o mal; o personagem Guy Fawkes, representado nas diversas máscaras usadas pelos manifestantes, simbolizaria o anti-herói justiceiro.

Por fim, entre os livros, chama a atenção o gosto pela Bíblia e O pequeno príncipe. Recém-completados 70 anos, O pequeno príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry, é considerado um livro existencialista que narra “o reencontro do adulto com o olhar perdido de criança e também o encontro da criança com questões da vida adulta”, nas palavras da professora de literatura da Universidade de São Paulo (USP) Verónica Galíndez Jorge. Parece que os jovens brasileiros cresceram e não curtiram muito a realidade com que se depararam.

Como é possível observar, estudos feitos a partir dos “likes” de usuários do Facebook permitem diferentes interpretações psicológicas sobre quem – e o quê – está por trás de um fenômeno social. Enquanto pesquisas tradicionais ficam restritas a informações de escolaridade, idade, sexo e filiação partidária, por exemplo, a análise dos gostos e interesses compartilhados publicamente na rede ajudam a construir um perfil mais profundo e complexo de camadas da sociedade. As diversas “pegadas” que deixamos no universo digital carregam referências e hábitos culturais valiosos para acadêmicos, governantes e profissionais de marketing.

A tendência é que análises do tipo ganhem cada vez mais espaço nos próximos anos. Seu avanço dependerá do desenvolvimento de tecnologias capazes de ajudar na extração dessas informações. A funcionalidade do Scup que usamos para produzir o estudo está em fase de testes e deverá ser disponibilizada para o mercado nos próximos meses. Por enquanto, é possível obter análises assim na ferramenta a partir de e-mails associados a perfis sociais públicos. A nova tecnologia que está sendo desenvolvida dispensará a necessidade do e-mail.

COLABORARAM Claudia Gasparini, Lucas Moschione e Santiago Oliveira

sábado, 29 de junho de 2013

Pode ser a gota d'água: - Mauro Iasi [*]


Pode ser a gota d'água:
enfrentar a direita avançando a luta socialista
por Mauro Iasi [*]

O mundo se move sob nossos pés, as velhas formas se rompem, surgem novas e as contradições que se acumulavam explodem buscando o caminho necessário, encontrando sua forma de expressão.

A explosão social que abalou o país brotou do terreno escondido das contradições. Lá para onde se costuma exilar as contradições incômodas: a miséria, a dissidência, a alteridade, a feiúra, a violência. Germinaram no terreno do invisível, escondido e escamoteado pela neblina ideológica e o marketing cosmético que epidermicamente encobre a carne pobre da ordem capitalista com grossas camadas de justificativa hipócrita, de cinismo laudatório de uma sociabilidade moribunda.

As autoridades, os especialistas, sociólogos, politicólogos e jornalistas estão perdidos dando razão à dissertativa atribuída à Marx segundo a qual "a história só surpreende quem de história nada entende". Declamam seu espanto querendo acreditar na extrema novidade, pois só isto explicaria sua brutal ignorância. No terreno da história nada é absolutamente novo.

Se há algo que é muito conhecido para quem não se limita ao presentismo, ou foucaultianamente à aléa singular do acontecimento, é a insurreição, a explosão de massas. Caso tenham preconceitos contra nossa tradição marxista e se recusem a ler as brilhantes análises de Lênin em Os ensinamentos da insurreição de Moscou , ou de Trotski em A arte da insurreição , pode se remeter aos estudos de Freud em A psicologia de massas e análise do ego, ou a magistral análise de Sartre em A critica da razão dialética.

As massas explodem em uma dinâmica que altera profundamente o comportamento dos indivíduos isolados que pacificamente se dirigiam diariamente ao matadouro do capital, em ordem, pacificamente, saindo de suas casas humildes, pegando ônibus superlotados e precários, sendo humilhados pela polícia, vivendo de seus pequenos salários, vendo a orgia ostensiva do consumo e tendo que "subviver" com o que não tem.

Os jovens do Movimento Passe Livre (MPL) estão de parabéns por uma luta que não vem de agora (lembremos Goiânia e Florianópolis) e por conseguir dar consistência a esta luta e ao confronto que os levou a dobrar a prepotência dos que afirmavam de início que a tarifa não seria rebaixada. As manifestações contra o aumento da passagem, no entanto, são apenas o desencadeador de algo muito maior. O movimento funcionou como um catalisador de um profundo descontentamento que estava soterrado pela propagando oficial.

Analisemos, então, as determinações mais profundas que se apresentam nesta explosão social.

Em primeiro lugar as manifestações expressam um descontentamento que germinava e que era alimentado pela ação que queria negá-lo, isto é, pela arrogância de um discurso oficial que insistia em afirmar que tudo ia bem: a economia estava bem, não porque garantia a produção e reprodução da vida, mas por que permitia a reprodução do capital com taxas de lucros aceitáveis, o Brasil escapara do pior da crise internacional a golpes de pesados subsídios às empresas monopolistas, a inflação estava "entorno do centro da meta", o Brasil recebia eventos esportivos e se transformava em um canteiro de obras, os trabalhadores apassivados e suas entidades amortecidas pelo transformismo e pela democracia de cooptação se rendiam ao consumo via endividamento, a governo se regozijava com índices de aceitação que pareciam sólidos.

Acontece aqui um velho e conhecido fenômeno. A vida real não combina com o discurso ideológico. A inflação em torno da meta explodia na hora das compras, de pagar o aluguel, de pagar as contas, de pegar um ônibus. As delicias do consumo voltavam na forma de dívidas impagáveis. O acesso ao ensino vira o pesadelo da falta de condições de permanência. O emprego desejado se transforma em doença ocupacional. O orgulho de receber eventos esportivos internacionais se apresenta na farra do boi de gastos enquanto a educação, a saúde, a moradia, os transportes ficam às moscas.

