sexta-feira, 10 de maio de 2013

Já descolou seu orgasmo hoje?



10 maio, 2013
Já descolou seu orgasmo hoje?

Edival Lourenço, RevistaBula

“No fundo, no fundo, o orgasmo é o produto mais cobiçado de hoje em dia. Por um princípio básico de mercado, sempre a demanda é proporcionalmente inversa à oferta. Assim, podemos concluir que, se há uma demanda desesperada é porque há uma oferta retraída. O orgasmo é muito prometido e pouco cumprindo. Nem comprido (em oposição a curto). O indivíduo que encontra, fica, namora, amiga ou casa, promete orgasmo. Mas nem sempre entrega. Parece promessa de candidato. Produtos diversos prometem orgasmo, como a cerveja, o novo modelo de carro, o ovo de chocolate, o macarrão instantâneo e tantos outros. Mas tudo isso é propaganda enganosa. Ainda não foi inventado um sucedâneo genuíno ao sexo para proporcionar o orgasmo legítimo, de qualidade. E ter um orgasmo frustrante é ficar na mão, como diz a sabedoria popular.

Primeiramente convém tecer algumas considerações terminológicas. Orgasmo seria produto, ou serviço? Ele tem características de produto, por se tratar de um bem material (e imaterial), in natura, tem valor econômico, é móvel (a jato), fungível (acaba depois do uso) perecível (ou transitório) e tal. Não é um produto de prateleira, postula a condição de customizado.

Por outro lado, o orgasmo tem características exclusivas de serviço: Exige a presença de um profissional. Profissional em termos, porque o profissional mesmo (prostituta, garoto de programa), ao contrário do que ocorre em outros serviços, acaba por depreciá-lo. Há tentativas frustrantes de se conseguir sozinho o orgasmo, do tipo artesanal. Mas é como fazer justiça com as próprias mãos. É falso, sem graça e ainda, se praticado de forma frequente e continuada, acaba se transformando em vício. O vício da solidão, o preferido pelos auto-fornicários. Outra característica de serviço do orgasmo é que ele não pode ser guardado ou acumulado. Ninguém consegue acomodá-lo no cofre, nas gavetas da cômoda, ou mesmo entre as páginas do livro de cabeceira feito folhas dissecadas de avenca. Ninguém pode dizer, estou com cinco orgasmos guardados lá em casa e vou consumi-los semana que vem.

Portanto, o orgasmo é um bem compósito, misto de produto e serviço. Um produto gerado e consumido simultaneamente ao seu fazimento (como dizem os juristas).

Seja produto, seja serviço, seja produto complexo, seja lá o que for, a verdade mesmo é que o mercado está carente de orgasmo. Engraçado é que o segmento vem recebendo estímulos, incrementos e incentivos de facilidade, mas o efeito tem sido contrário. A liberação dos costumes, as roupas expositivas das partes, as facilidades de encontro, os sex shops, os filmes pornôs, a sexificação precoce das crianças, o prolongamento da vida útil dos velhos, os tratamentos médicos, os hormônios sintéticos, o Viagra, os óleos lubrificantes, os preservativos, tudo está aí à mão de todo mundo. Ainda assim a produção de orgasmos parece ter um crescimento inversamente proporcional à demanda.

E com a oferta escassa, cada um que arme sua estratégia e execute a melhor tática para descolar o seu de cada dia. Outro dias me falaram de uma moça que desenvolveu uma técnica infalível para ter sua ração de orgasmo diário, sem interrupções. Muito bonita (pras pessoas bonitas a coisa é sempre mais fácil) ela se traja de modo atrativo, mas sem exagero, sai de manhazinha e cada dia vai a um parque onde o pessoal faz caminhada, normalmente sob árvores, ao redor de um lago.

Ao ver que vai cruzar com alguém que lhe interessa, ela dá umas pedalas na frente da pessoa como se estive indecisa quanto a mão a tomar. Aproveita para dar um sorriso simpático, pede desculpas de modo agradável e se possível faz um afago carinhoso na pessoa atrapalhada em sua andança. É claro que nessas alturas a outra pessoa já fica mexida. Caso a aproximação não aconteça nessa hora mesmo, na volta seguinte é fatal. Como já foi travado um contato anterior, a moça se vê legitimada a sorrir na próxima volta e puxar um assunto. Vira o curso da caminhada, entabula um papo legal e dali mesmo pode sair uma troca de telefones, ou mesmo uma agenda para a produção e consumo do orgasmo. Assim ela não tem sofrido as agruras da escassez de orgasmo que se abateu sobre a humanidade nos últimos tempos.

Portanto se você ainda não armou sua teia, não estabeleceu sua tática nem saiu ao campo operacional para descolar o seu quinhão de orgasmo no mundo, o que você está esperando? A hora é agora. A vida é uma só e não costuma dar marcha a ré.”

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Sobre a vinda dos 6.000 médicos cubanos




Pedro Saraiva: Sobre a vinda dos 6.000 médicos cubanos

publicado em 9 de maio de 2013 às 9:43

Por Pedro Saraiva, no blog do Nassif

Olá Nassif, sou médico e gostaria de opinar sobre a gritaria em relação à vinda dos médicos cubanos ao Brasil. Bom, como opinião inteligente se constrói com o contraditório, vou tentar levantar aqui algumas informações sobre a vinda de médicos cubanos para regiões pobres do Brasil que ainda não vi serem abordadas.

