quinta-feira, 7 de março de 2013

Geração dos 20 anos trabalha cada vez mais e ganha cada vez menos FSP

07/03/2013 - 14h00

Geração dos 20 anos trabalha cada vez mais e ganha cada vez menos


TEDDY WAYNE
DO "NEW YORK TIMES"
The New York Times Cada geração tem seu hino para a jornada da ingenuidade juvenil à realidade adulta, quer se trate de "Old Man", de Neil Young, de "Smells Like Teen Spirit", do Nirvana, ou, mais recentemente, de "22", de Taylor Swift. "Esta noite é a noite em que esquecemos as manchetes", diz a letra. "Parece ser uma daquelas noites em que não vamos dormir."
Infelizmente, os contemporâneos menos afluentes de Swift (que agora já tem 23 anos) não têm a mesma facilidade que ela para deixar de lado seus compromissos matinais. Passar noites em claro, para eles, costuma se relacionar mais ao trabalho que à diversão.
"Se não estou no escritório, não largo do BlackBerry", diz Casey McIntyre, 28, que trabalha com divulgação de livros em Nova York. "A sensação é de que jamais me desligo completamente do trabalho."
McIntyre é apenas mais uma pessoa da casa dos 20 anos --uma população historicamente explorada como mão de obra barata-- a descobrir que jornadas longas de trabalho e salário baixo são características que quase sempre andam juntas, nas profissões criativas.
A recessão não ajudou em nada o ingresso no mercado de trabalho, e centenas de candidatos disputam estágios não remunerados para os quais a expectativa é de que estejam disponíveis com seus iPhones o dia inteiro, respondendo os tweets que mencionam suas companhias da manhã à noite.
22-22-22
"Precisamos contratar um 22-22-22", teria dito um executivo de novas mídias, recentemente --ele queria dizer uma pessoa de 22 anos para trabalhar 22 horas por dia ganhando US$ 22 mil ao ano.
O segundo dos "22" talvez seja exagero, mas os dois outros de forma alguma o são. De acordo com um relatório da Pew Research em 2011, o patrimônio líquido para as pessoas de 35 anos ou menos caiu em 68% entre 1984 e 2009, para US$ 3.662.
Para que você não imagine que isso representa simples efeito colateral da desaceleração econômica, para as pessoas com mais de 65 anos a média subiu a US$ 170.484 (em geral devido ao avanço nos valores dos imóveis.) Com isso, o número de jovens dos 25 aos 34 anos que vivem com os pais aumentou em 1,2 milhão em 2011 ante o total de 2007.
Os jovens também têm jornadas de trabalho mais longas. Em 2011, de acordo com o Serviço de Estatísticas do Trabalho, os trabalhadores com emprego de período integral e idade de 20 a 24 anos trabalhavam apenas 2,1 horas semanais a menos que os trabalhadores com mais de 25 anos.
Isso não oferece muito tempo de lazer naquele período supostamente descuidado na vida pessoal. Ou, para citar a aspirante a escritora de 24 anos de idade que serve como personagem central da série "Girls", de Lena Dunham, "minha ocupação é tentar me tornar o que sou".
Um recente post da Dalkey Archive Press, editora de vanguarda em Champaign, Illinois, em busca de estagiários não remunerados para seu escritório em Londres, oferece um bom resumo das exigências extravagantes feitas aos jovens trabalhadores.
A severa lista de causas de "demissão sumária" inclui "chegar atrasado ou sair mais cedo sem autorização prévia", "estar indisponível de noite ou nos finais de semana" ou "deixar de responder a e-mails em prazo útil".
O "Steve Wilkos Show", um programa de TV da NBCUniversal, recentemente postou anúncio no Craigslist para um assistente de produção freelancer para trabalhar "65+ horas semanais" (o anúncio foi retirado posteriormente depois de ter causado comentários indignados no site jimromenesko.com).
"A ideia do posto tradicional de ingresso no mercado de trabalho está desaparecendo", disse Ross Perlin, 29, autor de "Intern Nation: How to Earn Nothing and Learn Little in the Brave New Economy" (O País dos Estagiários: Como Ganhar Nada e Aprender Pouco na Admirável Economia Nova, em tradução livre).
Os cargos iniciais foram substituídos por estágios, ele diz, "mas também por bolsas de pesquisa e posições nebulosas que parecem importantes mas pagam apenas um estipêndio, o que significa ganhos de apenas US$ 15 mil anuais".
