segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O ritmo na queda da desigualdade no Brasil é aceitável?

Revista de Economia Política

Print version ISSN 0101-3157

Rev. Econ. Polit. vol.30 no.3 São Paulo July/Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31572010000300001 

O ritmo na queda da desigualdade no Brasil é aceitável?


Sergei Suarez Dillon Soares*



ABSTRACT
The rhythm in the fall of inequality in Brazil is acceptable? Evidences of the historical and international context. The following study uses two approaches to answer the question of whether inequality in Brazil is falling fast enough. The first is to compare the variation of the Gini coefficient in Brazil with what was observed in several countries that today belong to the OCDE (United Kingdom, United States, Netherlands, Sweden, France, Norway, and Spain) while these same countries built their social welfare systems during the last century. The second approach is to calculate for how much Brazil must keep up the fall in the Gini coefficient to attain the same levels of inequality of three OCDE countries that can be used as a reference: Mexico, the United States, and Canada. The data indicate that the Gini coefficient in Brazil is falling 0.7 point per year and that this is superior to the rhythm of all the OCDE countries analyzed while they built their welfare systems but Spain, whose Gini fell 0.9 point per year during the 1950s. The time needed to attain various benchmarks in inequality are: 6 years to Mexico, 12 to the United States and 24 to Canadian inequality levels. The general conclusion is that the speed with which inequality is falling is adequate, but the challenge will be to keep inequality falling at the same rate for another two or three decades.
Keywords: inequality; income distribution; international comparissons.
JEL Classification: D31.




A QUEDA NA DESIGUALDADE É OU NÃO SUBSTANCIAL
A recente queda na desigualdade no Brasil tem sido exaustivamente documentada em diversas publicações nos últimos dois anos. Talvez por vir de modo um tanto surpreendente após décadas de estabilidade inaceitável dos índices de desigualdade em níveis muito altos, talvez por estar ligada a políticas de transferências de renda identificadas com o atual governo, o debate tem sido amplo e bastante forte. Estudos sobre a queda na desigualdade foram feitos por Rodolfo Hoffmann na Unicamp (2006), por Francisco Ferreira, Phillippe Leite e Julie Litchfield (2006) no Banco Mundial e por Marcelo Neri (2006) na Fundação Getulio Vargas. Uma edição especial da revista Econômica (junho de 2006) foi dedicada ao tema. No Ipea, conhecido por abrigar estudiosos do tema há muitos anos, duas notas técnicas, 11 textos para discussão e um livro foram publicados sobre o tema.
A vedete da queda, o impacto sobre a desigualdade dos programas de transferência de renda, foi analisado por Hoffmann (2006), Soares (2006), Soares, Soares, Medeiros e Osório (2006), e Paes de Barros, Carvalho, Franco e Mendonça (artigo na Econômica 2006 e Texto para discussão do IPEA, também de 2006). As mudanças no perfil educacional da população ocupada foram objeto de estudos de Foguel e Azevedo (2006) e Paes de Barros, Franco e Mendonça (2007). A relevância dos preços relativos foi estudada por Neri (2006) e Soares e Osório (2007). As mudanças na estrutura demográfica e a relação que estas mantêm com a queda na desigualdade foi analisada por Wajnman, Turra e Agostinho (2007). Finalmente, a importância preponderante do mercado de trabalho foi analisada por Ulyssea (2007). Em suma, embora ainda haja mais perguntas que respostas sobre o porquê da queda da desigualdade no Brasil, há algumas dezenas de estudos sobre as razões que levaram a esta mesma redução.
No bojo desta extensa produção sobre o tema, uma pergunta tem dividido os estudiosos: "Quão relevante é a queda na desigualdade no Brasil?".
Se a queda na desigualdade é pouco relevante, seja porque não é estatisticamente significativa, seja porque as pesquisas domiciliares a sobre-estimam, seja simplesmente porque o ritmo de queda até agora tem sido lento, então o volume de trabalho dedicado ao tema e o tom triunfalista de alguns dos estudos não se justificam. Caso contrário, a atenção dada ao tema e o tom predominantemente otimista são justificados.
Não há dúvida sobre o fato da desigualdade, tal como medida pelas pesquisas domiciliares, ter caído de modo estatisticamente significativo, como atesta Azevedo (2007). Os cálculos foram feitos e a queda é significativa. Trata-se de um problema resolvido.
Há menos consenso sobre o grau de submensuração das pesquisas domiciliares, uma vez que, por razões amostrais e de questionário, não medem rendas muito elevadas1, principalmente as rendas do capital. Paes de Barros, Cury e Ulyssea (2007), comparando resultados da PNAD, da POF e das Contas Nacionais, argumentam que esta subestimação é pequena e relativamente constante no tempo. Já Dedecca (2007) e Salm (2007) argumentam que a subestimação é grande e pode estar aumentando devido à redução da remuneração do fator trabalho nas contas nacionais. Trata-se de uma questão ainda em aberto.
A terceira pergunta, tão relevante quanto a possível subestimação das altas rendas do capital, é se o ritmo de queda no índice de Gini é adequado ou não. Afinal, entre 2001 e 2006 houve uma queda de 3,45 pontos de Gini (x100) na desigualdade, o que equivale a menos que 6% da desigualdade inicial do país. Isto é suficiente?
O objetivo deste texto é dar elementos de resposta a esta última pergunta mediante comparações históricas e internacionais. Para tanto, serão feitas: (i) comparações entre a atual queda na desigualdade no Brasil e as quedas na desigualdade dos países que hoje pertencem à OCDE enquanto estes mesmos construíam seus estados de bem-estar social; (ii) estimações da distância que nos separa hoje de alguns países que podem ser usados como referência. Espera-se que estas informações sirvam de subsídio para que outros formulem uma decisão sobre se o ritmo de queda do índice de Gini de aproximadamente 0,7 ponto percentual ao ano pode ou não ser considerado razoável, meritório de comemoração e se estudos no futuro próximo devem ter como pergunta orientadora "por que caiu?" ou "por que caiu tão pouco?".

OS DADOS BRASILEIROS
Outros trabalhos na extensa literatura citada acima analisam relações de dominância entre distribuições de renda e diversas medidas de desigualdade. Por isso, neste trabalho será usada uma única medida de desigualdade: o coeficiente de Gini. A principal razão disto é que se trata da medida mais usada tanto no Brasil como no restante do mundo, o que facilita a difícil tarefa de fazer comparações. A distribuição de renda usada será sempre a distribuição de renda que mais se aproxima da distribuição de bem-estar: a distribuição da renda domiciliar per capita, após impostos e transferências ou, na ausência desta, a que for mais próxima.
No Brasil, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) é a única fonte sobre a distribuição de renda, tal como definida acima, que é comparável ao longo do tempo, de abrangência nacional2 e anual. Os Censos demográficos também são comparáveis entre si, mas ocorrem apenas a cada dez anos. A PNAD nos oferece dados sobre uma distribuição de renda que é próxima da que desejamos, mas não inteiramente. A PNAD contabiliza as transferências, mas apenas uma parte dos impostos. Teoricamente, a pergunta da PNAD sobre renda é sobre renda bruta, embora existam evidências, apontadas por Rocha (2002), que de fato as pessoas respondam renda líquida. A PNAD certamente não contabiliza impostos diretos tais como IPTU ou IPVA, e os impostos indiretos, é claro, não podem ser medidos sem a disponibilidade de informações sobre o consumo.
Finalmente, a pergunta sobre rendimentos do capital na PNAD é particularmente ruim e a Pesquisa subestima estes rendimentos por um fator de quatro (ver Paes de Barros, Cury e Ulyssea (2006)). Mesmo com uma pergunta melhor sobre rendimentos do capital, como a da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), estes mesmos ainda encontram-se subestimados em 30%, relativo às contas nacionais. Há uma limitação inerente ao uso de uma pesquisa domiciliar: grandes fortunas, que são poucas, têm probabilidade muito pequena de cair na amostra. Ainda assim, a pergunta sobre rendimento do capital poderia ser muito melhor na PNAD e a mensuração de rendimentos oriundos de fontes que não o trabalho e a seguridade social é uma das maiores fraquezas da PNAD.
O leitor atento perguntará por que não usar então a POF, que permitira a contabilização de grande parte das omissões da PNAD. A razão é simples: enquanto há 31 PNADS cobrindo a quase totalidade do território nacional de 1974 a 2006 há apenas uma única POF, a de 2003, com abrangência nacional3. Em 2010 estarão disponíveis os dados da POF de 2008, mas até então a POF de 2003 não é comparável com nenhuma outra pesquisa.4
Apesar das limitações acima, Paes de Barros, Cury e Ulyssea (2006) mostram que a renda tal como medida na PNAD aproxima-se muito da renda medida pela POF, sendo substancialmente diferente apenas entre os mais pobres, que têm muita renda não monetária, e os mais ricos, que têm muita renda do capital. Bernardo Campolina Diniz e seus coautores (2007), em uma análise mais minuciosa, chegam a conclusões semelhantes: a renda média medida na POF difere da renda da PNAD em 15% e o Coeficiente de Gini difere em 0,7%. Ou seja, a despeito de suas omissões, a renda da PNAD aproxima-se da renda, medida de modo mais completo, na POF.
A discussão acima deve ter deixado claro que a PNAD sofre de várias limitações como instrumento para medir com precisão o nível de desigualdade no Brasil. As mais graves são a submensuração de rendimentos elevados do capital e a ausência de impostos diretos. Quão sérias são estas limitações é uma pergunta que não pode ser respondida sem melhores informações de outras fontes. O que se pode afirmar é que a renda medida na PNAD é medida de forma coerente todos os anos — ou seja, as limitações são as mesmas em 2001 e 2006 — e é a única fonte anual comparável sobre a distribuição de renda no Brasil. Portanto, não há outra fonte a ser usada.
A Figura 1 abaixo mostra a evolução do coeficiente de Gini da renda domiciliar per capita, conforme medida pela PNAD. Entre 2001 e 2006, houve uma queda de 3,45 pontos no coeficiente de Gini (x100) brasileiro, o que equivale a 0,7 ponto por ano neste período. Isto equivale a uma redução de 5,8% na desigualdade durante os cinco anos ou 1,1% ao ano. Isto é pouco ou é muito?


A primeira resposta advirá de comparações históricas com a queda no coeficiente de Gini dos países que hoje pertencem à OCDE enquanto estes mesmos montavam seus sistemas de bem-estar social. Embora as circunstâncias históricas sejam diferentes, não é descabido buscar nas experiências exitosas do passado orientação sobre como poderíamos prosseguir hoje.