– O principal motivo de reclamação dos médicos, da imprensa e do CFM seria uma suposta validação automática dos diplomas destes médicos cubanos, coisa que em momento algum foi afirmado por qualquer membro do governo. Pelo contrário, o próprio ministro da saúde, Antônio Padilha, já disse que concorda que a contratação de médicos estrangeiros deve seguir critérios de qualidade e responsabilidade profissional. Portanto, o governo não anunciou que trará médicos cubanos indiscriminadamente para o país. Isto é uma interpretação desonesta.

– Acho estranho o governo ter falado em atrair médicos cubanos, portugueses e espanhóis, e a gritaria ser somente em relação aos médicos cubanos. Será que somente os médicos cubanos precisam revalidar diploma? Sou médico e vivo em Portugal, posso garantir que nos últimos anos conheci médicos portugueses e espanhóis que tinham nível técnico de sofrível para terrível. E olha que segundo a OMS, Espanha e Portugal têm, respectivamente, o 6º e o 11º melhores sistemas de saúde do mundo (não tarda a Troika dar um jeito nesse excesso de qualidade). Profissional ruim há em todos os lugares e profissões. Do jeito que o discurso está focado nos médicos de Cuba, parece que o problema real não é bem a revalidação do diploma, mas sim puro preconceito.

– Portugal já importa médicos cubanos desde 2009. Aqui também há dificuldade de convencer os médicos a ir trabalhar em regiões mais longínquos, afastadas dos grandes centros. Os cubanos vieram estimulados pelo governo, fizeram prova e foram aprovados em grande maioria (mais à frente vou dar maiores detalhes deste fato).

A população aprovou a vinda dos cubanos, e em 2012, sob pressão popular, o governo português renovou a parceria, com amplo apoio dos pacientes. Portanto, um dos países com melhores resultados na área de saúde do mundo importa médicos cubanos e a população aprova o seu trabalho.

– Acho que é ponto pacífico para todos que médicos estrangeiro tenham que ser submetidos a provas aí no Brasil. Não faz sentido importar profissionais de baixa qualidade. Como já disse, o próprio ministro da saúde diz concordar com isso. Eu mesmo fui submetido a 5 provas aqui em Portugal para poder validar meu título de especialista. As minhas provas foram voltadas a testar meus conhecimentos na área em que iria atuar, que no caso é Nefrologia. Os cubanos que vieram trabalhar em Medicina de família também foram submetidos a provas, para que o governo tivesse o mínimo de controle sobre a sua qualidade.

Pois bem, na última leva, 60 médicos cubanos prestaram exame e 44 foram aprovados (73,3%). Fui procurar dados sobre o Revalida, exame brasileiro para médicos estrangeiros e descobri que no ano de 2012, de 182 médicos cubanos inscritos, apenas 20 foram aprovados (10,9%). Há algo de estranho em tamanha dissociação. Será que estamos avaliando corretamente os médicos estrangeiros?

Seria bem interessante que nossos médicos se submetessem a este exame ao final do curso de medicina. Não seria justo que os médicos brasileiros também só fossem autorizados a exercer medicina se passassem no Valida? Se a preocupação é com a qualidade do profissional que vai ser lançado no mercado de trabalho, o que importa se ele foi formado no Brasil, em Cuba ou China?

O CFM se diz tão preocupado com a qualidade do médico cubano, mas não faz nada contra o grande negócio que se tornaram as faculdades caça-níqueis de Medicina. No Brasil existe um exército de médicos de qualidade pavorosa. Gente que não sabe a diferença entre esôfago e traqueia, como eu já pude bem atestar. Porque tanto temor em relação à qualidade dos estrangeiros e tanta complacência com os brasileiros?

– Em relação este exame de validação do diploma para estrangeiros abro um parêntesis para contar uma situação que presenciei quando ainda era acadêmico de medicina, lá no Hospital do Fundão da UFRJ.

Um rapaz, se não me engano brasileiro, tinha feito seu curso de medicina na Bolívia e havia retornado ao país para exercer sua profissão. Como era de se esperar, o rapaz foi submetido a um exame, que eu acredito ser o Revalida (na época realmente não procurei me informar). O fato é que a prova prática foi na enfermaria que eu estava estagiando e por isso pude acompanhar parte da avaliação.

Dois fatos me chamaram a atenção, o primeiro é a grande má vontade dos componentes da banca com o candidato. Não tenho dúvidas que ele já havia sido prejulgado antes da prova ter sido iniciada. Outro fato foi o tipo de perguntas que fizeram.

Lembro bem que as perguntas feitas para o rapaz eram bem mais difíceis que aquelas que nos faziam nas nossas provas. Lembro deles terem pedidos informações sobre detalhes anatômicos do pescoço que só interessam a cirurgiões de cabeça e pescoço. O sujeito que vai ser médico de família, não tem que saber todos os nervos e vasos que passam ao lado da laringe e da tireoide. O cara tem que saber tratar diarreia, verminose, hipertensão, diabetes e colesterol alto. Soube dias depois que o rapaz tinha sido reprovado.

Não sei se todas as provas do Revalida são assim, pois só assisti a uma, e mesmo assim parcialmente. Mas é muito estranho os médicos cubanos terem alta taxa de aprovação em Portugal e pouquíssimos passarem no Brasil. Outro número que chama a atenção é o fato de mais de 10% dos médicos em atividade em Portugal serem estrangeiros. Na Inglaterra são 40%. No Brasil esse número é menor que 1%. E vou logo avisando, meu salário aqui não é maior do que dos meus colegas que ficaram no Brasil.