O estopim foi o aumento das passagens e aqui se apresenta um elemento altamente esclarecedor. Nas primeiras experiências de governos municipais do PT o enfrentamento da questão do transporte se deu através da municipalização deste serviço. Em São Paulo chegou-se a falar em tarifa zero no governo de Erundina. Em uma segunda geração de governos petistas, todas as empresas municipais foram devolvidas aos empresários que exploravam o setor (e explorar é um termo preciso). Coincidentemente os empresários do transporte se tornaram uma das principais fontes de financiamento das campanhas deste partido.

Entendendo que a explosão é perfeitamente compreensível como forma de manifestação de um profundo descontentamento, sabemos que é mais que isso. Representa, também, o esgotamento de uma forma que tem sido muito eficaz de domínio e controle político. Cultivamos um fetiche pela forma democrática como se ela em si mesmo fosse a solução enfim encontrada pela humanidade para superar um dilema histórico da ordem burguesa que a acompanha desde o nascimento e que não tem solução dentro da sociedade capitalista: o abismo entre sociedade e Estado.

A sociedade se representa através de políticos eleitos que formam as esferas decisórias, legislativas ou executivas, por meio do voto que transfere o poder para um conjunto de pessoas que supostamente expressam as diferentes posições e interesses existentes na sociedade. Abstrai-se, desta forma, o quanto os reais interesses políticos e econômicos em jogo deformam esta suposta límpida representação resultando na consagração do poder das classes dominantes, confirmando a dura descrição e Montesquieu segundo a qual "a República é uma presa; e sua força não passa do poder de alguns cidadãos e da licença de todos", ou na ainda mais incisiva afirmação de Marx (e depois Lênin): a democracia é o direito de os explorados escolherem a cada quatro anos quem os representará e esmagará no governo.

Desta maneira é compreensível o espanto daqueles que acreditavam que estava tudo bem em uma sociedade marcada pelas contradições da forma capitalista e de sua expressão política, ignorando as profundas e conhecidas contradições que tal ordem gera inevitavelmente.

Uma contradição, no entanto, encontra sempre uma forma particular para se expressar. A forma como se expressaram as contradições descritas também é perfeitamente compreensível.

O último período político foi marcado por uma profunda despolitização dos movimentos sociais e dos movimentos reivindicativos da classe trabalhadora. Em dez anos de governo os trabalhadores não foram uma vez sequer chamados a participar ativa e independentemente da correlação de forças políticas em defesa de seus interesses e no terreno que lhe é próprio: as ruas, as praças, a cidade. Optou-se por uma governabilidade sustentada por alianças de cúpula nos limites da ordem política existente e do presidencialismo de coalizão, mantendo seus métodos, isto é, oferta de cargos, liberação de verbas e facilidades. Não é de se estranhar que em dez anos não se tenha implementado uma reforma política.

Em nenhum momento no qual uma demanda das massas trabalhadoras (reforma agrária, previdência, direitos trabalhistas, garantia de serviços públicos, etc.) que se chocava com a resistência dos setores conservadores foi resolvida chamando os trabalhadores a se manifestar e inverter a correlação de forças desfavorável às mudanças. Pelo contrário, via de regra, as soluções conservadoras foram propostas pelo governo que se pretendia popular e se pedia às massas que se calassem e dessem, como prova de sua infinita paciência, mais um voto de confiança em suas lideranças que deles se alienavam.

Quando os trabalhadores se chocavam com a orientação governista, como na última greve dos professores e dos funcionários públicos federais, são tratados com arrogância e prepotência.

Por isso, não nos espanta que a explosão social se dê da forma como se deu e traga os elementos contraditórios que expressa: despolitizada e sem direção, ainda que com alvos precisamente definidos: os governos e aquilo que representa a ordem estabelecida.

A despolitização se expressa de varias formas, mas duas delas se apresentam com mais evidentes: a violência e antipartidarismo. Comecemos pela violência.

Quanto à forma violenta que tanto espanta os ardorosos defensores da ordem temos que constatar que ela não é homogênea. Há pelo menos três vertentes da violência. Uma delas, difusa e desorganizada, é aquela que expressa a raiva e o ódio contra uma ordem que oprime, não por acaso esta se dirige contra as expressões desta ordem, seja os prédios públicos que abrigam as instituições da ordem política burguesa (sedes de governo, parlamentos, prédios do judiciário, etc.), mas também os monopólios da imprensa, da televisão, assim como os templos do consumo ostensivo. Esta manifestação é compreensível e até, em certa medida, justificada. Marx e Engels, ao analisar a situação alemã de 1850 (Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas) dizem a respeito:

Os operários não só não devem opor-se aos chamados excessos, aos atos de vingança popular contra indivíduos odiados ou contra edifícios públicos que o povo só possa relembrar com ódio, não somente devem admitir tais atos , mas assumir sua direção.

Deixemos aos patéticos novos defensores da "ordem e da tranqüilidade" a defesa do fetiche do patrimônio público, uma vez que é esta "ordem" é que tem garantido às classes dominantes e seus aliados de plantão a "tranqüilidade" para saquear e depredar o verdadeiro patrimônio público.