A REDUÇÃO DA DESIGUALDADE NO SÉCULO PASSADO NOS PAÍSES DA OCDE
Encontrar dados adequados sobre distribuição de renda na primeira metade do século passado, no entanto, não é tarefa fácil. No início do século não havia, em nenhum país, pesquisas domiciliares confiáveis. Alguns países que hoje pertencem à OCDE tinham dados tributários relativamente confiáveis, mas não a maior parte. Ao longo do século que se seguiu, tanto dados tributários como domiciliares melhoraram consideravelmente e hoje quase todos os países da OCDE contam com fontes de boa qualidade. Hoje é possível escolher registros tributários ou pesquisas domiciliares como fonte de dados; domicílio, domicílio fiscal ou indivíduo como unidade de análise; distribuição de renda primária ou secundária. No entanto, para a primeira metade do século ou até depois, temos que usar o que está disponível.
Os melhores dados se referem ao Reino Unido, onde há pesquisas domiciliares de abrangência nacional desde 1939. Nenhum outro país conta com boas pesquisas domiciliares tão antigas e comparáveis. Os dados ingleses advêm da Survey of Personal Incomes. Apesar dos dados serem coletados por uma pesquisa domiciliar, eles se referem à distribuição da renda per capita entre domicílios fiscais. Embora o conceito de domicílio fiscal seja próximo do conceito de domicílio, não é idêntico, e isso leva a diferenças potenciais entre as duas distribuições de renda. Por exemplo, frequentemente é vantajoso para cada um dos cônjuges declarar seus impostos separadamente, embora isto fosse mais raro no período sob análise. Se os dados fossem oriundos das estatísticas fiscais, haveria ainda o problema de omissão de dados dos domicílios mais pobres, que não declaram imposto de renda. No entanto, no caso da Survey of Personal Incomes, trata-se de uma pesquisa domiciliar.
Tal como nos dados brasileiros, as estimativas feitas a partir da Survey of Personal Incomes incluem transferências, mas apenas uma parte da tributação. Existem estimativas anteriores, mas estas não contam com tanta precisão uma vez que são feitas a partir de levantamentos salariais, e não de pesquisas domiciliares. A melhor destas estimativas anteriores data de 1911 e é incluída no Gráfico 2 apenas para mostrar quão elevada era a desigualdade inicial na Inglaterra — talvez próxima ao que se observa hoje no Brasil — e que já vinha caindo antes de 1939.



Os Estados Unidos também contam com bons dados sobre a distribuição de renda de 1929 em diante. Os dados americanos são oriundos de dados fiscais com abrangência nacional acrescidos de estimativas feitas por Selma Goldsmith (citados por Peter Lindert (1997)) de rendimentos de domicílios que não declararam impostos. Em outras palavras, os domicílios que declaram impostos fornecem as informações da parte superior da distribuição de renda e as rendas dos domicílios que não declaram são imputados. A despeito da imputação, a qualidade dos dados é considerada boa e a metodologia coincide com o coeficiente de Gini calculado usando dados da Current Population Survey a partir de 1947, quando esta começou a ser levantada, com discrepância em geral a partir da primeira casa decimal (em porcentagem). Mais uma vez, os dados se referem a domicílios fiscais, incluem transferências, mas deixam de fora boa parte da tributação.
Maiores detalhes encontram-se em Lindert (1997).
Os dois painéis do Gráfico 2 mostram três fatos com clareza. Primeiro, o ritmo de queda do coeficiente de Gini tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos, enquanto estes montavam seus sistemas de bem-estar social e reduziam seus níveis de desigualdade, foi inferior ao observado desde 2001 no Brasil. Enquanto a redução no Brasil do Gini foi de 0,7 ponto / ano, o ritmo britânico no período de maior queda, de 1938 a 1954, foi de 0,5 e o americano, de 1929 a 1944, foi de 0,6.
Segundo, o ritmo foi mantido por muito tempo. No caso britânico, a despeito do período de queda mais rápido ser de apenas 16 anos, entre o máximo em 1911 e o mínimo em 1972 passaram-se 61 anos. Não se mudou a distribuição de renda da noite para o dia. A melhoria da distribuição de renda foi uma tarefa de décadas.
Finalmente, é interessante comparar a evolução no Reino Unido com a dos Estados Unidos. Os dois países começaram o período com coeficientes de Gini parecidos, próximos a 50. O ritmo de queda nos Estados Unidos de 1929 a 1944 foi superior ao ritmo britânico, mas o Reino Unido chegou aos anos 1960 com um coeficiente de Gini quase dez pontos inferior ao americano. A diferença entre os dois foi que, a partir de 1944, os Estados Unidos aparentemente "se deram por satisfeitos" com sua distribuição de renda e saíram da corrida. E a tartaruga inglesa passou a lebre americana.5
O que se pode dizer sobre outros países da OCDE? Nem os Estados Unidos nem o Reino Unido hoje são modelos de igualdade na distribuição de renda. Tanto os países da Europa continental como os da Europa do norte têm sistema de bem-estar maiores e mais eficazes que os Estados Unidos ou Reino Unido. Como foi a queda da desigualdade nestes países?
O Gráfico 3 mostra a queda na desigualdade na Suécia (Göteborg) e nos Países Baixos. Ambos os conjuntos de dados advêm exclusivamente de dados tributários, então é possível que haja alguma omissão dos domicílios mais pobres. Embora peculiaridades — um grau extremamente elevado de declaração — do sistema tributário holandês e, principalmente, o sueco façam com que o impacto desta omissão não seja tão forte (veja Morrisson (2000) e Gustafsson e Johansson (2003) para maiores detalhes), é possível que a inclusão tributária faça com que o Gráfico 3 subestime a queda na desigualdade nos Países Baixos e na Suécia. A unidade de análise é novamente o domicílio tributário. A diferença entre os dois conjuntos de dados é a definição de renda. A distribuição de renda holandesa, tal como a brasileira, inglesa e americana, inclui transferências, mas não todos os impostos. Isto porque, a despeito dos dados brutos permitirem a contabilização dos impostos, os autores que levantaram as séries se interessavam mais pela renda bruta que pela renda líquida.



Já a distribuição de renda sueca é a distribuição de renda secundária de fato — i.e., inclui transferências mas exclui todos os impostos. Trata-se da única série histórica que retrata a construção do estado de bem-estar social que abrange, de fato, a distribuição de bem-estar econômico, uma vez que leva em conta o pagamento de todos os impostos diretos sobre a renda. Apesar de se restringirem apenas a uma cidade, os dados de Gustafsson e Johansson são os melhores que temos para qualquer país.
Mais uma vez, a mensagem do Gráfico é clara: os ritmos de redução de 0,2 ponto de Gini ao ano na Holanda e 0,5 na Suécia ficam abaixo dos 0,7 no Brasil, mas tanto na Holanda como na Suécia o esforço distributivo foi mantido por muitos anos, 43 nos Países Baixos e 33 na Suécia.
Finalmente, é possível encontrar na literatura estudos feitos para diversos países a partir de uma diversidade de fontes que contêm estimativas do coeficiente de Gini em pelo menos dois momentos no tempo. Morrisson e Snyder (2000) estimam o coeficiente de Gini para a França em 1929 e 1979, mostrando uma queda de 50 anos de duração a 0,3 ponto ao ano. Em outro trabalho, Morrisson (2000) faz uma meta-análise de trabalhos semelhantes, sendo que, para a Noruega, cobre o período de interesse para este texto. Finalmente, com base em pesquisas domiciliares, Espina (2000) expõe o maior ritmo de queda encontrado nesta pesquisa: 0,9 ponto ao ano de 1950 a 1960 na Espanha.
Os dados para os três países são estimativas feitas com base em dados fiscais. Além de usarem dados fiscais, são estimativas piores que as feitas para o Reino Unido, Estados Unidos, Países Baixos e Suécia (Göteborg). Morrison e Snyder (2000), em particular, avisam que a qualidade das estimativas não é muito confiável, dado o costume francês de não coletar dados individuais e sim agregados por categorias ocupacionais. Igualmente, as pesquisas domiciliares começaram na Espanha apenas em 1964 e informações anteriores são estimativas com base em dados fiscais.
A Tabela 1 também deixa claro que não há dúvida de que nosso ritmo de redução do coeficiente de Gini de 0,7 ponto ao ano esta adequado, se o critério de adequação for o ritmo histórico de redução da desigualdade nos países ricos que hoje contam com bons sistemas de bem-estar social. O desafio, no entanto, é manter o ritmo por outras duas ou três décadas.



Este critério de adequação, no entanto, não é o único. Outra possibilidade é olhar para o futuro e não o passado.

COMPARAÇÕES INTERNACIONAIS CONTEMPORÂNEAS
Se formos julgar nosso progresso em reduzir o fosso social que separa ricos e pobres no Brasil usando como referência o mesmo hiato em países que podemos eleger como modelos viáveis de civilização e equidade na distribuição de renda, o caminho a seguir para saber se nossa velocidade é ou não adequada é calcular em quanto tempo chegaremos em cada um destes modelos. Esta abordagem difere da anterior na medida em que não compara diretamente uma velocidade com outra e sim uma velocidade com uma distância, obtendo um período de tempo como resultado. Isto requer como parâmetro de interpretação o período de tempo que seria razoável para atingir um estado desejável de desigualdade. Para tal considero que o tempo gasto pelos países desenvolvidos — entre duas e três décadas, conforme a seção anterior — seja bom parâmetro.
Ao contrário do caso das comparações históricas, que impõem sérias limitações de dados e nos forçam a usar o que temos, as análises contemporâneas permitem comparar quase a mesma distribuição de renda em cada país. A maior limitação se encontra nos instrumentos de coleta amostrais — cada pesquisa tem seu conjunto idiossincrático de perguntas que não são nunca plenamente comparáveis. No entanto, é possível definir uma distribuição de renda e usá-la como parâmetro. Em outras palavras, embora haja diferenças em como os dados são coletados em cada pesquisa, não há mais a desculpa da limitação dos dados para comparar grandezas conceitualmente diferentes como domicílio e domicílio fiscal.
Retomando a discussão iniciada na seção anterior, pode-se pensar em três distribuições de renda domiciliar per capita:
i. A distribuição primária da renda. A distribuição primária é aquela dada pela remuneração obtida por cada família no mercado de fatores. Não há impostos nem transferências;
ii. A distribuição de renda com transferências se refere à distribuição primária mais todas as transferências monetárias feitas pelo Estado em favor das famílias. Exclui tanto o pagamento de impostos como o valor imputado de bens e serviços oferecidos diretamente pelo Estado;
iii. Finalmente há a distribuição de renda secundária completa, na qual o valor dos impostos é retirado da renda das famílias.
É claro que esta divisão é meramente contábil. Não é possível imaginar o funcionamento do sistema capitalista, e, portanto, a remuneração dos fatores de produção, na ausência do Estado.
As duas distribuições de renda que mais fazem sentido são a primária (i) e a secundária completa (iii). A distribuição de renda com transferências (ii) incorre em uma certa dupla contagem uma vez que, supondo um Estado redistributivo, a renda das transferências já foi depositada na conta dos mais pobres, mas os mais ricos ainda não pagaram a conta.
Para ver quão importante é a escolha da distribuição nas comparações contemporâneas, considere novamente o caso do Reino Unido. O Gráfico 4 mostra as três distribuições para o período 1977 a 2004.