– Até agora não vi nem o CFM nem a imprensa irem lá nas áreas mais carentes do Brasil perguntar o que a população sem acesso à saúde acha de virem 6000 médicos cubanos para atendê-los. Será que é melhor ficar sem médico do que ter médicos cubanos? É o óbvio ululante que o ideal seria criar condições para que médicos brasileiros se sentissem estimulados a ir trabalhar no interior. Mas em um país das dimensões do Brasil e com a responsabilidade de tocar a medicina básica pulverizada nas mãos de centenas de prefeitos, isso não vai ocorrer de uma hora para outra.

Na verdade, o governo até lançou nos últimos anos o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), que oferece salários mensais de R$ 8 mil e pontos na progressão de carreira para os médicos que vão para as periferias. O problema é que até hoje só 4 mil médicos aceitaram participar do programa. Não é só salário, faltam condições de trabalho. O que fazemos então? Vamos pedir para os mais pobres aguentar mais alguns anos até alguém conseguir transformar o SUS naquilo que todos desejam? Vira lá para a criança com diarreia ou para a mãe grávida sem pré-natal e diz para ela segurar as pontas sem médico, porque os médicos do sul e sudeste do Brasil, que não querem ir para o interior, acham que essa história de trazer médico cubano vai desvalorizar a medicina do Brasil.

– É bom lembrar que Cuba exporta médicos para mais de 70 países. Os cubanos estão acostumados e aceitam trabalhar em condições muito inferiores. Aliás, é nisso que eles são bons. Eles fazem medicina preventiva em massa, que é muito mais barata, e com grandes resultados. Durante o terremoto do Haiti, quem evitou uma catástrofe ainda maior foram os médicos cubanos. Em poucas semanas os médicos dos países ricos deram no pé e deixaram centenas de milhares de pessoas sem auxílio médico.

Se não fosse Cuba e seus médicos, haveria uma tragédia humanitária de proporções dantescas. Até o New England Journal of Medicine, a revista mais respeitada de medicina do mundo, fez há poucos meses um artigo sobre a medicina em Cuba. O destaque vai exatamente para a capacidade do país em fazer medicina de qualidade com recursos baixíssimos (http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp1215226).

– Com muito menos recursos, a medicina de Cuba dá um banho em resultados na medicina brasileira. É no mínimo uma grande arrogância achar que os médicos cubanos não estão preparados para praticar medicina básica aqui no Brasil. O CFM diz que a medicina de Cuba é de má qualidade, mas não explica por que a saúde dos cubanos, como muito menos recursos tecnológicos e com uma suposta inferioridade qualitativa, tem índices de saúde infinitamente melhores que a do Brasil e semelhantes à avançada medicina americana (dados da OMS).

– Agora, ninguém tem que ir cobrar do médico cubano que ele saiba fazer cirurgia de válvula cardíaca ou que seja mestre em dar laudos de ressonância magnética. Eles não vêm para cá para trabalhar em medicina nuclear ou para fazer hemodiálises nos pacientes. Medicina altamente tecnológica e ultra especializada não diminui mortalidade infantil, não diminui mortalidade materna, não previne verminose, não conscientiza a população em relação a cuidados de saúde, não trata diarreia de criança, não aumenta cobertura vacinal, nem atua na área de prevenção. É isso que parece não entrar na cabeça de médicos que são formados para serem superespecialistas, de forma a suprir a necessidade uma medicina privada e altamente tecnológica. Atenção! O governo que trazer médicos para tratar diarreia e desidratação! Não é preciso grande estrutura para fazer o mínimo. Essa população mais pobre não tem o mínimo!

Que venham os médicos cubanos, que eles façam o Revalida, mas que eles sejam avaliados em relação àquilo que se espera deles. Se os médicos ricos do sul maravilha não querem ir para o interior, que continuem lutando por melhores condições de trabalho, que cobrem dos governos em todas as esferas, não só da Federal, melhores condições de carreira, mas que ao menos se sensibilizem com aqueles que não podem esperar anos pela mudança do sistema, e aceitem de bom grado os colegas estrangeiros que se dispõe a vir aqui salvar vidas.

Infelizmente até a classe médica aderiu ao ativismo de Facebook. O cara lê a Veja ou O Globo, se revolta com o governo, vai no Facebook, repete meia dúzia de clichês ou frases feitas e sente que já exerceu sua cidadania. Enquanto isso, a população carente, que nem sabe o que é Facebook morre à mingua, sem atendimento médico brasileiro ou cubano.

BLOG DO PEDRO PORFÍRIO: Por que os médicos cubanos assustam

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Dói gostar dos outros



Dói gostar dos outros
Oi, vocês todos.
Boa tarde para todos.
E um viva para todos.
Uns versos vou escrever.
Vou começar... atenção.
Preste atenção.
Dói o peito chorar.
Dói os seus olhos chorarem.
Dói nós viver.
Dói ver os outros chorarem.
Dói a natureza chorar.
Dói gostar dos outros.
Dói cair uma pedra no seu pé.
Dói falar tchau, amigos

Autoria de Janaína de Almeida Teles, em 1976, aos 8 anos de idade, filha de Cesar Teles, preso político no Barro Branco.

terça-feira, 7 de maio de 2013

A ascensão da extrema-direita


Flávio Aguiar: A ascensão da extrema-direita na Europa

publicado em 6 de maio de 2013 às 11:45

Ideias de Hayek abrem espaço para ascensão da extrema-direita

Internacional| 06/05/2013 | Copyleft

O caminho mais perigoso

Pintar o bigodinho de Hitler na chanceler Angela Merkel apenas estimula a xenofobia e não retrata a realidade. A hegemonia européia de hoje têm mais a ver com von Hayek, a Escola Austríaca, Friedman e outros críticos liberais tanto do nazismo (ou do comunismo) quanto da socialdemocracia e de Keynes. Tem mais a ver com Margareth Thatcher, Ronald Reagan e João Paulo II do que com Hitler, Mussolini, Franco ou mesmo Salazar.