DESESPERO JOVEM
No passado posições de tempo parcial, os estágios se tornaram um rito de passagem obrigatório que muitas vezes pode se arrastar por anos.
"Especialmente nas profissões mais prestigiadas --cinema e TV, editoras e mídia--, as empresas estão forçando a barra para descobrir o máximo de trabalho que podem extrair dos jovens pelo mais baixo salário ou estipêndio possível", afirmou Perlin. "E as pessoas estão tão desesperadas que aceitam."
Foi o que Katherine Myers, 27, constatou ao se formar na faculdade em 2008. Depois de meses de busca, ela conseguiu emprego como coordenadora de desenvolvimento em um canal de TV a cabo em Nova York. "Eu estava disposta a encarar qualquer coisa", diz. "Nunca almoçava, chegava antes da hora, ficava até tarde."
Mas sua experiência ainda assim foi mais agradável do que a de dois amigos que trabalharam para uma mesma produtora de cinema, um depois do outro.
"No ano passado, fizemos uma festa surpresa de aniversário para um deles, mas ele não pôde comparecer porque seu chefe o chamou para uma exibição de filme", ela conta. "Passamos um ano quase sem vê-lo. Acordava às cinco da manhã, ficava no escritório até a 1h do dia seguinte, dormia na mesa".
A outra amiga deixou o emprego e se matriculou na pós-graduação em Direito depois de apenas quatro meses.
"Creio que ela considerou que não fizesse sentido", diz Myers. "É preciso ter a sensação de que você está fazendo algo de bom pelo mundo, e em alguns empregos é difícil que isso aconteça. Se você é médico ou advogado, é fácil justificar o esforço. Mas se você trabalha com moda, bem, quem realmente se importa?"
Mas Myers, que agora ocupa cargo mais alto no site CollegeHumor, está decidida a se manter em seu ramo, e o mesmo vale para Cathy Pitoun, 25.
Dois anos atrás, como assistente de produção em Culver City, Califórnia, em uma empresa de edição de trailers de cinema, Pitoun ganhava US$ 10 por hora sem benefícios (ainda que as horas extras fossem pagas com adicional), e tinha plantões rotativos nos finais de semana.
Depois de seis meses, ela foi promovida a um cargo em que "qualquer pisada na bola era causa de demissão", conta, com um aumento de US$ 2 por hora e benefícios. Ela calcula que trabalhasse cerca de 60 horas por semana.
"Havia dias em que eu começava às quatro da manhã, para enviar um anúncio de TV a um cliente no Japão, e depois precisava voltar ao escritório quatro horas mais tarde para trabalhar o resto do dia", conta. "Também havia dias em que eu precisava chegar às 5h para sessões de dublagem com atores europeus, para compensar o fuso horário, e mesmo assim trabalhava até as 21h."
Sua dedicação teve frutos, como a de Myers: agora ela é assistente do presidente-executivo da companhia, ainda que saiba que seu percurso para atingir seus objetivos de longo prazo "vai ser pior antes que melhore".
CONECTADOS
O trabalho de Pitoun certamente seria menos rigoroso na era anterior à Internet e ao smartphone. Se ela desligava o telefone por algumas horas, encontrava suas caixas de entrada inundadas de e-mails, mensagens e ligações perdidas, ao religá-lo.
"Eu tinha de ficar disponível 100% do tempo, mesmo nos finais de semana", diz, "e por isso dedicava os finais de semana a cuidar do meu apartamento, e ficava esperando ligações". Os trabalhos para os quais era chamada podiam ser simples, por exemplo enviar um e-mail, ou complicados como digitalizar 15 horas de filmes.
McIntyre estima que recebe entre 300 e 400 e-mails por dia, e que tenta responder ao menos 80% deles. Como é que ela encontra energia para digitar sem parar, sem mencionar os dias de 16 horas de trabalho que enfrenta quando acompanha escritores em viagens de divulgação?
"Tomo café antes de sair de casa, há um Dunkin' Donuts convenientemente posicionado no metrô, quando saio, e tomo mais um café durante o dia", conta. "E são cafés grandes."
Para complicar ainda mais as coisas, ainda não existe um sistema para quantificar ou definir o trabalho digital. E isso vai bem além do e-mail. "Um tweet é trabalho? Um post no Facebook é trabalho?", pergunta Perlin, o escritor.