Há uma segunda vertente da violência. Jovens das periferias, dos bairros pobres, das áreas para onde se expulsou os restos incômodos desta ordem de acumulação e concentração de riqueza, que são quotidianamente agredidos e violentados, estigmatizados, explorados e aviltados, que agora, aproveitando-se do mar revolto das manifestações expressam seu legítimo ódio contra esta sociedade hipócrita e de sua ordem de cemitérios. Sua forma violenta em saques e depredações assustam, é verdade, mas a consciência cínica de nossa época passou a assumir como normal as chacinas, a violência policial. Pseudointelectuais chegaram a justificar como normal que a policia entre nas favelas e invada casas sem mandato, prenda, torture e mate em nome da "ordem"; ou seja, a violência só é aceitável contra pobres, contra bandidos, contra marginais, mas é inadmissível contra lixeiras, pontos de ônibus, bancos e vitrines.

Há uma terceira violência e esta não é espontânea e emocional como as duas primeiras: a extrema direita. Ela, lá dos esgotos para onde foi jogada pela história recente, se sentia também ofendida e agredida, evidente que não pela ordem burguesa e capitalista que sempre defendeu, mas pelo irrespirável ar democrático que acertava as contas com nosso passado tenebroso, como a denúncia contra o golpe de 1964 e seus sujeitos, com as comissões da verdade, mas sobretudo o mal estar desta extrema direta com um regime político que permite a organização dos trabalhadores e sua expressão, mesmo nos precários limites de uma democracia representativa de cooptação. Assim como os movimentos sociais e de classe se despolitizam, a direita também. Para a extrema direita não interessa que a atual forma política permita aos monopólios seus gigantescos lucros e à burguesia sua pornográfica concentração de riquezas. A burguesia que já se serviu da truculência para garantir as condições de acumulação de capital, hoje se serve da ordem e tranquilidade democrática para os mesmos fins e neste contexto não há função clara para seus antigos cães de guarda.

Estes não suportam nos ver andando com nossas camisetas que lembram nossos mártires, nossas bandeiras que recolhem o sangue de todos que lutaram, nossas firmes convicções que nos mantêm nas lutas diárias ao lado dos trabalhadores em defesa da vida, mas com o olhar certeiro no futuro necessário e urgente que supere a ordem do capital por uma alternativa socialista. Por isso nos atacam, usam das manifestações para acertar suas contas com a esquerda, de forma organizada, intencional e, certamente, com apoio formal ou informal das aparatos de repressão.

A ação da extrema direita encontra respaldo na despolitização das massas, principalmente na expressão gritante do antipartidarismo. No entanto, neste caso temos que ter cautela ao analisar os fatos. O comportamento contra os partidos é compreensível, ainda que não justificado. Compreensível por dois motivos: as massas, graças à triste experiência petista, estão cansadas de partidos que usam as demandas populares para eleger seus vereadores, deputados e presidentes que depois voltam as costas para estas demandas para fazer seus jogos e alianças para manter em seus cargos; também, acertadamente, não podem aceitar que certos partidos pulem na frente de manifestações e movimentos para tentar dirigi-los sem a legitimidade de ter construído organicamente as lutas.

Tal atitude, portanto, compreensível, é injustificável pelo fato que ao mirar os partidos de esquerda erra pelo fato que foram os militantes dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais que mantiveram no pior momento da correlação de força desfavorável as lutas em torno das demandas populares, por moradia, na luta pela terra, contra a reforma da previdência, contra as privatizações, em defesa da educação e da saúde públicas, contra os gastos com os eventos esportivos, contra as remoções. E o fizeram em um contexto em que as massas estavam submetidas a um profundo apassivamento e no qual o transformismo do PT em partido da ordem isolava a esquerda e a estigmatizava. Neste sentido os partidos de esquerda como o PCB, o PSTU, o PSOL e outras organizações de esquerda, assim como os movimentos sociais e sindicatos, não precisam pedir licença a ninguém para participar de lutas e manifestações sociais, conquistaram legitimamente este direito na luta, com sua coerência e compromisso.

Para onde vão as manifestações? Alguns ingenuamente, ou de forma interesseira, acreditam que a mera existência da ação independente de massas configura em si mesma um fator positivo de transformação. Infelizmente, a história também nos traz elementos para questionar esta tese, alguns exemplos da história muito recente. Quando da derrocada do leste europeu advinda do desmonte da URSS, muitos saudaram como a possibilidade de uma revolução política que retomasse o rumo interrompido das experiências socialistas, mas o que vimos foi a restauração capitalista. Agora saúdam a chamada "primavera árabe", mas o que temos visto, e a Líbia e o Egito são exemplos paradigmáticos, é o aproveitamento dos monopólios na partilha do botim de países estratégicos isolando mais uma vez os setores populares.

O sentido e futuro das manifestações estão em disputa e temo em dizer que a esquerda está perdendo esta disputa para um sentido perigosamente de direita e conservador. Recentemente afirmei que a experiência política do último período, ao contrário do que alguns esperavam, havia produzido um desmonte na consciência de classe e se expressava em uma virada conservadora no senso comum. Este processo ficou evidente nas manifestação, para além da intenção de seus originais promotores. O produto multifacetado das contradições mescla nas manifestações elementos de bom senso e senso comum, criticas difusas às manifestações mais evidentes da sociabilidade burguesa em que estamos inseridos ao lado de reafirmações de valores próprios desta mesma ordem, o que seria natural se entendermos o processo de despolitização descrito.

Quando os adeptos do espontaneismo alardeiam a virtude de uma manifestação sem direção e que hostiliza partidos se esquecem é que se você não tem uma estratégia, não se preocupe, você faz parte da estratégia de alguém. Além da evidente eficiência dos monopólios da comunicação, o "partido da pena" nos termos de Marx, em pautar o movimento selecionando as bandeiras que interessa à ordem (luta contra a corrupção, nacionalismo, diminuição de impostos, etc.), outros elementos muito perigosos se apresentam.