Flávio Aguiar, na Carta Maior

Quem semeia tempestades


Colhe vento.


(Variação sobre conhecido provérbio)



Desde a crise financeira de 2007/2008, e sobretudo desde a aceleração da inadimplência grega a partir de 2010 (embora visível já desde o fim de 2009) a ortodoxia liberal hegemônica na Europa vem semeando tempestades.

Esta hegemonia se expressa, em nível continental, num quadrilátero: os três pés da Troika, formada pela Comissão Européia, o Banco Central Europeu e o FMI, mais o pé da liderança exercida pelo governo alemão, Ângela Merkel e Wolfgang Schäuble (o ministro da área financeira) à frente.

Estes quatro pés não são iguais. De longe e desde muito, o pé “menos à direita” é o do FMI, que vem dando seguidas sinalizações de que é necessário suavizar suas próprias receitas ortodoxas. Jogando no meio-campo, a Comissão Européia, através de seu presidente, José Manuel Barroso, deu mostras de “fadiga mental e emocional”, ao entoar também o coro da “suavização” das políticas de “austeridade”.

O Banco Central Europeu, que tem o papel precípuo de conter a inflação e cuidar da moeda (o euro), vem dando mostras de estar disposto a fazer o que puder, dentro de suas limitações institucionais, para amenizar a situação. No caso, o que ele pode fazer é atuar no sentido de baixar o custo da renovação das dívidas dos países mais encalacrados: Grécia, Irlanda, Espanha, Portugal, Chipre, Itália, e, mais perto ou ainda ao longe, mas já acendendo luzes amarelas, Eslovênia, Bélgica, França… a lista vai se estendendo.

O pé mais rígido parte da Alemanha: a presença de Jörg Asmussen(tradicionalmente ligado ao SPD) e Jens Weidmann (este o presidente do Banco Central Alemão) no Conselho do B. C. E., e o próprio governo de Berlim. Esta rigidez tem, por sua vez, duas raízes. A primeira é a eleição de setembro, e a necessidade de manter a ladainha da “austeridade” num país em que o eleitorado permanece largamente seduzido pela diluição de um mix de idéias que partem de Lutero e passam pelas características do capitalismo protestante identificadas por Max Weber: poupa e serás poupado.

A segunda, mais profunda, é a absoluta hegemonia que as idéias liberais têm na formação do meio-ambiente e do estado mental dos gestores econômicos alemães, coisa que ocorre também em larga escala nos outros países da Zona do Euro e da União Européia, dos historicamente capitalistas ou dos neo-, advindos da antiga órbita soviética.

O principal vetor executivo desta hegemonia se encontra nas universidades, nas escolas de economia e administração, onde seu peso é descrito como autoritário, hierático, e excludente, não perdoando heresias, segundo testemunhos na própria mídia alemã. (Li, há tempos, um excelente artigo a este respeito no jornal Berliner Zeitung. Infelizmente, perdi o exemplar).

Esta face teórica, formadora de um meio ambiente, mais oculta, mas nem por isso menos importante, remete a outro componente da hegemonia liberal na visão econômica predominante na U. E. Se é verdade que a cabeça – ou pelo menos a boca – principal desta hidra se manifesta a partir de Berlim, não é menos verdade que o monstro mito-lógico ou mito-histórico está espraiado por toda a Europa.

A esquerda se debate com suas fragmentações partidárias e nacionais, cada corrente prisioneira da miragem de que é a única portadora do facho da liberdade. Por aí é fácil facho virar fascio. A direita orgânica (ao contrário da extrema-), deglutindo seu nacionalismo passado, tem uma vocação internacional.

São duas as manifestações mais óbvias daquele espraiamento. 

Primeiro, há o fato de que, depois das desilusões do eleitorado de vários países com os governos social-democratas ou socialistas, que aplicaram sem dó nem piedade o receituário hegemônico, as eleições que ocorreram consagraram coalizões ou partidos de direita, como na Grécia, em Portugal e na Espanha. Segundo, há o fato subseqüente de que, no caso de uma reversão desta tendência, como ocorreu recentemente na França (com a eleição de François Hollande) e na Itália (com a vitória do PD e subseqüente formação de um governo liderado por Enrico Letta, embora secundado por Silvo Berlusconi e Mario Draghi), são evidentes as dificuldades de implantação de uma política alternativa.

Estas dificuldades são tanto práticas (devido aos “rombos” deixados pelas políticas anteriores) quanto teóricas, pois os partidos descritos no espectro europeu como de “centro-esquerda” foram coniventes com, senão co-formuladores das políticas neo-liberais. E os mais à esquerda ficam envoltos numa narcísica disputa de beleza – tanto teórica quanto por representatividade, digladiando-se entre si pelos despojos dos desiludidos com a social-democracia.