O Gráfico mostra com clareza impressionante o efeito redistributivo do Estado de Bem-Estar Social. O coeficiente de Gini da distribuição de renda primária no Reino Unido em 2004 era de 51, valor apenas cinco pontos inferior ao que se refere à mesma distribuição no Brasil. Após as transferências, no entanto, o coeficiente de Gini cai a 36, ou seja, 15 pontos. No Brasil, as transferências do Estado retiram em torno de 4,2 pontos de Gini. A retirada dos impostos diretos, feita usando a POF, faz a desigualdade cair outros quatro pontos, conforme mostra Fernando Gaiger Silveira (2007). Infelizmente, não há como saber como estas diferenças evoluem no Brasil, uma vez que a PNAD não permite retirar com perfeição os impostos diretos, dado que há certa ambiguidade sobre se os indivíduos respondem, de fato, a renda bruta ou a líquida. Esta ambiguidade é particularmente grave no caso do rendimento dos trabalhadores por conta própria e pequenos empregadores. O que fica claro é que a ação do Estado reduz a desigualdade no Reino Unido em quase 20 pontos de Gini contra no máximo oito no Brasil.
O que temos disponível no Brasil é algo entre a distribuição (ii) e (iii), mas mais próxima da (ii). A pergunta na PNAD se refere claramente à renda bruta — ou seja, sem retirar os impostos diretos e contribuições sobre o rendimento dos fatores. No entanto, há indícios de que alguns indivíduos, principalmente trabalhadores por conta própria, respondem a renda líquida. A PNAD também contém as transferências monetárias do Estado e exclui o pagamento de alguns impostos diretos e taxas, como o IPTU ou o IPVA, além, é claro, de não incluir impostos indiretos. Resumindo, é provável que a distribuição de renda de fato medida pela PNAD esteja entre a distribuição (ii) e a (iii) no Gráfico 4 acima, mas mais próxima da (ii), se a PNAD fosse aplicada em solo britânico. Portanto, a distribuição de renda eleita para comparações internacionais é a distribuição de renda primária acrescida de transferências do Estado.
O Gráfico 5 mostra a evolução do coeficiente de Gini da distribuição de renda com transferências (ii) para o Brasil, México, Estados Unidos e Canadá. O Reino Unido é incluído para fins ilustrativos.



A evolução do coeficiente de Gini do Reino Unido foi incluída no Gráfico apenas para fins ilustrativos, uma vez que se trata de um dos países mais desiguais da União Europeia. Apesar de alguns dos países da União Europeia desfrutarem dos menores coeficientes de Gini no mundo, eles não foram incluídos como parâmetros uma vez que são inatingíveis, por serem países unitários com populações homogêneas. Não acredito que seja possível para o Brasil chegar ao coeficiente de Gini do Reino da Dinamarca.
Dentre os países citados acima, o México é aquele cujo coeficiente de Gini mais se aproxima do brasileiro. Trata-se, assim como o Brasil, de um país grande, latino-americano, com fortes divisões raciais e étnicas, mas, devido à sua trajetória histórica (principalmente o fato de ter feito uma forte reforma agrária no início do século passado), desfruta de níveis de desigualdade abaixo dos níveis brasileiros e é, entre os países grandes da América Latina, um dos menos desiguais. Se o Brasil mantiver a taxa de redução da desigualdade dos últimos cinco anos por outros seis, chegará a níveis mexicanos de desigualdade.
O próximo parâmetro são os Estados Unidos, que são, de longe, o país mais desigual dentre os países ricos da OCDE. Trata-se, assim como o Brasil, de um país grande, federativo e com fortes divisões étnicas e raciais. Trata-se também de um país onde a desigualdade não é considerada algo particularmente ruim e, se oriunda do mérito, até desejável. Se o Brasil mantiver o Gini em queda de 0,7 ponto ao ano, alcançará os níveis de desigualdade dos Estados Unidos de hoje em 12 anos — ou seja, em 2018.
Finalmente, há o Canadá, outro país grande, federativo e com fortes divisões étnicas, mas que leva a sério a manutenção de um estado de bem-estar social. A meu ver, é uma meta atingível para o Brasil. Continuando no ritmo dos últimos cinco anos, chegaremos aos níveis de desigualdade do Canadá em 24 anos, em 2030.6

CONCLUSÃO
Um país que se parece com o Canadá de hoje em termos de desigualdade não pode se parecer em nada com o Brasil que contemplamos da janela. Se continuarmos reduzindo nosso coeficiente de Gini a 0,7 ponto ao ano pelos próximos 24 anos, não será possível ter grandes favelas coexistindo com condomínios de luxo, indivíduos à beira da fome no sertão do Cariri vivendo no mesmo país cujos céus são cruzados por executivos viajando na segunda maior frota de aviões particulares do mundo, nem um exército de empregados particulares passando as roupas, encerando os pisos e lavando os banheiros da classe média. Pensar que o presente ritmo de redução do coeficiente de Gini levará a este novo país em meros 24 anos mostra que podemos estar no início de uma revolução no nosso padrão civilizatório.
Em outras palavras, os que defendem que é cedo para soltar foguetes para comemorar a queda da desigualdade estão ao mesmo tempo certos e profundamente errados. Estão profundamente errados se se referem ao ritmo de redução da desigualdade no Brasil, que é, como vimos, até alto para padrões históricos e permite chegar a um país igualitário em uma geração. Estão, no entanto, certos, se referem-se ao pouco tempo que este processo perdura. Se o coeficiente de Gini (x100) brasileiro se estagnar em 55,9, teremos apenas perdido o título de país mais desigual do mundo para ficar na metade de cima da América Latina, a região mais desigual do mundo.
Na ausência de guerras ou revoluções, mudanças no padrão distributivo de uma sociedade não ocorrem da noite para o dia. É possível que o coeficiente de Gini tenha caído vinte pontos em dez anos em Cuba após 1959 ou na Rússia após a Revolução de Outubro. Não sabemos por que os dados não existem ou não estão disponíveis.
O que sabemos é que em sociedades democráticas vivendo sob o estado de direito, as mudanças são lentas. O que difere um país que consegue construir uma sociedade igualitária de outros que param na metade do caminho é o fôlego para a caminhada mais que sua velocidade.
Portanto, se quisermos atingir os níveis de igualdade do Canadá precisamos nos preparar para passar os próximos 24 anos não apenas analisando o que deu certo até agora, mas também estudando, inventando e implementando novas políticas cujo objetivo é a redução do fosso social.
Do lado dos acertos, a literatura já mencionada neste artigo mostra que foram fundamentais para a redução da desigualdade o sistema de proteção social, principalmente o Programa Bolsa Família e as transferências indexadas ao salário mínimo. Os impactos dos aumentos no salário mínimo no mercado de trabalho, embora mais difíceis de medir que seus impactos como indexador de benefícios, também contribuíram para uma melhoria na distribuição de renda. Finalmente, melhorias paulatinas no padrão demográfico e educacional também contribuíram para uma distribuição de renda mais igualitária.
No entanto, algumas destas políticas têm limites naturais. A proteção social, em particular, sofre de limites orçamentários e administrativos. Grande parte das pessoas elegíveis para o Programa Bolsa Família já foi coberta; aumentos no salário mínimo eram muito distributivos em 2001, mas o foram menos em 2006. Se o Brasil vai continuar na sua trajetória rumo à igualdade, há que se pensar em outras políticas que ainda não levaram à redução da desigualdade: a política tributária, políticas para a redução de desigualdades raciais, políticas para a redução de desigualdades regionais, a política industrial e, é claro, melhorias na política educacional.
Apenas com um arsenal de políticas que inclui não apenas as que já funcionaram, mas também as que não funcionaram ainda ou nem sequer foram testadas, será possível ganhar a guerra contra a desigualdade.

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Submetido: Março 2008;
Aprovado: Fevereiro 2009.



* Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. E‑mail: sergei.soares@ipea.gov.br. O autor agradece os comentários extremamente úteis de Ana Flavia Machado, Fernando Gaiger, Miguel Foguel e Rafael Osório, que permitiram que o texto fosse consideravelmente melhorado. Como é de praxe, assume todos os erros como seus.
1Por muito elevado entende‑se acima de R$ 50 mil para renda do trabalho e valores bem menores para renda do capital.
2Até 2004, a PNAD não incluía a área rural da região Norte. A partir de 2004 passou a cobrir, de fato, todo o território nacional. No entanto, neste estudo a área rural da região Norte foi omitida dos dados de 2004 a 2006 para manter a comparabilidade com anos anteriores.
3Houve, em 1974 e 1975, o Estudo Nacional da Despesa Familiar (ENDEF), cuja abrangência foi nacional. No entanto, os microdados até hoje não foram disponibilizados pelo IBGE.
4Há o Estudo Nacional da Despesa Familiar (ENDEF) de 1974, que é essencialmente uma POF. No entanto, seus microdados nunca foram disponibilizados pelo IBGE. Há ainda diferenças de esquema amostral muito importantes que a tornam também incomparável com outras pesquisas.
5 Este texto não é o local adequado para discorrer sobre as transformações econômicas e as políticas públicas que levaram à redução da desigualdade nos países que hoje pertencem à OCDE, mas dois elementos estão sempre presentes. O primeiro é a redução das desigualdades na distribuição primária tanto mediante via mecanismos estritamente de mercados como a melhoria dos padrões educacionais como via políticas de rendas. O segundo são transferências cada vez mais generosas e cada vez mais focalizadas nos mais pobres.
6 A uma taxa de crescimento do PIB per capita média de 4%, o Brasil alcançará a renda média do Canadá em 35 anos, em 2041.
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 Veja o que diz Tony Judt, no seu livro O MAL RONDA A TERRA, Ed. Objetiva.
” A desigualdade é corrosiva. Faz com que as sociedades aprodeçam por dentro. O impacto das diferenças materiais exige algum tempo para se manifestar, mas aos poucos a competição por status e bens aumenta; as pessoas desenvolvem uma sensação de superioridade (ou inferioridade) baseada em seu patrimônio; cresce o preconceito contra os que ocupam os patamaes inferiores da pirâmide social; o crime se agrava e as patologias ligadas à desigualdade social se destacam ainda mais. O legado da acumulação desregulada da riqueza é amargo” . Duas páginas antes o autor escreve o que segue.
” Em 2005, 21,2% da renda nacional americana concentrava-se nas mãos de 1% dos cidadãos.Um contraste em relação a 1968, quando o CEO da General Motors ganhava, entre salários e benefícios, cerca de 66 vezes o salário médio de um trabalhador típico da GM. Hoje o CEO da Walmart tatura novecentas vezes o salário do empregado médio. Na verdade, a fortuna familiar dos fundadores da Walmart naquele ano foi estimada em 90 (noventa) bilhões de dólares, o mesmo valor da renda somada dos 40% mais pobres da população dos Estados Unidos: 120 milhões de pessoas. ” Nenhuma sociedade pode florescer e ser feliz enquanto a maior parte de seus integrantes for pobre e miserável”Adam Smith – citado no mesmo livro pelo autor.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

“eu apoio as nossas tropas” no lugar de 6,500 US Military Veterans Commit Suicide Every Year:






02.Fev.13 :: Outros autores
Os Republicanos e os assustados Democratas repetem sem cessar o lugar-comum vazio e hipócrita de que “apoiam as tropas”. Eu não “apoio as tropas”. O que apoio é o seu regresso a casa. É que sejam bem tratados. Apoio a paz, e peço a todos os jovens que leiam isto e que estejam a pensar juntar-se ao Exército dos EUA que, por favor, reconsiderem.