Um cartaz na manifestação no Rio dizia: se o povo precisar as Forças Armadas estão prontas para ajudar. Significativamente os militantes antipartido não destruíram esta faixa, talvez porque não sabem que existe além do partido da pena o "partido da espada". Em nota dos clubes militares da marinha, exército e aeronáutica, os militares depois de afirmar que as manifestações expressam majoritariamente a indignação com o descaso das autoridades com as aspirações da sociedade e que diante dos vícios e omissões que se repetem chegou a hora de se "manifestar clamorosamente" e não aceitar "ser conduzido, resignadamente, como grupo ingênuo" dando "um basta à impostura e à impunidade". A nota dos militares termina com uma clara provocação e cita Vandré: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

A direita só germina e cresce no vazio deixado pela esquerda. A ilusão de um desenvolvimento capitalista capaz de resolver as demandas populares e garantir lucros aos capitalistas, sustentado por um governo de coalizão com a burguesia desarma os trabalhadores e a direita ocupa o terreno. Há um evidente cheiro de golpe no ar. A embaixadora dos EUA que estava na Nicarágua na época dos contras, na Bolívia quando da tentativa de dividir o pais, no Paraguai quando do golpe contra Lugo, chegou ao Brasil.

Ao prefaciar o livro de Leandro Konder sobre o fascismo republicado em 2009, dizia alertando para a atualidade do risco desta alternativa contra aqueles que achavam que este fenômeno estaria condenado ao passado:

Capital monopolista em crise, imperialismo, ofensiva anticomunista, criminalização dos movimentos sociais, decadência cultural, hegemonia da política pequeno-burguesa em detrimento da política revolucionária do proletariado, irracionalismo, neo-positivismo, misticismo, chauvinismos nacionalistas acompanhados ou não de racismo... Não se enganem. Só posso alertar, como certa feita o fez Marx: "esta fábula trata de ti".

A explosão de massas deu o recado: olha só meu coração, ele é um pote até aqui de mágoa, qualquer desatenção, faça não... pode ser a gota d'água.
[*] Professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Periferia se movimenta bbc




Lígia Teixeira *

De São Luís

'Em São Luís, a capital do Maranhão, um dos pontos mais interessantes é a participação de trabalhadores rurais e indígenas na agenda das manifestações.

No último dia 18, trabalhadores do interior do Estado bloquearam a entrada da cidade e seguiram em direção à sede maranhense do instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

A questão dos conflitos agrários no Maranhão e no Pará é bastante séria e atinge grande parte dos trabalhadores rurais dos dois Estados. Durante toda a semana, os trabalhadores rurais engrossaram as fileiras das demais manifestações ocorridas em São Luís.

Já os indígenas, aproveitaram a onda de protestos para fazer manifestações contra a falta de assistência médica nas tribos maranhenses de diversas etnias, principalmente a etnia guajajara, que concentra o maior número de indígenas no Estado. Algumas tribos chegaram a São Luís no último dia 24 para participar de atos públicos pela melhoria das condições de vida dos povos indígenas.

Alguns dos protestos são setorizados, oriundos da periferia e da zona rural e com um caráter difuso de reivindicações, geralmente relacionadas à ausência de políticas públicas voltadas para as comunidades mais pobres da cidade, sobretudo nas áreas de saúde e mobilidade urbana.


No dia 19, pelo menos 10 mil pessoas concentraram-se na chamada Esplanada dos Palácios, complexo de edificações que sediam os poderes Legislativo, Judiciário e Executivo municipal e estadual situado no entorno da Praça Pedro II, no centro da cidade.

O principal alvo desse protesto foi o domínio político da família Sarney. Exaltados, jovens tentaram invadir o Palácio dos Leões, sede do governo estadual, sendo duramente reprimidos pela tropa de choque e a cavalaria da Polícia Militar.

Outra manifestação que chamou bastante atenção na cidade ocorreu no último dia 22, quando 20 mil pessoas percorreram o centro da cidade e atravessaram a Ponte José Sarney, que liga as partes nova e velha da cidade.

Durante a travessia, os manifestantes rebatizaram simbolicamente a ponte de "Ponte Acorda Maranhão". Embora tenha sido possível ver cartazes expondo reivindicações de caráter plural, as palavras de ordem e a maioria dos cartazes dos participantes do ato expuseram a profunda insatisfação com o controle político da família Sarney há 47 anos no Estado (a atual governadora é Roseana Sarney, filha do ex-presidente José Sarney e que exerce o quarto mandato à frente do governo).

O Maranhão é o Estado com a maior taxa de exclusão digital do país. Ainda hoje são raros os lares que dispõem de internet banda larga, a maioria dos pontos de acesso são garantidos por conexão via rádio. Mesmo assim, a força da organização nas redes sociais (principalmente o Facebook) foi fundamental para a mobilização e realização dos atos. De qualquer maneira, certamente a grande repercussão dos protestos no país inteiro, transmitidos pela TV, também foi essencial para motivar a participação popular.

* Lígia Teixeira, de 35 anos, é natural de São Luís e é autora do blog Marrapá, que reúne textos sobre a situação social e a política da capital maranhense.



Luana Costa e Bruno Vieira *

De Belo Horizonte

'Em Belo Horizonte, a periferia também foi para as ruas. Mas, diferentemente dos movimentos articulados no Centro, ela saiu nas suas próprias "quebradas".

A BR-040, que dá acesso a Brasília, também dá acesso a Ribeirão das Neves, cidade cujos moradores ocuparam a rodovia protestando contra a empresa de ônibus da cidade. O transporte em Neves e na sua vizinha Esmeraldas é um dos mais precários da região metropolitana de BH, com passagens que chegam a R$ 6.

A reivindicação mais evidente nas manifestações foi por melhorias no transporte na cidade. Tanto na periferia como no centro de Belo Horizonte.