Neste vácuo crescem as propostas de protesto despolitizado, como a do Movimento 5 Estrelas, de Beppe Grillo, na Itália.

O caldo de cultura política que borbulha dentro deste panelão ou moldura, tem aberto espaço para uma emergência (em todos os sentidos da palavra) de grupos, partidos, propostas ou até políticas de extrema-direita: esta é a principal tempestade com que a hegemonia ortodoxa está brincando na Europa, através daquela que está desencadeando faz tempo, a do desmonte do estado de bem estar social que abriu caminho, no passado, para a formação da União Européia, no continente líder dos conflitos de escala mundial desde o fim da Idade Média.

Tal desmonte, jogando direitos, multidões e sonhos na rua da amargura, está potenciando onde já havia (como na Holanda, na Áustria, na Suíça, na França), ou ajudando a formar e potenciar movimentos e propostas de extrema direita que vão ganhando cada vez mais alento, espaço (Grécia é o caso extremo) – e corações e mentes.

Junto com a emergência da direita vem medrando também a queda de confiança na União Européia, manifesta em diferentes pesquisas e eleições.

A extrema direita francesa é claramente anti- U. E.; Sílvio Berlusconi, que renasceu das cinzas na Itália, se apresenta hoje como um euro-cético, para dizer o mínimo, tanto em relação ao continente quanto à moeda. Tradicionalmente a extrema-direita já jogava com o sentimento anti-imigrantes em vários países, usando como argumento uma diluição da percepção – já ela mesma conservadora – do “confronto de civilizações”, de Samuel Huntington.

Nos últimos tempos este jogo vem sendo potenciado como no primeiro de maio grego, em que membros do partido “Aurora Dourada”, de extrema-direita, distribuíam “cestas básicas” apenas para… gregos; ou no alemão, onde os neonazis também reivindicam a data, e faziam a defesa da criação de empregos apenas para… os trabalhadores alemães.

O pior é que tais melodias encantam por vezes as serpentes interiores da gente mais pobre, que também as têm. Crescem também organizações de direita “bem pensante” ou “moderada”, como o novo partido Alternativa para a Alemanha (anti-euro) ou o UKIP, apontado como o verdadeiro vencedor das eleições municipais no Reino Unido (que pede o endurecimento em relação à imigração).

Outro monstro que mostra a cabeça nesta sopa envenenada é a velha xenofobia inter-pares que construiu – “normalmente” através de destruições que fazem as vulcânicas parecer uma brincadeira de criança – a história multissecular do continente. A manifestação mais conspícua – e hedionda – desta xenofobia é a fermentação do miasma do desprezo dos povos do “norte”, cuja face se desenha como “laboriosa”, “contida”, “sóbria”, etc., contra os povos do “sul”, cujo perfil é apresentado como “dissipador”, “perdulário”, “dissoluto”, quando não diretamente como “afeito à cultura da corrupção”.

Ou no preconceito das nações do antigo Ocidente da Europa em relação às do antigo Leste, ou seus párias, como os Roma e Sintis (ciganos, mas eles não gostam desta palavra).

Ela aparece também no ódio fomentado – atividade que muitas vezes se apresenta como se esquerda – nos povos deste “sul” contra os daquele “norte”, sobretudo, é claro, o da Alemanha. Este fomento surdo aumentou depois que dois clubes alemães se qualificaram para a final da Liga dos Campeões, massacrando os respectivos adversários espanhóis. Ele emergiu tanto do lado dos vencedores (analistas esportivos alardeavam que a Alemanha agora “manda” tanto na economia como no futebol do continente…) quanto dos vencidos, que tinham mais um motivo para odiar o lado vitorioso.

Tudo pode parecer assim ser culpa – mais uma vez – da Alemanha de cultura prepotente, agressiva e arrogante desde sempre, embora tal prepotência se projete sobretudo apenas a partir de 1871, quando a Alemanha passa a existir, tanto de facto quanto de direito. Mas parece que esta Alemanha – autoritária, feroz e imperial – já se gestava dentro da “outra”, a dividida, envolta em guerras intestinas, anterior à guerra franco-prussiana. Onde o monstro se tecia? Ora, no seu pensamento, na sua música, nos seus filósofos, etc.

A associação do momento atual com o nazismo é um pequeno passo – tão fácil quanto enganoso, e muita gente de esquerda envereda por ele. Apontam-se Fichte, Wagner, Nietszche et alii como precursores do vezo autoritário alemão, de que o nazismo seria apenas a gema: eles seriam a clara que lhe deu proteína.

Muitos correligionários do nosso lado das esquerdas se divertem ou até exultam cada vez que vêm a efígie da chanceler alemã aparecer nas manifestações da Grécia, de Portugal, Espanha, e outros países, decorada com o bigodinho que era uma das marcas registradas de Adolf Hitler.

Eu, confesso, tremo nas bases.

Por duas razões. A primeira é a de que isto apenas alimenta as xenofobias de todos os lados, e tradicionalmente na Europa este alimentar do monstro é o primeiro passo para a catástrofe que, inclusive por não ser percebida, acaba se tornando inevitável. A segunda é a de que a hegemonia que hoje se pretende manter na Europa e que encontra expressão e liderança na Alemanha, mas não é só dela, tem pouco a ver com Hitler, ou os racismos que medraram na Alemanha (e em outros países) anteriormente.

Tem muito mais a ver com outras gentes que, graças a esta fantasmagoria que muitas vezes algumas esquerdas ajudam a fomentar, permanecem na sombra.