Ironicamente, a geração milênio, à qual frequentemente cabe o trabalho de monitorar redes sociais e e-mails de madrugada, talvez subestime o valor desse tipo de trabalho. Seus hábitos de consumo gratuito de cultura na Internet, sugere Perlin, "foram transplantados para o mundo do trabalho, de modo que eles podem se dispor mais a aceitar permutas ou escambos", por exemplo almoços gratuitos. E seu pagamento primário é acumular "capital cultural", não "capital capital".
Nas profissões mais prestigiadas, além disso, especialmente no informal Vale do Silício, muitas empresas tentaram "pôr fim ao pesadelo da homogeneidade dos anos 50", diz Perlin, falando sobre os espaços com mesas de pebolim e outros atrativos em estilo universitário oferecidos para convencer o pessoal a ficar no escritório até tarde e se relacionar com os colegas.
"Mas agora temos algo de mais sinistro", ele diz. "As pessoas estão trabalhando muito mais e são convencidas de que precisam se dedicar totalmente. O ideal das empresas é eliminar a distinção entre trabalho e casa, entre os colegas de trabalho e os amigos pessoais".
Os filhos de pais ocupados, acostumados a agendas cheias desde a pré-escola podem encontrar dificuldades para estipular limites para a vida profissional. Como parte de uma geração que "foi ensinada a trabalhar com amor", Perlin, "somos conduzidos a muitos desses campos e encorajados a destruir a distinção entre vida e trabalho, ao modo dos artistas do passado".
DEDICAÇÃO
"Ninguém consegue um emprego se disser que só quer um emprego", ele diz. "Você precisa, supostamente, acreditar de coração no projeto, e demonstrar o fato ficando até tarde ou respondendo a e-mails às 23h".
Foi esse tipo de dedicação que Lucy Schiller demonstrou ao longo de dois anos em Denver e San Francisco, mas nada do que fez deu certo. Ela se enquadra às categoria de "estagiário serial" definida no livro de Perlin. Enquanto trabalhava no turno das 4h45min às 15h, quatro dias por semana, em um café, por salário mínimo (e o gerente da casa ficava com metade de suas gorjetas), ela fez estágios, quase todos não remunerados, em cinco instituições artísticas e culturais, e tentou levar adiante alguns projetos pessoais.
Essas perspectivas nunca eram lucrativas. Em um site, "havia a possibilidade de receber US$ 3 por artigo, mas não deu certo", ela disse. As 70 horas que ela trabalhava por semana lhe valiam renda de cerca de US$ 500 semanais.
Em seu último dia em um estágio, sua chefe, uma mulher de 75 anos, pediu ajuda para carregar algumas coisas pesadas em casa. Na garagem, ela abriu uma porta da qual emergiu uma luz cintilante.
"Era uma imensa sala repleta de plantas de maconha", conta Schiller. "Ela me pediu que ajudasse a fazer a colheita, virando a noite. Ela fatura US$ 35 mil por safra, e o dinheiro vai para sua conta de aposentadoria".
O pagamento da estagiária: um burrito no café da manhã.
OTIMISMO
Nos seus demais trabalhos, conta Schiller, "eu me dedicava muito e escrevia muito, e tudo isso tem resultado, de certa maneira, mas não resultado imediato". Seus pais, inicialmente entusiasmados com suas perspectivas, passaram a se preocupar mais e mais com a sucessão de estágios, um ciclo que, teme Schiller, a esteja pintando como "vacilante, ou inviável para trabalho pago".
Em janeiro, ela voltou a morar na casa dos pais em Urbana, Illinois, para economizar e procurar emprego --mas provavelmente não na Dalkey Archive Press.
Perlin diz que alguns estudos apontam que os jovens dos 20 aos 30 anos passam por oito a nove empregos, o que os economistas veem como positivo, mas "eles não consideram o estresse e o desgaste pessoal que isso causa".
Os pais de Myers, igualmente, "me encorajam e reconhecem meu esforço, mas não entendem" sua carreira no mundo do entretenimento. "Eles não acham que eu esteja bem encaminhada", diz. "Acham que trabalhar não faz sentido se você não está ganhando dinheiro."
"É uma questão legítima", ela prossegue. "Dentro de poucos anos, chegarei aos 30, e é difícil aceitar a disparidade entre minha posição no setor e a de outras pessoas que estão se saindo muito bem. Ao levantar a cada manhã, preciso imaginar que um dia serei uma dessas pessoas. Por sorte, sou muito positiva e me iludo facilmente".
Tradução de PAULO MIGLIACCI