Mas as causas eram várias. A comunidade Olhos D'Água, do sudoeste da cidade, ocupou as vias do Anel Rodoviário pedindo ainda melhorias na saúde e na educação.

A Dandara, uma ocupação de 40 hectares situada entre os bairros Céu Azul e Nova Pampulha, onde vivem cerca de mil famílias, compareceu em peso às manifestações, divulgando a sua luta por moradia digna.

Mas em diferentes cantos da cidade bombas de efeito moral e balas de borracha disparadas pela Polícia Militar abalaram o caráter pacífico das manifestações.

Com isso, a brutalidade policial se tornou um dos temas dominantes. Vários atos de violência contra manifestantes, em sua maioria pacíficos, foram testemunhados nos protestos.

* Bruno Vieira, 27, e Luana Costa, 28, são moradores de Belo Horizonte. Ambos atuam no coletivo Clique Conexão Periférica, grupo formado por jovens jornalistas que discutem as periferias urbanas.



Paulo Talarico *

De Osasco (SP)

''Osasco tem mais shoppings do que hospitais." É o que diziam vários cartazes vistos nas manifestações realizadas na cidade (situada na Grande São Paulo).

A falta de médicos e a qualidade dos hospitais e postos de saúde na cidade são temas de reclamações constantes na cidade. No hospital central, a espera é grande para receber um atendimento.

Temos visto o crescimento comercial do município, em contraponto com a qualidade dos serviços oferecidos.

A melhoria do sistema de transportes acabou sendo o grande mote dos manifestantes. A cidade está com o trânsito estrangulado, em função da grande circulação de veículos do município e de outras cidades, que fogem das rodovias pedagiadas que cortam Osasco.

A revolta contra a corrupção estava presente em muitos cartazes. Osasco conta com um deputado federal condenado pela Justiça, que ainda aguarda recursos, e o candidato mais votado da cidade foi considerado "ficha suja".

Por fim, um cartaz ilustrou bem o sentimento sobre a prestação de serviços na cidade: "Os problemas de Osasco não cabem todos aqui".

* Paulo Talarico é integrante do Clique Mural, blog coletivo formado por repórteres da periferia de São Paulo e hospedado na Folha.com.

éssica Moreira *

De São Paulo

A periferia, mesmo composta por diversos bairros dormitórios, nunca dormiu. A história das cidades sempre é contada do centro para as bordas. Meu bairro, Perus (na zona noroeste de São Paulo), tem buscado, na falta de aparelhos culturais oficiais, realizar eventos alternativos, como saraus, oficinas de teatro e dança.

Essa é também a realidade em outros bairros. Mas aqui uma das maiores lutas atualmente é pela abertura do antigo prédio da Fábrica de Cimento de Perus. Espaço tombado como patrimônio histórico, mas que está totalmente abandonado pelo poder público.

Há movimentos bem organizados, que, antes do estouro das grandes manifestações, já haviam ido às ruas do bairro pedindo a abertura da fábrica e reivindicando mais políticas de saúde em Perus. Perus foi um dos bairros pioneiros da cidade de São Paulo na luta em prol de uma cidade sustentável quando um movimento dos moradores extinguiu o lixão do bairro.

Se antes a luta era erguida por movimentos de base, como as Centrais Eclesiásticas de Bases e os sindicatos, agora são os grupos culturais que iniciam as reivindicações. A Quilombaque Perus, o Grupo Pandora de Teatro e até a página do Facebook "Amigos de Perus" está trazendo importantes discussões sobre melhorias no bairro e também promovendo um verdadeiro levante na região.

Há saraus de poesia de ponta a ponta. Eventos em praça pública. Casas de cultura improvisadas na garagem de casa. Grupos de teatro contando a história local, fortalecendo as raízes. Quando dizemos que a periferia nunca dormiu, é porque há anos temos lutado por mais direitos. Seja por moradia, saúde ou educação.

Há cursinhos populares que incentivam os jovens da periferia a entrarem no ensino superior. Há mutirões erguendo casas. Há mães se unindo em prol de uma boa educação. Há movimentos, também, contra a poluição.

Temos ido para as ruas mesmo sem a autorização das autoridades. Vamos levando cultura, ocupando os espaços abandonados, gritando poesia sobre trilhos de trem. Reclamamos, mas antes disso, já estamos fazendo. Se você acordou agora, todo o povo agradece. Mas nós, de fato, nunca dormimos!

* Jéssica Moreira é integrante do Clique Mural, blog coletivo formado por repórteres da periferia de São Paulo e hospedado na Folha.com.




Romário Régis

De São Gonçalo

"Na primeira passeata ocorrida na cidade, no último dia 18, tivemos mais de 10 mil pessoas nas ruas. Um momento histórico. Nunca nenhum movimento tinha colocado tanta gente nas ruas como dessa vez.

Essa manifestação tem sido pedagógica, os movimentos sociais ainda são um pouco afastados e, sem querer, todos estão começando a interagir mais para entender melhor o que está acontecendo.

Em São Gonçalo, as cobranças mais claras estão relacionadas à construção da linha 3 do Metrô, por ser uma promessa de todos os governadores nos últimos 30 anos, mas que nunca foi cumprida. A Linha 3, sairia de Niterói e iria até às instalações do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Dessa forma, iria desafogar muito o trânsito, melhorando a mobilidade da cidade. Essa foi uma promessa feita durante a campanha do (governador do RJ) Sérgio Cabral.

Outra cobrança é em relação à licitação dos transportes públicos da cidade, a fim de melhorar a qualidade de serviços. Muitos bairros não possuem linhas, e moradores têm de andar de 2 a 3 quilômetros para conseguir transporte.