Eu não apoio as tropas, e tu, América, também não. Estou farto desta partida que estamos a pregar aos corajosos cidadãos nas nossas forças armadas. E, não sei se já repararam, muitos destes soldados, marinheiros, aviadores e fuzileiros percebem bem a treta nas palavras “Eu apoio as nossas tropas!”, proferidas por norte-americanos com pretensa sinceridade; pretensa porque as nossas acções não correspondem às palavras. Estes jovens homens e mulheres aceitam arriscar as suas vidas para nos proteger; e é isto que recebem em troca:
1. São enviados para combater em guerras que nada têm nada que ver com a defesa dos EUA ou com salvar as nossas vidas. São carne para canhão para que o complexo militar-industrial possa fazer milhares de milhões de dólares e os milionários dos EUA possam expandir o seu império. Quando eu afirmo “apoiar as tropas”, isso significa que tenho de calar a boca, não fazer perguntas, não fazer nada para parar a loucura e ficar sentado vendo milhares a morrer? Bem, eu já fiz muita coisa para tentar acabar com isto. Mas a única maneira de dizer honestamente que apoiamos as nossas tropas é trabalhar dia e noite para as tirar desses sítios infernais para onde foram enviadas. E o que fiz eu esta semana para trazer para casa as tropas? Nada. Então, se disser “eu apoio as tropas”, não acreditem em mim; claramente não apoio as nossas tropas, porque tenho coisas mais importantes a fazer hoje, tais como devolver um iPhone que não funciona e levar o meu carro à revisão.
2. Enquanto as tropas que dizemos “apoiar” servem o seu país, os banqueiros que dizem também “apoiar as nossas tropas” retomam as casas desses soldados e despejam as suas famílias enquanto eles estão fora! Fui eu ao departamento da polícia quando se preparavam para despejar a família de um soldado de sua casa? Não. E aí está a prova de que eu não “apoio as nossas tropas”, porque, se apoiasse, organizaria protestos em massa para bloquear as portas dessas casas. Em vez disso, tenho um belo prato de peixe para o jantar.
3. Quantos de vós, dizendo que “apoiam as nossas tropas”, visitaram um hospital de veteranos para ajudar e reconfortar doentes e feridos? Eu não o fiz. Portanto, poderiam bem dizer que eu não “apoio as tropas”, nem vocês.
4. Quem, de entre vós, entusiásticos “apoiantes das nossas tropas” sabe dizer-me o número aproximado de mulheres violadas no Exército? Resposta: 19 000 soldados, na sua maioria mulheres, são violadas ou vítimas de violência sexual, a cada ano, por companheiros de armas do Exército dos EUA . Que fizemos, eu ou vocês, para levar esses criminosos perante a justiça? Parece que vos estou a ouvir dizer: “longe da vista, longe do coração”. Estas mulheres sofreram e eu nada fiz. Portanto, não me deixem dizer “eu apoio as nossas tropas”, porque, infelizmente, não é verdade. E vocês também não o fazem.
5. Ajudar um veterano sem abrigo, hoje? E ontem? Na semana passada? No ano que passou? Ou alguma vez? Mas eu pensava que “apoiavam as nossas tropas”! O número de veteranos sem abrigo é impressionante; em cada noite que passa, pelo menos 60 000 veteranos dormem pelas ruas do país que orgulhosamente “apoia as suas tropas”. Isto é uma desgraça e uma vergonha, ou não é? Isto desmascara todos estes “apoiantes das nossas tropas” que votam sempre contra os programas sociais que ajudariam estes veteranos. Esta noite haverá pelo menos 12 700 veteranos do Iraque / Afeganistão sem abrigo a dormir na rua. Nunca estendi uma mão para ajudar um dos muitos veteranos que vi a dormir na rua. Não suporto vê-los e passo por eles a correr. A isso se chama não “apoiar as tropas”, que é o que faço, tal como vocês.
6. E sabem, o que é fantástico neste “apoio” que damos as nossas tropas é que eles sentem este amor e este apoio de tal modo que há um número recorde de soldados a suicidar-se a cada semana que passa. Em boa verdade, há agora mais soldados a suicidarem-se do que mortos em combate (323 suicídios em 2012 até Novembro, face aos 210 em combate). Sim, é mais provável morrer pelas próprias mãos no Exército dos EUA que ser morto pela al Qaeda ou pelos Taliban. Uns estimados 18 veteranos suicidam-se a cada dia que passa, ou em cada cinco, no cômputo de suicídios nos EUA (embora ninguém saiba exactamente quantos são, porque não nos preocupamos em manter esse registo). A isso que é que eu chamo apoio! Estas tropas sentem o nosso amor! Deixem-me ouvir-vos dizer: “Eu apoio as nossas tropas!” Mais alto! “EU APOIO AS NOSSAS TROPAS!” Isso, já está melhor. Tenho a certeza que eles nos ouviram. Não se esqueçam de agitar a nossa bandeira e de a usar na lapela, e nunca, mas nunca passem por um membro do exército sem dizer “obrigado pelo que fez”. Tenho a certeza de que é quando basta para os impedir de meter uma bala na cabeça. Façam o vosso melhor para manter o vosso “apoio”, porque, sabe Deus, eu já não posso mais.
Eu não “apoio as tropas” nem nenhum outro lugar-comum vazio e hipócrita dos que bradam os Republicanos e os assustados Democratas. Eis o que apoio: o seu regresso a casa. Que sejam bem tratados. Apoio a paz, e peço a todos os jovens que leiam isto e que estejam a pensar juntar-se ao Exército dos EUA, por favor, reconsiderem. O nosso departamento de guerra pouco tem feito para mostrar que não porão as vossas jovens vidas em risco por uma causa que nada tem que ver com aquilo que subscreveram. Não vos ajudarão depois de vos terem usado e hão-de marimbar-se para vocês quando regressarem à sociedade. Se forem mulheres, não vos protegerão dos violadores que existem no Exército. E porque vocês têm consciência e distinguem o certo do errado, não quererão ser usados para matar civis noutros países que nada nos fizeram de mal. Estamos actualmente envolvidos em pelo menos meia dúzia de acções militares em todo o mundo. Não se juntem às estatísticas apenas para aumentar os lucros da General Motors, entretanto livre dos impostos que vos poderiam pagar a prótese que há meses esperam receber.
Eu apoio-vos e tentarei fazer mais para vos apoiar. E a melhor forma que vocês têm de me apoiar, e aos ideais em que os norte-americanos dizem acreditar, é saírem do Exército assim que puderem, sem pensar duas vezes. E, por favor, na próxima vez que um qualquer “apoiante das nossas tropas” vos disser, com aquela expressão preocupada, “obrigado pelo vosso serviço”, têm a minha permissão para lhes partirem a cara (em sentido figurado, claro).
(Houve de facto uma coisa que fiz para apoiar as nossas tropas, para além de me juntar aos esforços para pôr fim a estas guerras sem sentido. Dirijo um cine-teatro em Michigan, onde me tornei no primeiro habitante a instituir um plano para contratar veteranos retornados do Iraque / Afeganistão. Estou a trabalhar para que mais negócios na cidade se juntem a este esforço de encontrar emprego para estes soldados retornados. Também permito o ingresso gratuito no cinema, todos os dias, aos membros do Exército).
3 de Janeiro de 2013 (Information Clearing House)
Tradução: André Rodrigues P .Silva

sábado, 2 de fevereiro de 2013

wiki



LONDRES – A Internet está se transformando no maior instrumento de vigilância já criado e a liberdade que ela representa estaria seriamente ameaçada. A avaliação é de Julian Assange, criador do Wikileaks e que, há sete meses, vive na embaixada do Equador em Londres. Para ele, a web redefiniu as relações de poder no mundo, se transformou no “sistema nervoso central hoje das sociedades” e chega a ser mais determinante que armas. O problema, segundo ele, é que esse poder está agora se virando contra as populações.

O australiano recebeu a reportagem do Estado para uma entrevista sobre seu livro “Cypherpunks, Liberdade e o Futuro da Internet”, que está sendo lançado no Brasil nesta semana pela Boitempo Editorial.

Apesar de aparentar relaxado, não escondia a palidez de sete meses dentro de um escritório. Em junho de 2012, ele optou por pedir asilo ao Equador, diante de sua iminente deportação para a Suécia, onde é acusado de assédio sexual. Segundo ele, sua decisão de pedir refúgio ao governo de Quito tem como meta evitar sua extradição da Suécia para os EUA, onde seria julgado pela difusão de documentos secretos. O Equador lhe concedeu asilo. Mas a polícia britânica indicou que, assim que ele pisar para fora da embaixada em direção ao aeroporto, seria detido. O resultado tem sido um confinamento sem data para acabar.

Mas essa situação não o deixou menos polêmico. Segundo ele, ao colocar informações em redes sociais, internautas pelo mundo estão fazendo um trabalho de graça para a CIA. “Hoje, o Google sabe mais sobre você que sua mãe”, disse. “Esse é o maior roubo da história”.

Assange ainda defendeu seu anfitrião, o presidente equatoriano Rafael Correa, diante de sua ação contra jornais no Equador e que chegou a ser criticado pela ONU.

Sobre o futuro do Wikileaks, Assange já prometeu que, em 2013, um milhão de novos documentos serão publicados. Ao Estado, ele garantiu: “haverá muita coisa sobre o Brasil””. Ao aparecer para a entrevista, Assange vestia uma camisa da seleção brasileira, num claro esforço de criar simpatia no Brasil e numa operação de imagem cuidadosamente trabalhada.

Eis os principais trechos da entrevista e as fotos de Joao Castelo Branco, as primeiras publicadas por um jornal brasileiro desde que o australiano pediu asilo ao Equador. 

Chade – A Internet é o símbolo da emancipação para muitos e foi apresentada como a maior revolução já feita. Mas agora o sr. traz a ideia de que há uma contra-ofensiva a isso tudo. O sr. considera que a Internet está em uma encruzilhada ?

Assange – Diferentes tecnologias produzem mais poder para estruturas existentes ou indivíduos e isso tem sido a história do desenvolvimento tecnológico, ao ponto que podemos ver a história da civilização humana como a história do desenvolvimento de diferentes armas de diferentes tipos. Por exemplo, quando rifles, que podiam ser obtidos por pequenos grupos, eram as armas dominantes em seu dia, ou navios de guerra ou bombas atômicas. E isso define a relação de poder entre diferentes grupos de pessoas pelo mundo. Desde 1945, a relação entre as superpotências dominantes tem sido definida por quem tem acesso às armas atômicas. Mas o que ocorre agora é que Internet é tão significativa que está começando a redefinir as relações de força que antes eram definidas pelos diferentes sistemas de armas que um país tinha. Isso porque todas as sociedades que tem qualquer desenvolvimento tecnológico, que são as sociedades influentes, se fundiram totalmente com a Internet. Portanto, não há uma separação entre o que nós pensamos normalmente que é uma sociedade, indivíduos, burocracia, estados e internet. A internet é o alicerce da sociedade, suas artérias, os nervos e está conectando os estados por cima das fronteiras. A Internet é um centro, se não for o centro, da nossa sociedade. Ela está envolvida na forma que uma sociedade se comunica consigo mesmo, como se comunica entre elas. Não é só simplesmente um sistema de armas ou fonte energia. Não é certo pensar como se fosse o sangue da sociedade. É o sistema nervoso central da socidade. Portanto, se há um problema na Internet, há um problema com o sistema nervoso da sociedade. Agora, víamos antes a internet como uma força liberatadora, que garantia às pessoas que não tinham informação com informação e, mais importante ainda, com conhecimento. Conhecimento é poder. Outras coisas tambem são poder. Mas ela deu muito poder a pessoas que antes não tinham poder. E não apenas mudou a relação entre os que tem poder e aquelas que não tem, dando conhecimento àqueles que não tinham conhecimento. Mas também fez todo o sistema funcionar de forma mais inteligente. Todos passaram a poder tomar decisões mais inteligentes e puderam passar a cooperar de forma mais inteligente. Agindo contrário a essa força está a vigilância em massa criada por parte do estado.