Num reconhecimento que não deixa de ser incômodo, as políticas que se querem hegemônicas hoje na Europa têm pouco a ver com o ideário de Hjalmar Schacht, o economista e banqueiro que teve sucesso em conter a inflação alemã em meados da década de 20 e depois foi o presidente do Reichsbank sob Hitler, ajudando este último a combater o desemprego, que ia pelos 6 milhões de trabalhadores.

Em ambos os casos ele o fez através de um manejo criativo do déficit público. Aquelas políticas têm muito mais a ver com Heinrich Brünning e Franz von Papen, os chanceleres alemães que, a partir da crise de 1929, aplicaram o receituário “austero” que ora se implementa, cortando orçamentos e políticas sociais, ajudando a criar aquele exército de desempregados que foi, sem dúvida, um dos pilares da ascensão e consagração de Adolf Hitler, do seu Partido Nacional-Socialista, de sua ideologia e suas realizações hediondas na história da humanidade.

As buscadas hegemonias de hoje têm menos a ver com Fichte, Wagner ou Nietszche e mais com Huntington, Fukuyama – e Reinhart e Rogoff.

A hegemonia européia de hoje têm mais a ver, portanto, com von Hayek, a Escola Austríaca, Friedman, e outros críticos liberais tanto do nazismo (ou do comunismo) quanto da socialdemocracia e de Keynes. Tem mais a ver com Margareth Thatcher, Ronald Reagan e João Paulo II do que com Hitler, Mussolini, Franco ou mesmo Salazar.

Decididamente, a hegemonia de direita hoje na Europa está semeando tempestades.

Se as esquerdas se deixarem levar pela mesma semeadura, se fazendo lenientes com a xenofobia, ao invés de trabalhar pela difícil mas indipensável solidariedade internacional entre trabalhadores, povos, culturas, estarão se preparando para colher apenas vento, isto é, nada.

“Não achavam algemas para meus pulsos de recém-nascido”


Denúncias
Paulo Filho: “Não achavam algemas para meus pulsos de recém-nascido”

publicado em 7 de maio de 2013 às 10:38

por Conceição Lemes

De ontem até sexta-feira, 6 a 10 de maio, a Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva” realizará, na Assembleia Legislativa de São Paulo, o seminário Verdade e infância roubada.

Nesses dias, ela coletará cerca de 50 depoimentos de filhos de ex-presos políticos, mortos, desaparecidos e sobreviventes da ditadura militar (1964-1985).

Sequestrados e escondidos nos centros clandestinos de repressão, eles sofreram tortura física e psicológica, foram enquadrados como “subversivos” pela repressão e obrigados a viver com parentes distantes, com nomes e sobrenomes falsos.

Levados aos cárceres da ditadura, foram confrontados com seus pais, nus, machucados, recém-saídos do pau-de-arara ou da cadeira do dragão. Foram encapuzados, intimidados, torturados.

Alguns nasceram em prisões e cativeiros, como Paulo Fonteles Filho, que deu seu depoimento nessa segunda-feira à Comissão da Verdade. Ele é filho do advogado Paulo Fonteles, preso e torturado em Brasília em 1972 junto com sua esposa, Helcídia Fonteles, na época grávida. Paulo Filho nasceu na cadeia.

“Devido à sua luta junto aos camponeses do Araguaia, seu pai foi assassinado pela UDR [União Democrática Ruralista] durante os trabalhos da Constituinte, em 1987 ”, afirma Marcelo Zelic, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP. “Há vários anos Paulo Filho participa do Grupo de Trabalho Araguaia e busca, além dos corpos dos guerrilheiros desaparecidos, a verdade sofrida pelas pessoas que viviam e vivem na região.”

Nesta terça-feira à 20h, o Grupo Tortura Nunca Mais-SP lança o documentário Araguaia: campo sagrado, de Paulo Filho e direção de Evandro Medeiros. Traz depoimentos contundentes de camponeses, ex-mateiros e ex-soldados que viveram a guerra realizada no Araguaia nos anos 70.

O Grupo convida quem está em São Paulo para assistir ao documentário na sua sede, à rua Frei Caneca, 986. Após a exibição, haverá debate com o autor.

A convite do Grupo Tortura Nunca Mais-SP e do Comitê Paraense pela Verdade, Memória e Justiça, o Viomundo lança simultaneamente, aqui no site, a íntegra do documentário.

Paulo Fonteles Filho: "Os agentes da repressão atrasaram minha entrega para a família, por horas, porque simplesmente não haviam encontrado algemas que dessem em meus pulsos de recém-nascido"

Segue o depoimento de Paulo Fonteles Filho à Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva”:

Senhor Presidente, Deputado Adriano Diogo,

Senhoras e Senhores,

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a oportunidade, histórica, de participar deste importante evento da Comissão da Verdade “Rubens Paiva” de São Paulo que lança luz sobre as brutalidades e violências perpetradas pelos lobos febrentos que assaltaram o poder em 1964 e que, seguramente, também elegeram a infância como inimiga da segurança nacional e dos generais facínoras, responsáveis pela tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados.