Meu bairro, por exemplo, é servido por quatro linhas de ônibus, mas são todas da mesma empresa. Mesmo com a farta oferta, às vezes ficamos uma hora esperando no ponto.

Havia também reivindicações mais gerais, com cartazes e manifestantes gritando slogans sobre a Fazenda Colubandê, uma residência rural do século 18 e tombada em 1940, mas que permanece abandonada há muito tempo.

Vi centenas de pautas, desde a questão dos transportes, passando pela saúde, segurança, legalização da maconha. Talvez isso seja natural, o movimento só está mobilizando por não ter um programa pré-estabelecido e, talvez, com o amadurecimento, vá desenvolver essas pautas.''

* Romário Régis é coordenador da Clique Agência Papa Goiaba, em São Gonçalo, projeto de empreendedorismo social voltado para jovens.



Raika Julie e Silvana Bahia *

Do Rio de Janeiro

Moradores das favelas cariocas estiveram presentes nas manifestações desde o começo. A jornalista Thamyra Thâmara, da favela do Complexo do Alemão e integrante do coletivo OcupaALEMÃO, conta que no início dos protestos muitos moradores das comunidades não estavam levantando bandeiras específicas.

''No primeiro momento, estávamos lá mais como observadores. Documentando e buscando entender como aquilo tudo se relacionava com a gente diretamente, talvez buscando identificação com o movimento'', explica.

Diferentes coletivos de favelas estavam presentes nas manifestações. Alguns com o intuito de documentar o movimento em fotos e vídeos.

Foi o caso dos fotógrafos populares do projeto Imagens do Povo, da escola de fotografia da Favela da Maré, e do Fórum de Juventude do Rio de Janeiro, formado por jovens de diferentes comunidades.

Por meio das redes sociais, em especial pelo Facebook, vídeos feitos por comunicadores populares eram difundidos na internet, trazendo outros olhares sobre os protestos e as demandas de quem também é afetado diretamente com as mudanças na cidade - demandas que muitas vezes não são noticiadas.

No ato do dia 20, nas favelas do Complexo do Alemão e de Manguinhos, moradores se organizaram e fretaram dois ônibus para irem ao Centro.

A juventude das favelas sentiu a necessidade de ter uma participação mais ativa no movimento. E levou muita gente, exibindo reivindicações das comunidades cariocas: "Não às remoções"; "Contra o genocídio da juventude negra"; "UPPs e seus abusos"; "Contra a resolução 013", em menção à medida que impede a realização de eventos culturais, esportivos e sociais sem a autorização prévia das autoridades locais - no caso das favelas pacificadas, do comandante da UPP.

Thamyra resume o espírito da juventude: ''Estamos numa disputa de cidade e de discurso. Se a gente não aproveitar o 'bonde' e entrar agora, vamos entrar quando? Até quando a juventude de favela vai estar fora do debate da cidade, da cidadania, dos direitos?"

"Para mim, a manifestação em si não é o mais importante. O importante é o que vem daí. O que faremos a partir daí?'', indaga a jornalista.

* Raika Julie e Silvana Bahia são integrantes do projetoClique Observatório de Favelas, uma organização que faz pesquisas, consultorias e ações públicas sobre as favelas e fenômenos urbanos.

Paulo Leminski Morte matada -biscate social clube


En la lucha de classes
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas

Paulo Leminski


Morte Matada
Publicado em 27 de junho de 2013 por Borboletas nos Olhos

Você sabe o que é morrer? Acabou vida. Acabou beijo na boca, beber cerveja, atravessar a rua, dizer palavrão, tacar o dedão na quina da mesa. Acabou rir com os amigos, abraçar gente querida, se meter em briga de bar, cutucar bicho de pé, comer de boca aberta, dormir até mais tarde. Acabou procurar emprego, reclamar do emprego, trocar de emprego, sonhar com emprego. Acabou trepar. Acabou beber café quente, jogar lixo no chão, dar um mergulho na praia, visitar a avó. Acabou batucar na caixa de fósforo, combinar balada, lavar louça, varrer chão. Acabou sentir fome, sono, medo, amor. Acabou ser biscate, falar mal de biscate, bater em biscate, defender biscate. Morrer, até prova em contrário, é isso aí: acabou. Não tem mais. Não tem mais vida. Não tem, nem vida biscate nem outra qualquer. Não tem. Acabou. Fim.

Pode-se morrer de tanta coisa: doença, acidente, tempo. Morte morrida e morte matada. E a gente, que fica, dá sentido (ou não). A gente chora. A gente sente falta. A gente dói. A gente lamenta.

E, algumas vezes, a gente ignora. Ou se indigna. E protesta. E esbraveja. E questiona. Estar na rua, no Brasil, mata. Mas mata com olho clínico, quase sempre. Mata negro. Mata pobre. Mata e a gente nem conta, nem nota, nem registra. Nem diz do jeito certo. Diz assim: morreu. Não morreu não, viu? Foi morto. Mataram.

Ontem, em Belo Horizonte, morreu um moço: Douglas Henrique Oliveira, estudante. Morreu. Mataram, digo eu. Caiu do viaduto, diz a notícia. Eu digo que foi morto pelo Estado. Hoje é estudante. Ontem, vivo e manifestando-se, talvez fosse “vândalo”, “baderneiro”. Eu leio por aí: tragédia. Eu digo: crime.

Antes (e as coisas acontecem e se atropelam e parecem demandar esquecimento, mas eu me recuso) morreram (morreram? mataram!) 12 pessoas no Conjunto de Favelas da Maré. Nas favelas as balas não são de borracha. Procuro os nomes para colocar aqui, no post, e não encontro. Ou antes, só o do sargento do BOPE, o 13º morto. Nossa sociedade é de privilégios, até ter nomeada a morte é um deles.