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quarta-feira, 6 de março de 2013

Muchas gracias

Muchas gracias y hasta siempre

por Henrique Júdice [*]
Autor desconhecido. Escrevo entre o impulso ditado pela emoção e a dificuldade derivada da mesma fonte para alinhar as ideias. Não pretendo redigir uma resenha biográfica nem um balanço político dos 14 anos de poder de Hugo Rafael Chávez Frías, mas tão-só um registro de gratidão e reconhecimento.

Tendo me formado politicamente em meio ao refluxo da esquerda latino-americana nos anos 1990, acompanhei com simpatia e com uma cautelosa esperança sua primeira candidatura presidencial, em 1998. Aquele decênio havia sido pródigo em frustrações para o continente, inclusive sob a forma de líderes que chegavam ao poder prometendo enfrentar o Consenso de Washington e no dia seguinte curvavam-se a ele. Chávez, como logo ficou claro, era vinho de outra pipa.

Sabemos que os tempos históricos nem sempre guardam com os cronológicos coincidência precisa. No caso de Chávez, porém, o hiato foi pequeno: sua chegada ao poder, em 1999, foi, para a América Latina, o início do fim da década de 90 do século XX. O fim definitivo dar-se-ia em 2005, em Mar del Plata, na Argentina, quando, ao lado de Néstor Kirchner, liderou o bloco sul-americano que enterrou a proposta da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

Entre uma coisa e outra, houve o golpe de Estado de 2002 e sua reversão, inédita na história do continente. Naquela época, eu passava por uma situação pessoal muito difícil e a notícia, quase inacreditável, da vitória popular e do resgate do presidente da prisão na ilha de La Orchilla me devolveram o gosto pela vida. Chávez, um militar que chegou e se manteve no poder pela via institucional, provou ali sua coragem física, sua fibra em momentos decisivos e sua capacidade para enfrentar a oligarquia e o imperialismo também no terreno para o qual formara-se originalmente. Era quase como se Allende revivesse e derrotasse as forças que atacavam La Moneda em 1973.

Sob a condução do Comandante Chávez, a Venezuela foi, nesses 14 anos, o ponto de Arquimedes da resistência ao imperialismo e da integração latino-americana. Mais que colocar a renda do petróleo e a geopolítica a serviço desses objetivos, ele desatou uma revalorização cultural, subjetiva, da identidade continental. E em que pese alguns recuos na questão colombiana impostos pela famigerada razão de Estado, apoiou todas as lutas populares em curso no continente. Os brasileiros recordaremos sempre seu gesto de estender aos trabalhadores que haviam tomado o controle da Flaskô e da Cipla a mão que o governo daqui, do qual era aliado, lhes negava.