Chade – De que forma estaria ocorrendo essa vigilância em massa?

Assange – As sociedades se fundiram com a internet, diante do fato de que comunicações entre os indivíduos ocorrem pela Internet, os sistemas de telefone estão na Internet, bancos e transações usam a Internet. Estamos colocando nossos pensamentos mais íntimos na Internet, detalhes de comunicações e mesmo entre marido e muher, nossa posição geográfica. Enfim, tudo está sendo exposto na Internet. Isso signifca que grupos que estão envolvidos em vigilância em massa tem conseguido realizar uma transferencia em massa de conhecimento em sua direção. Os grupos que já tinham muito conhecimento agora tem mais. Esse é o maior roubo que de fato já ocorreu na história. Essa transferência de conhecido, de todas as comunicações interceptadas para agências nacionais de segurança e seus amigos corporativos. A tecnologia está sendo desenvolvida para essa vigilância em massa está sendo vendida por empresas de países, como a França, que vendeu um sistema de vigilância para o regime de Kadafi. Na África do Sul, há um sistema desenhado para gravar de forma permanente todas as ligações que entram e saem do país e as estocam por apenas US$ 10 milhões por ano. Está ficando muito barato. A população mundial dobra a cada 20 anos. O custo de vigilância está caindo pela metade a cada 18 meses.

Chade – Mas, justamente o sr. citou Kadafi. Muito acreditam que a Primavera Árabe só ocorreu graças à Internet. Não teria sido esse o caso?

Assange – Há uma série de histórias tradicionais de um longo trabalho de ativistas, de sindicatos e até de clubes de futebol que tiveram um papel importante na Tunísia e no Egito, os Ultras. O que é realmente novo? Bom, algumas coisas: o ativismo pan-arábico é algo novo e potenciado pela web. Diferentes ativistas em diferentes países se conectaram entre si pela web, trocando dicas, identificando quem era bem e quem era mau. O movimento dos Ultras vieram da Itália para os clubes da Tunísia e Egito. Como? Pela Internet. E então há o Wikileaks, jogando muita informação e essa informação então foi atacada pelo regime na Tunísia e depois pelo Egito. Mas também sendo disseminada pelo Egito e Tunisia. Mais importante ainda, essa informação foi disseminada para fora desses países, a tal ponto que ficou difícil para os Estados Unidos e Europa defenderem seus tradicionais aliados.

Chade – O sr. aponta para o poder de redes como Facebook e Google. Confesso que não tenho certeza que Mark Zuckerberg (criador do Facebook) pensou nisso tudo quando estava criando o site. Como é que se tornaram tão poderosos e como é que são, como o sr. diz, usados contra civis?

Assange – Google, essencialmente, sabe o que você estava pensando. E sabe também (o que vc pensou) no passado. Porque quando você tem algum pensando sobre algo, quer saber algum detalhe, você busca no Google. Sites que tem Google Adds, que na verdade são todos os sites, registram sua visita. Portanto, Google sabe todos os sites que você visitou, tudo o que você buscou, se você usou gmail ou email. Então ele te conhece melhor que você mesmo. Um exemplo: você sabe o que você buscou há dois dias, há três meses? Não. Mas o Google sabe. Google conhece você melhor que sua mãe. Claro, mas alguém pode dizer: Google só quer vender publicidade. Portanto, quem se importa que eles estejam fazendo isso. Mas, na realidade, todas as agências de inteligência americana e de aplicação da lei tem acesso ao material do Google. Eles acessaram isso em nosso caso.

Chade – Como fizeram isso?

Assange – Eles usaram instrumentos como cartas da agência de segurança nacional e mandados para buscar os dados de email das pessoas envolvidas em nossa organização. Isso saiu do Google, da conta do Twitter, onde pessoas entraram para acompanhar a nossa conta. No caso do Facebook, é algo impressionante. As pessoas simplesmente estão fazendo bilhões de centenas de horas de trabalho gratuíto para a CIA. Colocando na rede todos seus amigos, suas relações com eles, seus parentes, relatando o que estão fazendo, dizendo que vi aquela pessoa naquela festa, aquela pessoa naquela loja. É um incrível instrumento de controle. Países como a Islândia tem uma penetração do Facebbok de 88%. Mesmo que você não esteja no Facebook, você pode ter certeza que teu irmão está e está relatando sobre você, ou sua namorada está relatando sobre você. Não há como escapar. Agora, quando uma organização como Facebook diz que as pessoas querem fazer isso…

Chade – Claro, essa é justamente a minha questão: como o sr. explica que pessoas de diferentes culturas e religiões estão dispostas a revelar suas vidas diante da web?

Assange – Claro, sobre o que é que você está paranoico. Você pode dizer: bom, estou fazendo isso de forma voluntária e é mais importante estabelecer conexões sociais que se preocupar com um aparato de um estado totalitário. O problema é que isso não é verdade. As pessoas dizem que querem compartilhar algo apenas com meus amigos e amigos de meus amigos, mas não com meus amigos e com a CIA. É uma decepção o que está ocorrendo. As pessoas estão sendo enganadas em desenvolver essa atividade.

Chade – Entendo esse ponto claramente. Mas estamos vendo também censura na China, no Irã e em Cuba, países que parecem estar de fato mais temerosos da Internet. Isso não mostraria que a web é mais ameaçadora para esses regimes que para os civis?

Assange – Acho que você não pode generalizar “esses regimes”. Temos de olhar cada um deles de forma apropriada. Pessoas censuram por um motivo. Censuram porque tem medo, ou porque querem ter mais poder. Normalmente, eles querem manter seu poder. Porque o Irã censura?Bom, porque teme que pessoas dentro do Irã sejam influenciadas por material em persa publicado fora do Irã. E quem publica isso? Bom, alguns são de dissidentes genuínos. Mas também há empresas de fachada, criadas pelos israelenses, pelos Estados Unidos. Isso é umm fato. Inclusive pela BBC em Persa. Denunciamnos essas empresas de fachada no Wikileaks e suas estruturas de financiamento, e mesmo empresas israelenses. Agora, é algo saudável que governos estejam temerosos do que as pessoas pensam. Estranhamente, é um sinal otimista que a China, com toda sua censura e vigilância, está com medo ainda do que sua população pense. Por exemplo, a China baniu o Wikileaks em 2007. Pelo que sabemos, foi o primeiro país a banir. Temos tido uma espécie de guerra para superar o firewall chinês. De alguma forma, é um sintoma positivo. 

Chade – Porque? Esse raciocínio não vai contra seu princípio de liberdade no fluxo de informação?

Assange – Sim. Mas é um bom sintoma. Em um país onde as relações estão tão fiscalizadas e a vigilância está enraizada que o poder não precisa se preocupar com o que as pessoas pensam, esse é o maior problema.



Chade – Voltando à questão da liberdade do fluxo de informação. Wikileaks teve um imenso impacto em alguns países. Mas há quem ainda questione: bem, os documentos foram obtidos de forma ilegal. Qual sua avaliação sobre esse argumento de que, por eles terem sido obtidos de forma ilegal, não são informações legítimas?

Assange – Generais não definem a lei. Ou pelo menos não deveriam. Se falamos da situação ameriana, há toda uma série de leis se queremos falar de legislação e foi perfeitamente legal.

Chade – A obtenção dos documentos ?

Assange – Sim, a forma que foram obtidos. Militares americanos não tem direitos na lei americana de encobrir crimes. De fato, isso é algo explícito. Não se pode usar apenas a classificação de documentos para manter um crime sigiloso. Mas também podemos dizer: quem é que fez a lei ? Obviamente são os interesses militares. Nós, como editores, temos de levar essas leis à sério? Nós não levamos elas a sério. Quer dizer, é um conflito em relação a onde você estabelece uma linha. Muito foi dito sobre isso e muito do que foi dito está filosoficamente falido. Há uma forma simples de entender. Não é Deus que estipula essa fronteira para todos nós. Diferentes organismos tem diferentes responsabilidades. As vezes, entidades policiais tem a responsabilidade de manter algo secreto. Uma investigação sobre a Máfia, deve ser mantida em sigilo.Outras organizações, como editores e jornais, tem a responsabilidade perante o público, que é de publicar nformação que ajude o público a decidir e entender o mundo. Essas diferentes responsabilidades não devem ser contaminadas uma pela outra.

Chade – Trazendo esse debate para a América Latina, como o sr. avalia o comportamento de governos diante da Internet e da imprensa em geral ?

Assange – É bem variado e tem vários problemas. Acho que, comparado com o resto do mundo, comparado com Europa, EUA, Sudeste Asiático, a região está bastante bem.

Chade – Alguns dos críticos apontam para o fato de que o presidente (do Equador) Rafael Correa ataca a imprensa. Como o sr. se sente sobre isso, e porque escolheu essa embaixada (do Equador) para vir ?

Assange – Pelo amor de Deus. Eles deveriam ser atacados com muita frequência. A primeira responsabilidade da imprensa e em primeiro codifo de ética é acuracy. Tudo começa com você precisando dizer a verdade. Essa precisa ser a primeira coisa. E também ser representativa. Não é porque sua organização é de propriedade de alguma família. Há um grande problema na América Latina com a concentração na mídia. Ainda que, se há seis famílias que controlam 70% da imprensa no Brasil, o problema é muito pior em vários países. Na Suécia, 60% da imprensa é controlado por uma editora. Na Austrália é muito pior, 60% também da imprensa escrita é controlada por Murdoch. Portanto, quando falamos em liberdade de expressão, temos de incluir a liberdade de distribuição, uma distribição adequada e uma das coisas mais importantes que a Internet nos deu é a liberdade na prática de distribuição, se as pessoas estão interessadas no assunto. Não quer dizer que você pode levar algo a um milhão de pessoas com publicidade. Mas você pode montar um blog e, se as pessoas já estão interessados, podem ler.

Chade – Uma pergunta pessoal. Para alguns, o sr. é um herói, outros dizem que é um criminoso, uma ameaça internacional, outros dizem que o sr. é um ativista. Em suas próprias palavras, quem é o sr. ?

Assange – Sou apenas um cara. Todos nós vivemos só uma vez. Todos temos responsabilidades de viver nossas vidas de acordo com nossos princípios e não disperdiácas. Eu só estou tentando fazer isso. Não acho que é necessário que me defina. Na verdade, quando as pessoas se definem, na maioria das vezes estão mentindo. Mas, no lugar disso, devem olhar as ações de uma pessoa e ver se elas são consistentes no longo prazo. 