As justificativas são muitas e fáceis: era baderneiro, era bandido, era suspeito. A gente liga a televisão e a repórter nos esclarece: a polícia teve que reagir (coitada, a gente sente o tom pungente) contra esses vândalos (aí, sim, o tom ardente) que, que, que…ousam. Ousam questionar o status quo, a divisão de bens, ousam indignar-se e, algumas tristes vezes, ousam apenas isso: existir.

Mas o que é uma, duas, trezes, tantas vítimas, tantas mortes ante a preservação do patrimônio, não é?

Então, eu me indigno. Me revolto. Eu esbravejo. Eu choro. Minhas lágrimas e minha dor de pouco (pouco? nada) valem. Mas existem. Urge rever os valores que sustentam nossas relações sociais. É abominável que haja tanta lamentação por carros e concessionárias e móveis e tanto silêncio e indiferença à vida humana.

Ignorar essas mortes, colocá-las na conta dos equívocos, das tragédias, da única opção, é ser conivente com elas. É criminoso.

E toda essa ignomínia pode ser agravada. Hoje se vota a lei Antiterrorismo e, até eu que sou tola e Pollyana, passo os olhos e identifico a busca de criminalizar os movimentos sociais. E o que pode vir daí senão mais perdas, mais dores, ausências e mortes arbitrárias?

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Comportamento de “coxinhas” paulistanos



Comportamento de “coxinhas” paulistanos é tema de análise sociológica

23/6/2013 12:28
Por Redação - de São Paulo


(co.xi.nha) Bras. Cul.

sf.
1 Coxa de galinha, que se usa ger.
na preparação de canjas e sopas,
ou como parte do frango à passarinho

sf.
2 Salgadinho empanado e frito
em forma de coxa de galinha,
com uma porção de sua carne
envoltos em massa de farinha de trigo
[F.: coxa + -inha.]•
manifestação coxinha

Manifestação coxinha

As manifestações que se proliferam Brasil afora deixaram, em São Paulo, marcas muito maiores do que a vitória do Movimento Passe Livre, que conseguiu reduzir em R$ 0,20 o preço da passagem nos transportes públicos. Incluiu mais um significado à palavra “coxinha” e ao verbo “coxiinhar” para, no futuro, ser sintetizada nos dicionários.

Por agora, no calor dos pneus em chamas, entre balas de borracha e gás de pimenta, o cientista social Leonardo Rossatto e o professor de Português Michel Montanha, de Santo André, no ABC paulista, redatores do blog Aleatório, Eventual & Livre, fazem uma “análise sociológica” do significado do termo, aplicado à definição de quem integra “um grupo social específico, que compartilha determinados valores”, segundo o texto.

Leia-o, adiante, na íntegra:

O Coxinha – uma análise sociológica

Um fenômeno se espalha com rapidez pela megalópole paulistana: os “coxinhas”. É um fenômeno grandioso, que proporciona uma infindável discussão. A relevância do mesmo já faz com que linguistas famosos se esforcem em entender a dinâmica do dialeto usado por esse grupo, inclusive.

Afinal, quem são os coxinhas, o que eles querem, como esse fenômeno se originou? O que eles são?

“Coxinha”, sociologicamente falando, é um grupo social específico, que compartilha determinados valores. Dentre eles está o individualismo exacerbado, e dezenas de coisas que derivam disso: a necessidade de diferenciação em relação ao restante da sociedade, a forte priorização da segurança em sua vida cotidiana, como elemento de “não-mistura” com o restante da sociedade, aliadas com uma forte necessidade parecer engraçado ou bom moço.

Os coxinhas, basicamente, são pessoas que querem ostentar um status superior, com códigos próprios. Até algum tempo atrás, eles não tinham essa necessidade de diferenciação. A diferenciação se dava naturalmente, com a absurda desigualdade social das metrópoles brasileiras. Hoje, com cada vez mais gente ganhando melhor e consumindo, esse grupo social busca outras formas de afirmar sua diferenciação.

Para isso, muitas vezes andam engomados, se vestem de uma maneira específica, são “politicamente corretos”, dentro de sua noção deturpada de política, e nutrem uma arrogância quase intragável, com pouquíssima tolerância a qualquer crítica.

A Origem

Existe muita controvérsia a respeito do tema. Já foram feitas reportagens para elucidar o mistério, sem sucesso, mas é hora de finalmente revelar a verdade a respeito do termo.

A origem do termo “coxinha”, como referência a esse grupo diferenciado, não tem nada de nobre. O termo é utilizado, ao menos desde a década de 80, para se referir aos policiais civis ou militares que, mal remunerados, recebiam também vales-alimentação irrisórios, também conhecidos como “vales-coxinha” (os professores também recebem, mas não herdaram o apelido). Com o tempo, a própria classe policial passou a ser designada, de forma pejorativa, como “coxinhas”. Não apenas por causa do vale, mas por conta da frequência com que muitos policiais em ronda, especialmente nas periferias das grandes cidades, acabam se alimentando em lanchonetes, com salgados ou lanches rápidos, por conta do caráter de seu serviço.

Os policiais, apesar de mal remunerados, são historicamente associados à parcela mais conservadora da sociedade, por atuarem na repressão aos crimes, frequentemente com truculência. Com o a popularização de programas policialescos como Aqui Agora, Cidade Alerta e Brasil Urgente, o adjetivo “coxinha” passou a designar também toda a parcela de cidadãos que priorizam a segurança antes de qualquer outra coisa. Para designar essa parcela que necessita de “diferenciação” e é individualista ao extremo, foi um pulo.