Neruda escreveu um poema chamado Un canto para Bolívar que eu vim a conhecer por causa de Chávez, que gostava de citá-lo. "És ou não és quem és?" ?– pergunta o poeta chileno ao Libertador ao encontrá-lo na Madri dos anos 30. "Desperto a cada cem anos, quando desperta o povo", responde o venerável espectro. A Venezuela, a América Latina e o mundo perderam hoje um personagem histórico da mesma dimensão de Bolívar, San Martín, Artigas, Martí, Allende, Che Guevara e Fidel Castro. E isto, ao contrário do que pode parecer, não é um preito, mas uma análise histórica objetiva que, em algumas décadas, será confirmada.

Muchas gracias, Comandante Chávez! Y hasta siempre!
06/Março/2013
[*] Jornalista, brasileiro.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Arquivos de órgãos da ditadura militar estão desaparecidos

  1. Arquivos de órgãos da ditadura militar estão desaparecidos Documentos produzidos por mais de 200 órgãos de inteligência durante a ditadura militar (1964-1985) estão desaparecidos, de acordo com levantamento feito pelo Arquivo Nacional, que é responsável por recolher e organizar os papéis do período. Com base no arquivo do antigo SNI (Serviço Nacional de Informações), principal órgão de espionagem do regime militar, o levantamento identificou 260 organizações voltadas à coleta de informações em ministérios, autarquias e fundações federais. Veja documentos da ditadura retidos em ministérios Governo manda liberar arquivos da ditadura retidos em ministérios Ministra diz que ocultar papéis da ditadura é estar 'fora da lei' Mas só 53 desses órgãos têm algum documento depositado no Arquivo Nacional. Entre os 207 arquivos desaparecidos estão o do Cenimar (Centro de informações da Marinha) e o do CIE (Centro de Informações do Exército). O governo tenta localizar os documentos desses arquivos há mais de seis anos, mas os ministérios onde esses órgãos funcionavam dizem que não conseguem encontrá-los. A ordem para localizar a papelada foi dada pela presidente Dilma Rousseff na época em que ela era ministra da Casa Civil, no governo Lula. Em dezembro do ano passado, todos os ministérios foram cobrados, sem sucesso. "Recebemos muitos telefonemas de muitos órgãos no sentido de que estavam com dificuldade para identificar o material", disse à Folha o diretor-geral do Arquivo Nacional, Jaime Antunes. "Se existiram, onde está o acervo?" Antunes disse que as respostas do Ministério da Defesa, ao qual as três Forças Armadas estão subordinadas, sugerem que muitos documentos podem ter sido destruídos de maneira suspeita. http://www1.folha.uol.com.br/poder/1241380-arquivos-de-orgaos-da-ditadura-militar-estao-desaparecidos.shtml

terça-feira, 5 de março de 2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

1ª professora com Down

1ª professora com Down do país defende inclusão em escola regular

Débora Seabra, de 31 anos, é professora assistente em Natal (RN).
'A escola regular me fez sentir incluída', diz.

Vanessa Fajardo Do G1, em São Paulo
43 comentários
Débora Seabra, de 31 anos, com alunos na Escola Doméstica de Natal (Foto: Arquivo pessoal)Débora Seabra, de 31 anos, com alunos na Escola Doméstica de Natal (Foto: Arquivo pessoal)
Seja na aula de spinning, de musculação, nas oficinas de teatro ou no trato com as crianças no trabalho como professora, Débora Araújo Seabra de Moura, de 31 anos, prova que a inclusão é possível. Moradora de Natal (RN), ela estudou exclusivamente na rede regular de ensino, e foi a primeira pessoa com síndrome de Down a se formar no magistério, em nível médio, no Brasil, em 2005. Fez estágio na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e há nove anos trabalha como professora assistente em um colégio particular tradicional de Natal, a Escola Doméstica.
 