Em segundo lugar, registro um abraço afetuoso, aos que, como eu, conheceram todo o barbarismo dos verdugos e aqui rendo minhas homenagens à memória de meu pai, Paulo Fonteles, advogado de posseiros no Sul do Pará, assassinado pelo latifúndio em 1987 e a minha mãe, Hecilda Veiga, a pessoa mais íntegra que conheço nesta vida e que, com o destemor de ter me feito nascer, em meio ao Pelotão de Investigações Criminais, em fevereiro de 1972, revelou inexorável bravura ao ponto de um agente da repressão política, dentro da Polícia Federal, cunhar a frase: “Filho dessa raça não deve nascer”,

Em Segunda Anunciação, poema escrito anos depois dos cárceres, meu pai denunciava o discurso e a prática do tirano:

“Teu filho
teu filho
teu filho
não nascerá.
Teu filho
filho dessa raça
filho dessa raça
não deve nascer.
Não deve nascer
não deve nascer.
Filho dessa raça
não deve nascer.
Teu filho
filho dessa raça
filho dessa raça
não deve nascer
não deve nascer”.

Aqui, antes de mais nada, devo por convicção e altiva consciência, denunciar locais e os verdugos que atuaram severamente para por fim em nossas vidas, seja no Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército, e no DOI-CODI instalado dentro do próprio Ministério do Exército, em Brasília, seja no Rio de Janeiro, no Centro Científico de Torturas, na terrível Barão de Mesquita, também da Polícia do Exército. Meus pais também ficaram presos em Belém, na Gaspar Viana, onde meu irmão Ronaldo foi gerado, e no antigo Presídio São José. Nesta fase eu já havia nascido, portanto, estava em segurança familiar.

Mas vamos aos torturadores, e como ensina Wadih Damous, Presidente da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, recém-instalada, em discurso na Assembleia Legislativa do Estado do Pará quando da devolução simbólica dos mandatos em março deste ano de 2013, dentre eles do ex-governador Aurélio do Carmo, único vivo entre os governadores cassados em 1964 que, “os torturadores têm medo da luz do sol”.

Aqui haveremos de colocar holofotes sobre as bestas-feras!

Segundo denúncia de meus pais, publicada no Jornal Resistência, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, no final da década de 1970, fomos seviciados e torturados pelo general Antônio Bandeira, coronel Azambuja, major Paulo Horta, major Andrade Neto, major Othon Rego Monteiro, capitão Magalhães, capitão Menezes, “doutor” Cláudio, o delegado da Polícia Federal Deusdeth, tenente Burger, o sargento Vasconcelos, o sargento Arthur, o sargento Ribeiro, o cabo Edson Torrezan, o cabo Jamiro ou Jamito, o cabo Nazareno, o cabo Martins, o cabo Calegari, e os soldados Ismael, Almir, Osmael e Admir.

Estes famigerados, especialistas na Santa Inquisição e que diziam que os métodos da Gestapo estavam ultrapassados, atuaram para liquidar-nos, tanto em Brasília como no Rio de Janeiro. Numa das passagens do depoimento ao Resistência, meu pai denunciava que, “através de um vidro, mostravam-me a Hecilda, apanhando no rosto e nas pernas, grávida de cinco meses”.

No dia de meu nascimento, em 20 de fevereiro de 1972, minha mãe asseverou ao insurgente jornal dos paraenses que:

“(…) levaram-me ao Hospital da Guarnição em Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo. Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Foi uma experiência muito difícil, mas fiquei firme e não chorei (…)”.

Minha mãe, Hecilda, afirma ainda que o tal médico disse-lhe que ela não gostava do filho, simplesmente porque não sofria. Minha mãe, que peitou o general Bandeira, ia dar o braço a torcer? Nunca, jamais.

Uma das lembranças mais antigas que tenho sobre mim mesmo está no fato de ter nascido na prisão e de ser filho de comunistas. Minha avó, Cordolina Fonteles de Lima, contava que os agentes da repressão atrasaram minha entrega para a família, por horas, porque simplesmente não haviam encontrado algemas que dessem em meus pulsos de recém-nascido, eles deviam me achar bastante perigoso!

No curso dos anos tenho refletido sobre tais atos de “terrorismo”, numa pérfida lei de um dos ideólogos mais importantes daqueles tempos sinistros, o coronel Jarbas Gonçalves Passarinho, que definha como o pústula que é e parece estar bem próximo do Satanás.

Não tenho dúvidas que herdamos de nossos pais, seus destemores e convicções. A canção de Belchior, cantada pela mais bela voz feminina em todos os tempos de civilização brasileira, a de Elis Regina, está prenhe de verdade quando afirma que “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Neste caso, Paulo e Hecilda, por seus valores fraternais devem sempre ser seguidos pelos filhos, o que nos dá a régua e o compasso.

Se este é meu depoimento, vou falar de um tempo em que, menino, testemunhei a retomada de meus pais na luta do povo, meu pai no campo e minha mãe na cidade. Poderiam ter se acomodado, poderiam ter cuidado de suas próprias vidas, o que seria justo diante das memórias do cárcere. Mas não, retomaram às posições de combate!

E ali estávamos nós, crescendo como crescem as árvores. As histórias da carochinha contadas eram sempre de guerrilheiras tartaruguinhas contra um jacaré de fardas que viviam no Araguaia.

Foi por aqueles tempos em que meu pai, formado em direito, resolveu advogar para a Comissão Pastoral da Terra (CPT) na região do Araguaia. Muito de sua decisão têm as digitais na luta guerrilheira do Araguaia e o fato de ter travado conhecimento com os primeiros presos da insurgência nas matas paraenses, dentre eles estava José Genoíno Neto. Outro fator importante para se destinar à defesa dos posseiros foi o incentivo que teve do poeta e intelectual Ruy Paranatinga Barata no conflito da Fazenda Capaz, em 1977, de propriedade do coronel estadunidense John Davis.