Chade – Porque é que o sr. evita ir à Suécia (onde  a Justiça o busca por acusações de assédio sexual) ?

Assange – Porque eu seria extraditado aos EUA.

Chade – Por qual motivo exatamente ?

Assange – O EUA tem um procedimento contra minha pessoa e contra Wikileaks pelos últimos dois anos. O governo diz em seus próprios documentos internos que a investigação é de um tamanho e natureza “sem precedentes”, citando uma investigação “de todo o governo” americano. É algo sério e que envolve mais de uma dúzia de agências.

Chade – Quais são os próximos passos para o Wikileaks ? O sr. anunciou que vai publicar cerca de um milhão de documentos em 2013. Algo sobre o Brasil?

Assange – Sim. Publicaremos muito sobre o Brasil neste ano. Um material muito interessante.



Jamil Chade é correspodente do jornal O Estado de São Paulo na Europa desde 2000. Foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior em 2011, pela entidade Comunique-se. Com passagem por 67 países e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Genebra, Chade foi presidente da Associação de Correspondentes Estrangeiros na Suíça entre 2003 e 2005 e tem dois livros publicados. « O Mundo Não é Plano » (2010) foi finalista do Prêmio Jabuti, categoria reportagem. Na Suíça, o livro venceu o prêmio Nicolas Bouvier. Em 2011, publicou “Rousseff”.

Doula a quem doer - Estadão

Ana Cristina Duarte
Quando em 2001 o primeiro curso de formação de doulas teve lugar no Brasil, por iniciativa de um médico obstetra, ninguém poderia imaginar a importância que essas profissionais teriam num futuro tão próximo. Naquela época raras pessoas sabiam o que era uma doula e sua função. Apesar de ainda hoje se fazer muita confusão, muita gente já conhece as funções a elas atribuídas, sua importância e seu papel no cenário da assistência ao parto.
A doula Maíra Duarte ajuda a mãe Alcione Agnes uma hora após o nascimento de Giulia - www.carlaraiter.com
www.carlaraiter.com
A doula Maíra Duarte ajuda a mãe Alcione Agnes uma hora após o nascimento de Giulia
Doulas são mulheres treinadas para dar suporte durante o parto. Embora elas não possam executar a parte técnica da assistência, têm papel importante durante o processo, o que faz a maior diferença nos resultados. Em outras palavras, pensando num mesmo público, mesma maternidade, mesma equipe de médicos e enfermeiras, são as mulheres acompanhadas por doulas as que serão mais beneficiadas. Os estudos mostram redução de 20% nas taxas de cesariana e de 30% nos nascimentos de bebê com baixa nota nos primeiros minutos de vida, para citar alguns parâmetros, tudo isso sem nenhum efeito deletério.
Os dois modelos de atuação são as doulas do setor privado, remuneradas por seu trabalho de atendimento a clientes que as contratam, e as doulas voluntárias, que trabalham no sistema público sem conhecer anteriormente as gestantes que vão atender. Nos países do primeiro mundo, como Estados Unidos por exemplo, as doulas já estão ativas na assistência há mais de 30 anos.
No Brasil existem entre 2 mil e 4 mil doulas atuantes entre os dois setores, embora não haja um número oficial ou um cadastro único. Neste 31 de janeiro, o Ministério do Trabalho lançou a nova versão da Classificação Brasileira de Ocupações onde figura, pela primeira vez, a ocupação de doula. Não existe uma profissionalização oficial, tal qual ocorre em outras ocupações em que não há execução de procedimentos de risco para a população. Tal qual fotógrafos e cinegrafistas que adentram o recinto do parto, as doulas não executam procedimentos médicos ou de enfermagem, não oferecendo, portanto, riscos à população. As funções básicas da doula são: acompanhar, acalmar, oferecer suporte emocional e físico, realizar massagem localizada, sugerir movimentos, respirações, atitudes, enfim, uma miríade de ferramentas que ajudam a mulher a atravessar o intenso processo que é dar à luz um bebê.
Uma grande polêmica ocorreu essa semana quando dois grandes hospitais privados da capital paulista proibiram a presença de doulas nos partos, alegando risco de infecção, e recuaram após imensa repercussão na mídia e nas redes sociais. A questão, no entanto, passa longe dos alegados riscos.
Estamos falando de relações de poder, de interesses econômicos, de falta de gerenciamento do setor privado.
Uma boa parte dos hospitais privados do Brasil apresenta taxas de cesarianas superiores a 90%. As cesarianas marcadas são o pilar de sustentação financeira das maternidades privadas. Partos normais, apesar de mais seguros, causam prejuízo, ocupam imprevisivelmente o leito por muito tempo, dão trabalho à enfermagem, não têm hora para ocorrer e não podem ser controlados. Doulas, acompanhando mulheres em trabalho de parto que querem muito um parto natural, perturbam a ordem natural de um centro cirúrgico estruturado para cesarianas pré-agendadas. Doulas pedem água, alimentos e explicações. Mulheres acompanhadas de doulas desobedecem às regras da instituição, questionam, desafiam. Pais acompanhados de doulas são mais protetores e questionadores. Doulas incomodam, partos normais incomodam.
Enquanto todos os setores do nosso país não assumirem que as mulheres estão sendo roubadas em seus partos, tanto no setor privado, com suas cesarianas agendadas, quanto no setor público, com seus partos altamente medicalizados e violentos, não poderemos avançar de fato nas crises profissionais. O problema não são as doulas e sua regulamentação. O problema não são as alegadas infecções provocadas pela presença de mais um acompanhante. Estamos falando de um processo de violência coletiva que vem se perpetuando há décadas em nosso país, sob os olhos semicerrados do governo, da Agência Nacional de Saúde Suplementar, do Ministério da Saúde, das secretarias.
Se nem a Lei do Acompanhante é obedecida em mais da metade das instituições paulistas, o que se dirá de uma iniciativa que deve ser tomada de livre e espontânea vontade pelas instituições para melhorar a assistência às mulheres que desejam um parto suave, prazeroso, positivo, acolhedor? Ainda temos um longo caminho a percorrer, e as doulas continuarão a ter um papel fundamental nesse processo.
ANA CRISTINA DUARTE, OBSTETRIZ PELA USP E INSTRUTORA EM CAPACITAÇÃO DE DOULAS, É COORDENADORA DO GRUPO DE APOIO À MATERNIDADE ATIVA (GAMA) E AUTORA DE PARTO NORMAL OU CESÁREA? O QUE TODA MULHER DEVE SABER - E TODO HOMEM TAMBÉM (UNESP)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A onda é proibir

O problema não se limita ao futebol. Todos os aspectos da vida social passam pela mesma síndrome.

Antero Greco - O Estado de S.Paulo
 
Foi susto e tanto: assim que Elano fez o gol que daria a vitória do Grêmio sobre a LDU, torcedores mais entusiasmados fizeram a primeira avalanche no novo estádio tricolor. Primeira que ensaiam transformar em última, pois um pedaço do alambrado cedeu ao impacto e pessoas caíram no fosso que separa a arquibancada do gramado. Por sorte, a altura era pequena e as escoriações, superficiais.

O incidente remeteu à tragédia de Santa Maria. Deus nos livre e guarde de situações semelhantes! A direção gremista interditou a área e promete estudos a respeito da estrutura da casa recém-inaugurada. Engenheiros e arquitetos foram convocados para análises.

Ao mesmo tempo, ficou suspensa a estabanada alegoria que caracteriza a comemoração de gols do Grêmio. A Brigada Militar já havia vetado a coreografia, desde o fechamento do Olímpico, em dezembro, e ainda assim os mais fanáticos resolveram colocá-la em prática, para manter a tradição. Acredita-se que, sem o balé radical, não há risco de espectadores se machucarem.

Certo, desejamos participar de atividades públicas em paz e com segurança. Fora a turma do miolo mole, ninguém com a cabeça em ordem pretende ver um jogo de futebol com a intenção de provocar confusão ou ser vítima dela. Queremos voltar para casa sãos, e satisfeitos pelo lazer. Mas a proibição, se levada adiante, reforça a tendência de limitar, mais e mais, a espontaneidade nas arenas esportivas. Em nome do bem coletivo, baixam-se normas que encaixotam a emoção e pasteurizam a felicidade.

Repare como avançam as restrições. Já há algum tempo, não se permitem bandeiras nos estádios. Acabou o espetáculo bonito de vermos símbolos dos clubes, de variados formatos e tamanhos, a enfeitarem as sociais e as numeradas. Aquele colorido dava tremendo ar de festa. Ah, mas os mastros eram usados como armas! Eram um perigo! Quer dizer que, em vez de combaterem eventuais desordeiros, se eliminou o estandarte?!

Bebida também não pode, sob a alegação de que o pessoal enche a cara e parte para a briga. Meia-verdade. A cerveja que se consome no recinto do espetáculo não é a vilã de desentendimentos mais sérios. Baderneiros por vocação chegam em bandos, calibrados e enfumaçados, e passam pela triagem da entrada, onde deveriam ser barrados. Além disso, batalhas ocorrem pela certeza de impunidade. Quantos são os casos registrados de castigo para desordeiros?

Há a censura. Meses atrás, um árbitro se negou a começar jogo do Náutico ao se enfurecer com uma faixa exposta pelos fãs locais. Achou que era ofensiva. A polícia interveio, o cartaz foi recolhido e, posteriormente, aberto mais pra cima na arquibancada mesmo. Boa! Já se cogitou, até, de processar quem proferisse palavrões. Imagine, seriam milhares de ações por semana!

A avalanche gremista comporta risco, como tantas manifestações da vida. A vida é risco permanente. O homem tem instinto de preservação; o sobressalto de quarta fará com que haja moderação no futuro. No velho Olímpico, foram raros os episódios com ferimentos. Por isso, a diretoria do Grêmio disse, no final da tarde, que o veto é temporário. Menos mal.

Autoridades têm de combater os violentos. Já as arquibancadas devem pulsar de contentamento, devem ser tribunas livres. Os estádios não podem assemelhar-se a templos religiosos, em que recolhimento e silêncio são imprescindíveis. O que escrevo?! Até igrejas têm música e dança, pois Deus é alegria. Por que os estádios devem ser circunspectos e taciturnos?


 

Princípios elementares da propaganda de guerra

- A ler tendo em mente a campanha de calúnias que o imperialismo desenvolve contra o governo sírio
por Michel Collon

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Os dez "mandamentos" constituem sobretudo uma grelha de análise que se pretende pedagógica e crítica. O seu objectivo não é tomar partido, ou defender "ditadores", mas sim constatar a regularidade destes princípios no campo mediático e social. Entre os acusados encontram-se tanto os vencidos como os vencedores.
Princípios elementares de propaganda de guerra (utilizáveis em caso de guerra fria, quente ou morna) é um livro de Anne Morelli publicado em 2001 e reeditado em 2010, para acrescentar à primeira edição as guerras do Iraque e do Afeganistão, assim como uma análise do discurso de Obama como "Prémio Nobel da Paz".

"Eu não tentaria sondar a pureza das intenções de uns ou outros. Não procuro saber aqui quem mente e quem diz a verdade, quem está de boa fé e quem não está. Meu único propósito é ilustrar os princípios de propaganda, utilizados unanimemente, e descrever os mecanismos". [1]

Entretanto, é inegável que desde as últimas guerra que marcaram nossa época (Kosovo, guerras do Golfo, Afeganistão, Iraque) as chamadas democracias ocidentais e os media são postos em causa.