Débora considera que sua vida escolar teve mais experiências positivas. “A escola regular me fez sentir incluída com as outras crianças. Para mim não existe separação. Superei preconceitos, fiz muitas amizades e mostrei para as pessoas o que era a inclusão”, afirma.
Neste ano, a missão da jovem na Escola Doméstica é ajudar a cuidar e alfabetizar uma sala com 28 crianças de 6 a 7 anos do 1º ano do ensino fundamental. “Eu gosto das crianças. Tenho paciência, só alguns são bagunceiros e a maioria é focado. Se eu sou brava? Não, sou normal, trato eles super bem”, diz.
"Nunca cogitei uma escola especial porque Débora era uma criança comum. A escola especial era discriminatória e ela precisava de desafios. Não sabia muito bem como seria, mas estava aberta para ajudar minha filha a encarar qualquer coisa"
Margarida Seabra, 71 anos, advogada
A professora diz que foi muito bem recebida pelos funcionários, professores e alunos da escola que de vez em quando a questionam sobre as diferenças. “Às vezes as crianças me perguntam: ‘Tia por que você fala assim?’. Aí eu respondo: ‘Minha fala é essa, cada um fala de um jeito, de forma diferente’. Aproveito e explico que tenho síndrome Down e eles entendem."

Desinformação
Há 31 anos quando Débora nasceu pouco se sabia sobre a síndrome de Down. Na época, as crianças que têm olhos amendoados e podem ter habilidade cognitiva comprometida por conta presença do cromossomo 21 eram chamadas de maneira pejorativa de ‘mongoloides’. Receosos, os pais em sua maioria optavam em matricular os filhos nas escolas especiais. Eles achavam de maneira errônea que ao restringir o contato das crianças aos deficientes as chances de adaptação eram maiores.
Contrariando esta tendência, o médico psiquiatra José Robério, de 72 anos, e a advogada Margarida, 71, pais de Débora não imaginaram outra escola para a garota, se não a regular. Foi assim por toda a vida escolar, nem sempre fácil. Ainda na educação infantil, Débora lembra de ter sido chamada de 'mongol' por um garoto. Ela chorou, ficou magoada, mas encontrou na professora uma aliada que explicou à classe que 'mongois' eram os habitantes da Mongólia e ainda ensinou as crianças o que era a síndrome de Down.
Débora faz palestras dentro e fora do país (Foto: Arquivo pessoal)Débora faz palestras dentro e fora do país
(Foto: Arquivo pessoal)
 
'Amor se sobrepõe'
A mãe relata: "Nunca cogitei uma escola especial porque Débora era uma criança comum. A escola especial era discriminatória e ela precisava de desafios. Não sabia muito bem como seria, mas estava aberta para ajudar minha filha a encarar qualquer coisa". Engajada na causa, em 1983, Margarida fundou a Associação de Síndrome de Down, em Natal, com o objetivo de conscientizar a população e batalhar pelo fim do preconceito.
"Quando eu soube que Débora tinha Down foi como seu eu tivesse virado do avesso. A perspectiva era tenebrosa, não havia informação, mas o amor se sobrepõe a qualquer deficiência", afirma Margarida. "Criamos a Débora desprovida de total preconceito, sempre a tratei igual ao meu filho mais velho [Frederico, advogado, de 33 anos], o assunto nunca foi tabu. Ela é uma moça como qualquer outra, sonha, deseja, tem planos, é descolada e bem aceita em qualquer ambiente."
Por conta de sua experiência com professora, Débora já foi convidada para palestrar em várias partes do país e até fora dele, como Argentina e Portugal. Sempre que pode participa de iniciativas para ajudar a combater o preconceito. “Ainda existe e acho que as palestras ajudam a diminui-lo. Muitos professores foram assistir minhas palestras e fui aplaudida em pé pela plateia.”
No dia 21 de março quando se comemora o Dia Internacional da Pessoa com Síndrome de Down, Débora vai apresentar uma peça de teatral junto com outros professores da Escola Doméstica de Natal para explicar o que é a síndrome aos alunos. Ela fez aulas de teatro por três anos. Outro plano é lançar um livro de pequenas fábulas, todas de cunho moral que abordam a inclusão.