Debruçado na defesa dos camponeses pobres e procurando reunir informações sobre a heroica luta rebelde araguaiana, meu pai, Paulo Fonteles, mais uma vez passou a sofrer a carga da reação, de famigerados como o Major Curió, do Centro de Inteligência do Exército (CIE) e do grande latifúndio, aliados incontestes na espoliação da Amazônia, sempre em benefício dos poderosos, sejam eles nacionais ou estrangeiros.

Moramos em Conceição do Araguaia e tínhamos o imenso rio dos karajá em nosso quintal. Por aqueles dias já convivíamos com os lavradores e os filhos destes, como é o caso dos filhos de Amaro Lins e de Neuza, Vladimir, Carlos e Mauricio, além de Helenira, amigos para todo o sempre.

Por conta de uma atuação radicalmente vinculada à luta dos lavradores conheceu, mais uma vez, as ameaças contra sua própria vida e a vileza dos donos do poder de então. Foi eleito deputado estadual em 1982 sob a consigna de “Terra, Trabalho, Liberdade e Independência Nacional”.

Derrotado nas urnas em 1986, não conseguiu êxito na campanha para a Assembleia Nacional Constituinte e, menos de um ano depois, foi assassinado à mando da União Democrática Ruralista (UDR), quando se votava o Capítulo da Terra. O intermediário de tamanha covardia foi James Sylvio de Vita Lopes, da OBAN e do SNI, que, nos auspícios do regime moribundo, foi organizar milícias da grande propriedade rural na Amazônia.

Naqueles dias eu tinha 15 anos e para não enlouquecer decidi ingressar nas fileiras do Partido Comunista do Brasil. Era minha saída e a forma de me organizar para enfrentar o futuro.

Quando, enfim, tivemos a notícia do falecimento de Carlos Alexandre Azevedo é que muita coisa veio à tona e meus sentimentos se voltaram para minha própria história. Em artigo escrito numa longa e dura madrugada asseverei: “Mas o que fazer diante destes testemunhos, de tua segunda morte?

Sinto amigo, que em tempos de Comissão Nacional da Verdade (CNV) devemos cobrar que estejam embutidos, no relatório que será apresentado aos brasileiros em maio de 2014, os acontecimentos criminosos que foram perpetrados, por questões políticas, contra a infância deste imenso país dos trópicos.

Tua segunda morte carrega o legado de que, mais do que nunca, devemos cuidar da tenra idade contra os infanticidas, dos de ontem como, também, na atualidade.

Com ousadia, sem procuração alguma, a não ser pela memória da carne violada, tomamos para nós, por tais testemunhos, a exigência de que quem nos torturou, no ventre ou fora dele, responda pelos crimes de inexorável covardia, contra aqueles que devem ser protegidos desde a fecundação.

Assim cumprimos com a civilizatória missão de proteger os filhos do povo brasileiro”.

Neste sentido é preciso que as Comissões de Verdade façam as ligações na perspectiva de traçar um paralelo comum entre essas vivências de filhos de presos políticos e dos inúmeros centros de detenção de menores, criados durante a ditadura como a FEBEM e que na vida democrática não mudou seus métodos e, como é o caso de São Paulo, onde a tortura se esconde travestida pelo pomposo nome de “Fundação Casa”.

Apenas agora nos debruçamos sobre a infância na ditadura militar e há um caminho extenso a percorrer. Tal caminho seguramente irá nos levar aos filhos de camponeses e crianças indígenas, além dos casos de filhos de militantes políticos, já bastante relatados.

Há dois anos conheci o Sebastião, ex-motorista do Incra durante a Guerrilha do Araguaia, na cidade de Marabá. Tal pessoa relatou-me sua revolta em lembrar, de que na Base da Bacaba, que havia uma ala de tortura apenas para crianças e jovens, filhos dos sertões naquele país profundo e desigual. Naquelas condições é que as filhas de Adalgisa e Alfredo, amigos dos combatentes, de São Domingos do Araguaia, foram seguidamente estupradas quando trabalhavam em regime de escravidão naquela terrível base militar. Isso sem falar na mocidade indígena, aikewara, que apenas agora começa a relatar as barbaridades sofridas. Todos eles têm direito a reparações.

Aqui termino com o registro poético de meu pai que assim relatou meu nascimento em Força e Arte:

“A criança nasceu.
A mãe passa bem.
Apesar de todas as proibições
bebamos vinhos até a embriaguês!
Quem é que pode com povo?”

Paulo Fonteles Filho

Depoimento de Helcídia Fonteles, mãe de Paulo Filho:

http://youtu.be/6JRcmTpMyPA

O Mundo Assombrado pelos Demônios



May
7
Nunca é demais repetir
Em seu livro O Mundo Assombrado pelos Demônios, o cientista e astrônomo Carl Sagan relata o seguinte:

1- Uma em cada quatro mulheres USAamericanas sofreu abuso sexual na infância;

2- Um em cada seis homens USAamericanos sofreu abuso sexual na infância;

3- Uma em 10 mulheres foi estuprada.

4- Dois terços delas antes de completar 18 anos;

5- E uma quinta parte delas foi estuprada pelos pais;

Esses números já são defasados já que o livro é de 1997. Mas ele serve para dar uma idéia da condição humana, principalmente da moralista sociedade dos Estados Unidos.