Anne Morelli reactualiza, graças a este pequeno manual do cidadão crítico, formas invariáveis para conteúdos diversos. A propaganda é exercida sempre através das mesmas invariantes qualquer que seja a guerra, daí a grande pertinência da grelha proposta. Parece igualmente essencial nesta introdução citar Lord Ponsonby , a quem Anne Morelli agradece desde as primeiras páginas da sua obra. Com efeito, Ponsonby contribuiu amplamente para a elaboração dos princípios. Lord Ponsonby era um trabalhista inglês que se opôs radicalmente à guerra. Já durante a Primeira Guerra Mundial notabilizou-se por diversos panfletos e acabou por escrever um livro sobre estes mecanismos de propaganda. Livro esse que Anne Morelli retoma, reactualiza e sistematiza em dez princípios elementares.

1) Nós não queremos a guerra

"Arthur Ponsonby já havia notado que os homens de Estado de todos os países, antes de declararem a guerra ou no momento mesmo desta declaração, sempre asseguravam solenemente como preliminar que não queriam a guerra". [2]

A guerra nunca é desejada, apenas raramente é vista como positiva pela população. Como o advento das nossas democracias, o consentimento da população torna-se essencial, não é possível querer a guerra e ter uma alma de pacifista. Ao contrário da Idade Média, onde a opinião da população tinha pouca importância e a questão social não era significativa.

"Assim, o governo francês já mobiliza tudo proclamando que a mobilização não é a guerra mas, ao contrário, o melhor meio de assegurar a paz". [3]

"Se todos os chefes de Estado e de governo são animados de semelhantes vontades de paz, pode-se evidentemente perguntar-se inocentemente porque por vezes (e mesmo frequentemente), estouram guerra mesmo assim? [4] Mas o segundo princípio responde a esta pergunta.

2) O campo adversário é o único responsável pela guerra

Este segundo princípio decorre do facto de que cada campo assegura ter sido constrangido a declarar a guerra para impedir o outro de destruir os nossos valores, por em perigo nossas liberdades, ou mesmo destruir-nos totalmente. Trata-se portanto da aporia de uma guerra para por fim às guerras. [5] Chega-se quase à frase mítica de George Orwell: "War is Peace".

Assim, os Estados Unidos foram "constrangidos" a fazer a guerra contra o Iraque que não lhes deixou outra opção. Portanto não fazemos senão "reagir", defender-nos das provocações do inimigo que é inteiramente responsável pela guerra que vem aí.

"Assim, já Daladier, no seu "apelo à nação" – contornando as responsabilidades francesas na situação criada pelo Tratado de Versalhes – assegura em 3 de Setembro de 1939: a Alemanha já havia recusado a todos os homens sensíveis cuja voz se havia elevado nestes últimos tempos em favor da paz do mundo. [...] Nós fazemos a guerra porque ela nos foi imposta". [6]

Ribbentrop justifica a guerra contra a Polónia nestes termos:
"O Führer não quer a guerra. Ele não se resolverá por ela senão a contragosto. Mas não é dele que depende a decisão em favor da guerra ou da paz. Ela depende da Polónia. Acerca de certas questões de um interesse vital para o Reich, a Polónia deve ceder e actuar correctamente em relação a reivindicações às quais não podemos renunciar. Se ela se recusar, é sobre ela que recairá a responsabilidade de um conflito, e não sobre a Alemanha". [7]

Pode-se igualmente ler, aquando da Guerra do Golfo, em Le Soir de 9 de Janeiro de 1991:

"A paz, que todo o mundo deseja acima de tudo, não pode ser construída sobre simples concessão a um acto de pirataria. (...) Estando o fardo essencialmente, é preciso dizer, no campo do Iraque". [8]

Idem para a guerra no Iraque, mesmo antes de a guerra começar, Le Parisien titulava em 12 de Setembro de 2002: "Como Saddam se prepara para a guerra".

3) O chefe do campo adversário tem a cara do diabo (ou "o odioso de serviço")

"Não se pode odiar um grupo humano no seu conjunto, mesm apresentado como inimigo. Portanto é mais eficaz concentrar este ódio do inimigo sobre o líder adversário. O inimigo terá assim um rosto e este rosto será obviamente odioso". [9]

"O vencedor apresentar-se-á sempre (ver Bush e Blair recentemente) como um pacifista desejoso de conciliação mas levado à guerra pelo campo adversário. Este campo adversário é certamente dirigido por um louco, um monstro (Milosevic, Ben Laden, Saddam Hussein, ...) que nos desafia e de que convém livrar a humanidade". [10]

A primeira operação de uma campanha de demonização consiste pois em reduzir um país a um único homem. Em fazer portanto como se ninguém vivesse no Iraque, que unicamente Saddam Hussein, sua "temível" guarda republicana e suas "terríveis" armas de destruição maciça vivessem ali. [11]

Personalizar o conflito é muito típico de uma certa concepção da história, que seria feita por "heróis", a obra das grandes personagens. [12] Concepção da história que Anne Morelli recusa ao escrever incansavelmente sobre os "abandonados" da história legítima. Esta visão é particularmente idealista e metafísica, uma visão em que a história é o fruto das ideias dos seus "grandes" homens. A esta concepção da história opõe-se uma concepção dialéctica e materialista que define a história em termos de relações e de movimentos sociais.

Assim ao adversário são atribuídos todos os males possíveis. Isso vai desde o seu físico aos seus costumes sexuais. Assim, Le Vif-L'Express de 2-8 de Abril de 1999 apresenta "O horripilante Milosevic". " Le Vif-L'Express não cita nenhum discurso, nenhum escrito, do "mestre de Belgrado" mas em contrapartida destaca seus saltos de humor anormais, suas explosões de cólera, doentias e brutais: Quando estava encolerizado, seu rosto se torcia. Depois, instantaneamente, recuperava o seu sangue-frio". [13] Este tipo de demonização não é utilizado unicamente pela propaganda de guerra (como todos os outros princípios, igualmente).

Assim, Pierre Bourdieu constatava que, nos Estados Unidos, numerosos professores universitários, exasperados com a popularidade de Michel Foucault entre os seus colegas, escreviam bom número de livros sobre a vida íntima do autor. Assim, Michel Foucault, "o homossexual masoquista e louco" tinha prática "contra natura", "escandalosas" e "inaceitáveis". Com este expediente, já não há necessidade de debater o pensamento do autor ou os discursos de um homem político, mas sim de refutá-lo com base em julgamentos morais às ditas práticas do indivíduo.

4) Defendemos uma causa nobre e não interesses particulares

Os objectivos económicos e geopolíticos da guerra devem ser mascarados sob um ideia, valores moralmente justos e legítimos. Assim já se podia ouvir George Bush pai declarar:

"Há pessoa que não compreendem nunca. O combate não se refere a petróleo, o combate refere-se a uma agressão brutal". [14]

ou Le Monde de 22 de Janeiro de 1991: "Os objectivos de guerra americanos e franceses são em primeiro lugar os objectivos do Conselho de Segurança. Estamos lá devido a decisões tomadas pelo Conselho de Segurança e o objectivo essencial é a libertação do Kuwait". [15]

De facto, nas nossas sociedades modernas, ao contrário da de Luís XIV, uma guerra não se pode realizar senão com um certo consentimento da população. Gramsci já havia mostrado até que ponto a hegemonia cultural e o consentimento são indispensáveis ao poder. Este consentimento será facilmente adquirido se a população pensar que desta guerra depende sua liberdade, sua vida, sua honra. [16]

Os objectivos da Primeira Guerra Mundial, por exemplo, resumem-se a três pontos:
"- esmagar o militarismo
- defender as pequenas nações
- preparar o mundo para a democracia.

Este objectivos, muito honrosos, são desde então recopiados quase textualmente na véspera de cada conflito, mesmo que não se enquadrem senão muito pouco ou absolutamente nada com os seus objectivos reais". [17]

"É preciso persuadir a opinião pública que nós – ao contrário dos nossos inimigos – fazemos a guerra por motivos infinitamente honrosos". [18]

"Na guerra da NATO contra a Jugoslávia encontra-se o mesmo afastamento entre objectivos oficiais e inconfessados do conflito. Oficialmente a NATO intervém para preservar o carácter multi-étnico do Kosovo, para impedir que minorias sejam ali maltratadas, para ali impor a democracia e para acabar com o ditador. Trata-se de defender a causa sagrada dos direitos humanos. Bem antes do fim da guerra, foi possível constatar que nenhum destes objectivos foi atingido, que se está nomeadamente longe de uma sociedade multi-étnica e que as violências contra as minorias – sérvios e ciganos desta vez – são quotidianas, mas ainda perceber que os objectivos económicos e geopolíticos da guerra, de que nunca se havia falado, foram – eles sim – atingidos". [19]

Este princípio implica o seu corolário: o inimigo é um monstro sanguinário que representa a sociedade da barbárie.

5) O inimigo provoca atrocidades conscientemente mas se nós cometemos sujeiras isso é involuntário

Os relatos das atrocidades cometidas pelo inimigo constituem um elemento essencial da propaganda de guerra. Isso evidentemente não quer dizer que não haja atrocidades durante as guerras. Muito pelo contrário, os assassinatos, os roubos a mão armada, os incêndios, a pilhagens e as violações parecem – infelizmente – recorrentes na história das guerras. Mas faz-se crer que só o inimigo comete tais atrocidades e que o nosso exército é amado pela população, que é um exército "humanitário".

Mas a propaganda de guerra raramente detém-se aí. Não contente com violações e pilhagens reais, é preciso muitas vezes criar atrocidades "desumanas" para encarnar no inimigo o alter-ego de Hitler (Hitlerosevic, ...). Podemos assim por lado a lado várias passagens referentes a guerras diferentes sem nelas encontrar grandes diferenças.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Ponsonby relata esta história:

"Trinta ou trinta e cinco soldados alemães entraram na casa de David Tordens, carroceiro em Sempst (hoje Zempst). Eles ataram o homem e depois cinco ou seis deles lançaram-se sob os seus olhos sobre a filha de treze anos e lhe fizeram violência, a seguir trespassaram-na com suas baionetas. Depois desta acção horrível furaram com golpes de baionetas seu filho de nove anos e fuzilaram sua mulher".

Não se esquecerá tão pouco o episódio das crianças com mãos cortadas, que parece mais um rumor infundado do que um facto histórico. [20]

Na Guerra do Golfo em Le Monde de 3 de Março de 1990: "Se eles nada provam quanto ao número, os corpos mutilados da morgue do hospital Moubarak advogam a certeza da crueldade dos sete meses de ocupação iraquiana. Olhos arrancados, gargantas cortadas, cabeças esmagadas, crânios cortados cujo cérebro escapa, corpos meio carbonizados, queimaduras de cigarros..."

Sem esquecer igualmente o episódio das incubadoras roubadas e dos bebés mortos atrozmente... Que revelaram ser uma mistificação.