Expoentes

Não cabe citar socialites ou coisa do tipo. São pessoas que vivem em um mundo paralelo essas daí. Mas vou citar três criadores de tendências no universo coxinha:

1) O “engraçado”: Tiago Leifert
Um exemplo do que o Tiago Leifert trouxe pro jornalístico Globo Esporte: apostas babacas envolvendo a seleção da Argentina

Um exemplo do que o Tiago Leifert trouxe pro jornalístico Globo Esporte: apostas babacas envolvendo a seleção da Argentina

Uma característica importante do coxinha padrão é tentar ser descolado, descontraído e não levar as coisas a sério. E nisso o maior exemplo é esse figurão da foto ao lado. Filho de um diretor da Globo, cavou espaço para introduzir o jornalismo coxinha na grade de esportes da emissora. Jogos de futebol valem menos do que as piadas sem graça sobre os jogos. Metade do Globo Esporte é sempre sobre vídeo-game ou sobre a dancinha nova do Neymar, e TUDO vira entretenimento, não esporte.

Prova disso são declarações do próprio, como a declaração em que ele diz que não leva o esporte a sério, ou quando fala que o Brasil não é o país do futebol, é o país da novela. Isso revela duas características do coxinha default: ele não aceita críticas (e isso fica claro pelo número imenso de usuários bloqueados no Twitter pelo Tiago Leifert – incluindo este que vos escreve) e ele não tem conteúdo, provocando polêmicas para aparecer. Tudo partindo, obviamente, da necessidade quase patológica de diferenciação.

2) O “bom moço”: Luciano Huck

O apresentador, que revelou beldades como a Tiazinha e a Feiticeira na Band, na década de 1990, virou, na Globo, símbolo do bom-mocismo coxinha. Faz um programa repleto de “boas ações”, que, no fundo, são apenas uma afirmação de superioridade, da mesma forma que a filantropia dos Rockfellers no início do século XX. Puro marketing.

Quando você reforma um carro velho ou uma casa, além de fazer uma boa ação, você se autopromove. Capitaliza com o drama alheio mostra que, além de “bondoso”, você é diferente daquele que você está ajudando. Como preza a cartilha do bom coxinha.
Luciano Huck apresentou ao público Tiazinha e A Feiticeira

Aparência de bom moço. Só aparência. Luciano Huck apresentou ao público Tiazinha e A Feiticeira

Além disso, Luciano Huck é a representação da família bem sucedida e feliz. Casado com outra apresentadora da Globo, Angélica, forma um dos “casais felizes” da emissora. Praticamente uma cartilha de como montar uma família coxinha. “Case-se com alguém bem sucedido, tenha dois ou três filhos, e leve eles para festinhas infantis junto com outros filhos de famosos”.

Para se mostrar engajado e bom moço, Huck deu até palestra sobre sustentabilidade na Rio+20. Irônico, pra quem foi condenado por crime ambiental, em Angra dos Reis. Ele fez uma praia particular sem autorização. Diferenciação, novamente. Isolamento. Características típicas do coxinha default. Assim como “ter twitter”. Mas o twitter dele é praticamente um bot, só serve pra afagar seus amigos famosos e mandar mensagens bonitinhas.

3) A “Coxinha Política”: Soninha Francine
Soninha Francine

Soninha Francine

O terceiro e último (graças a Deus) exemplo de coxinha é a figura da imagem acima. Soninha Francine deve ser o maior caso de metamorfose política do Brasil. Até 2006 era petista convicta, mas o vírus da COXINHICE já afetava seu cérebro, a ponto dela sair na capa da Época em 2001 falando “eu fumo maconha”, provavelmente por um brilhareco.

Daí ela saiu do PT, entrou no PPS, caiu nos braços de José Serra e do PSDB paulista e se encontrou. Tenta conciliar a fama de “descolada”, adquirida nos anos como VJ da MTV, com uma postura política típica de um coxinha padrão: individualista e conservadora. E, pra variar, manifesta tais posturas via… Twitter. Emblemático foi o dia em que Metrôs BATERAM na Linha Vermelha e ela, afogada em seu individualismo, disse que não encarou nenhum problema e que o Metrô estava “sussa”. Assim como a acusação de “sabotagem” do Metrô às vésperas da eleição de 2010.

Soninha ajuda a definir o estereótipo do coxinha default. O coxinha tenta de forma desesperada parecer um cara legal, descolado e antenado com os problemas do mundo. Mas não consegue disfarçar seu individualismo e sua necessidade de diferenciação. Não consegue disfarçar seu rancor quando os outros passam a ter as mesmas oportunidades e desfrutar dos mesmos serviços que ele.

Conclusão

O coxinha é um fenômeno sociológico disseminado em vários lugares, mas, por enquanto, só “assumido” em São Paulo (em outras cidades, os coxinhas ainda devem ter outros nomes). Não por acaso, tendo em vista que São Paulo é um dos ambientes mais individualistas do Brasil.

São Paulo é uma das cidades mais segregadas do país. É uma cidade de grande adensamento no Centro, com as regiões ricas isoladas da periferia. A exclusão é uma opção dos mais ricos. Eles não querem se misturar com o restante da população. E, nos últimos anos, isso ficou mais difícil: não dá mais pra excluir meramente pelo poder econômico. Daí, é necessário expor um personagem, torná-lo um padrão, pra disseminar essa mentalidade individualista e conservadora: é aí que surge o coxinha.

E isso é bom. Porque o coxinha, hoje, é exposto ao ridículo pelo restante da sociedade. Até algum tempo atrás, ele era apenas uma personagem latente. Ele não aparecia, portanto, não podia ser criticado ou ridicularizado. No final, o surgimento dos coxinhas só reflete a mudança do nosso perfil social. E, por incrível que pareça, o amadurecimento de nossa sociedade.