Quanto ao Afeganistão, no Herald Tribune de 7 de Agosto de 1999: "Alguns foram mortos nas ruas. Muitos foram executados nas suas casas, após bloqueio e busca das zonas reputadas por serem habitadas na maioria por certos grupos étnicos. Alguns foram escaldados até à morte ou asfixiados em contentores metálicos selados, colocados em pleno sol. Num hospital pelo menos, 30 pacientes foram mortos a bala na sua cama. Os corpos das vítimas foram abandonados nas ruas ou nas casas, para intimidar o resto dos habitantes. Testemunhas em pânico puderam ver cães a competirem pelos restos dos cadáveres, mas foi-lhes imposta por megafone ou por rádio que não os tocassem e não os enterrassem".

Os talibãs, aqui responsáveis de atrocidades, na maior parte não puderam ser presos, e nenhuma notícia de Ben Laden...

Na guerra do Iraque, as histórias foram, mais uma vez, semelhante – e as mentiras sobre armas de destruição maciça também. Pode-se portanto extrair facilmente certas tendências nestas histórias. Trata-se antes de tudo de tocar a corda "sentimental" do leitor. Para isso é preciso, antes de tudo, "boas histórias" e se não forem encontradas são inventadas. Os pormenores "crispantes" totalmente inúteis à vista das consequências reais das guerras do ponto de vista humano são contudo moeda corrente nestas histórias – e fazem do inimigo um monstro mais horrível que nunca, que mata sobretudo por prazer ou vício.

No Kosovo, "houve evidentemente, na Primavera de 1999, assassínios, pilhagens, torturas e incêndios de casas albanesas, mas "esquece-se" de salientar com a mesma acuidade as mesmas atrocidades cometidas a partir do Verão sobre sérvios, bósnios, ciganos e outras pessoas não albanesas [21] . O seu êxodo será mantido sob silêncio ao passo que as imagens de refugiados albaneses do Kosovo e sua acolhida no estrangeiro haviam sido objecto de emissões completas na televisão. É que este quinto princípio da propaganda de guerra quer que só o inimigo cometa atrocidades, o nosso campo não pode senão cometer "erros". A propaganda da NATO popularizará, na guerra contra a Jugoslávia, a expressão "danos colaterais" e apresentará como tais os bombardeamentos de populações civis e de hospitais, que teriam feito, conforme as fontes, entre 1200 e 5000 vítimas. "Erro" portanto o bombardeamento da embaixada chinesa [22] , de um comboio de refugiados albaneses, ou de um comboio a passar sobre uma ponte. Já o inimigo, não comete erros, comete o mal conscientemente". [23]

Para concluir, uma citação de Jean-Claude Guillebaud:

"Tornámo-nos, nós jornalistas, uma espécie de mercadores do horror e esperava-se dos nossos artigos que comovessem, raramente que explicassem".

6) O inimigo utiliza armas não autorizadas

Este princípio é corolário do anterior.

"Não só não cometemos atrocidades como fazemos a guerra de maneira cavalheiresca, respeitando – como se se tratasse de um jogo, certamente duro mas viril! – as regras". [24]

Assim, já durante a Primeira Guerra Mundial, a polémica proliferava quanto à utilização dos gases asfixiantes. Cada campo acusava o outro por começar a utilizá-los [25] . Se bem que os dois campos houvessem utilizado o gás e que houvessem efectuado todas as investigações neste domínio, esta arma era o reflexo simbólico da guerra "desumana". Convém assim atribuí-la ao inimigo. É de alguma forma a arma "desonesta", a arma enganosa.

7) Sofremos muito poucas perdas, as perdas do inimigo são enormes

"Com raras excepções, os seres humanos geralmente preferem aderir a causas vitoriosas. Em casos de guerra a adesão da opinião pública depende portanto dos resultados aparentes do conflito. Se os resultados não forem bons, a propaganda deverá ocultar as nossas perdas e exagerar as do inimigo". [26]

Já na Primeira Guerra Mundial, um mês após o começo das operações, as perdas elevavam-se a 313 mil mortos. Mas o estado-maior francês jamais confessou a perda de um cavalo e não publicava a lista nominativa dos mortos. [27]

Ultimamente, a guerra no Iraque fornece um exemplo do mesmo género, em que se proibiu a publicação das fotos dos caixões de soldados americanos na imprensa. As perdas do inimigo, em contrapartida, são enormes, o seu exército não resiste. "Nos dois campos estas informações fazem subir a moral das tropas e persuadem a opinião pública da utilidade do conflito". [28]

8) Os artistas e intelectuais apoiam nossa causa

Aquando da Primeira Guerra Mundial, salvo raras excepções, os intelectuais apoiaram maciçamente o seu próprio campo. Cada beligerante podia em grande medida contar com o apoio dos pintores, poetas, músicos que apoiavam, por iniciativas no seu domínio, a causa do seu país. [29]

Os caricaturistas são amplamente utilizados, para justificar a guerra e pintar o "carniceiro" e suas atrocidades, ao passo que outros artistas vão trabalhar, com a câmara no punho, para produzir documentos edificantes sobre os refugiados, sempre cuidadosamente tomados nas fileiras albanesas e escolhidos os mais realísticos possíveis em relação ao público ao qual se dirigem, como esta bela criança loura com olhar nostálgico, destinada a evocar as vítimas albanesas.

Podem-se ver assim os "manifestos" a desenvolverem-se por toda a parte. O manifesto dos cem, para apoiar a França durante a Primeira Guerra Mundial (André Gide, Claude Monet, Claude Debussy, Paul Claudel). Mais recentemente, o "manifesto dos 12" contra o "novo totalitarismo" [30] que é o islamismo. Estes "colectivos" de intelectuais, artistas e homens notáveis põem-se portanto a legitimar a acção do poder político instalado.

9) Nossa causa tem um carácter sagrado

Este critério pode ser tomado nos dois sentidos, quer literal, quer geral. No sentido literal, a guerra apresenta-se como uma cruzada, portanto a vontade é divina. Não se pode subtrair à vontade de Deus, mas apenas cumpri-la. Este discurso retomou grande importância desde a chegada de George Bush filho ao poder e, com ele, toda uma série de ultra-conservadores integristas. Assim, a guerra no Iraque manifesta-se como uma cruzada contra "o Eixo do Mal", uma luta do "bem" contra o "mal". Era nosso dever "dar" a democracia ao Iraque, a democracia sendo um dom saído directamente da vontade divina. Assim, fazer a guerra é realizar a vontade divina. Escolhas políticas tomar um carácter bíblico que apaga toda realidade social e económica. As referências a Deus sempre foram numerosas (In God We Trust, God Save the Queen, Gott mit Uns, …) e servem para legitimar sem rodeios as acções do soberano.

10) Aqueles (e aquelas) que põem em dúvida a nossa propaganda são traidores

Este último princípio é o corolário de todos anteriores. Toda pessoa que ponha em dúvida um único dos princípios enunciados acima é forçosamente um colaborador do inimigo. Assim, a visão mediática limita-se aos dois campos citados acima. O campo do bem, da vontade divina, e o do mal, dos ditadores. Assim, é-se "por ou contra" o mal. Neste sentido, os oponentes à guerra do Kosovo viram-se tratar no L'Évènement de 29 de Abril a 5 de Maio de 1999 como "cúmplices de Milosevic". O semanário chega mesmo a sistematizar várias "famílias". Encontra-se assim a família "anti-americana" com Pierre Bourdieu, Régis Debray, Serge Halimi, Noam Chomsky ou Harold Pinter. A família "pacifista integrista" com Gisèle Halimi, Renaud, o abade Pierre… e seus órgãos respectivos, o Monde diplomatique, o PCF.

Torna-se portanto impossível fazer surgir uma opinião dissidente sem sofrer um linchamento mediático. O pluralismo das opiniões já não existe, é reduzido a nada, toda oposição ao governo é reduzida ao silêncio e ao descrédito por argumentos fraudulentos.

Esta mesma argumentação foi novamente aplicada aquando da guerra no Iraque. Como a opinião pública internacional estava mais dividida, isso é menos ressentido. Mas estar contra a guerra é estar a favor de Saddam Hussein... O mesmo esquema foi aplicado num contexto muito diferente, que era o referendo sobre a constituição europeia: "ser contra a constituição é ser contra a Europa!".
Notas e referências
1. Morelli, Anne, "Principes élémentaires de propagande de guerre", Bruxelles, Aden, 2010
2. Ibid, p. 7.
3. Ibidem
4. Ibid, p. 10
5. Ibid, p. 11.
6. Ibid, p. 14.
7. Ibid, p. 16.
8. Collon, Michel, "attention médias!", Bruxelles, éditions EPO, 1992, p. 34.
9. Morelli, Anne, op. cit., p. 21.
10. Morelli, Anne, "L'histoire selon les vainqueurs, l'histoire selon les vaincus", 8 décembre 2003 in : http://www.brusselstribunal.org/8de...;;[archive].
11. Collon, Michel, op. cit., p. 60.
12. Ibidem.
13. Morelli, Anne, op. cit., p. 25.
14. Collon, Michel, op. cit., p. 32.
15. Ibidem.
16. Morelli, Anne, op. cit., p. 27.
17. Ibid, p. 28.
18. Ibid, p. 28.
19. Ibid, p. 34.
20. A criança com mãos cortadas [arquivo] 1914, nova guerra entre os dois países. Contava-se com insistência, do lado francês, que os soldados alemães eram brutos ignóbeis que cortavam as mãos das crianças.
21. Sérvia: Após o fracasso das negociações sobre o Kosovo, a palavra esta com a ONU [arquivo] O Kosovo, considerado por Belgrado como o berço da sua cultura e da sua religião, conta 5% dos sérvios após o êxodo de mais de 200 mil deles.
22. Revelação: a NATO bombardeou voluntariamente a embaixada da China em Belgrado [arquivo] Segundo um inquérito do semanário britânico The Observer, efectuado com o jornal dinamarquês Politike, a NATO teria bombardeado conscientemente a embaixada chinesa de Belgrado em 7 de Maio último (ver também nosso artigo de 10/05/99). Responsáveis militares e das informações teriam declarado que a embaixada chinesa abrigava um sistema de retransmissão das emissões do exército juguslavo. De repente, ela teria sido eliminada da lista dos "alvos interditos" e bombardeada.
23. Ibid, pp. 37-47.
24. Ibid, p. 48.
25. Ibid, p. 49.
26. Ibid, p. 54.
27. Ibidem.
28. Ibid, p. 56.
29. Morelli, Anne, "les 10 commandements de Ponsonby", sur le site de Zaléa TV : [1] [archive].
30. Sua utilização para com o terrorismo por Jack Straw parece imprópria. O "terrorismo" em geral não pode ser considerado como um "totalitarismo" no sentido original do termo. Ele não preenche os critérios necessários. A utilização do conceito requer uma análise aprofundada da sociedade ou da estrutura do grupo estudado, é preciso destacar as categorias essenciais e os processos de des-diferenciação próprios do totalitarismo. Contudo, não parece que Jack Straw tenha realizado uma tal análise para poder dar uma verdadeira base teórica à sua asserção. A utilização do termo neste caso tem um fim político ou de propaganda de guerra.
20/Março/2011
O original encontra-se em http://www.michelcollon.info/Principes-elementaires-de.html?lang=fr