Os motivos abaixo forneceram argumento para milhares de romances e peças, lembra Balzac. Como discordar?
Por Ambição, é caso bem conhecido;
Por Bondade, para arrancar uma filha da tirania de sua mãe;
Por Cólera, para deserdar alguns parentes;
Por Desdém de uma amante infiel;
Por Enfado da deliciosa vida de solteiro;
Por Fealdade, receando que um dia lhe falte mulher;
Por Ganância para ganhar uma aposta, é o caso de Lord Byron;
Por Honra, como George Dandin (personagem de Molière);
Por Interesse, mas é quase sempre assim;
Por Juventude, ao sair do colégio atordoado;
Por Loucura, sempre o é;
Por Maquiavelismo, para em breve ser o herdeiro de uma velha;
Por Necessidade, para legitimar um filho;
Por Obrigação, porque a jovem foi fraca;
Por Paixão, para curar-se mais seguramente;
Por Querela, para acabar um processo;
Por Reconhecimento, é dar mais do que se recebeu;
Por Sabedoria, isso ainda acontece aos doutrinários;
Por Testamento, quando morre um tio e sobrecarrega a sua herança com uma filha para desposar;
Por Uso, para imitar os antepassados;
Por Velhice, para arranjar um fim;
Por Xavasca, um motivo sempre justo.
Por Yatidi, que é a hora de se deitar e significa todas as necessidades dessa hora entre os turcos;
Por Zelo, como Duque de Saint-Aignan, que não queria cometer pecados.
Por amor, caso raro mas sempre com boa audiência
Por beleza, ainda que haja o risco do cara ser gay
Por coragem, nos casos em que o cara é músico
Por dinheiro, sempre entre os motivos classificados
Por emprego, em relações patrão/empregada
Por fanatismo, entre pares do mesmo time
Por ganância, nos casos de poligamia
Por herança, pensando no futuro
Por idiotice, no caso das milionárias idosas
Por justaposição, nos casos homossexuais
Por karma, nos casamentos desmoronados
Por latrocínio, quando diminui a pena
Por mulher, no caso de Daniela Mercury
Por nepotismo, no caso do Gurgel
Por obesidade, nas falhas de cirurgia bariátrica
Por putaria, para as que estão se aposentando
Por quilo, para as que apreciam italianos velhos
Por re-engenharia, para uniões estáveis
Por sensatez, no caso de milionários terminais
Por tesão, caso clássico mas passageiro
Por usura, em egressas do cheque especial
Por valores, exceto os imateriais
Por walkover, nos caso de rivais
Por x, em casos de múltipla escolha
Por yesterday, na falta de pílula do dia seguinte
Por zoneamento, na faixa de Gaza
Este blog é pessoal "chupado"de outros. Os créditos podem ser "esquecidos". “O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar ao paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno." Antonio Cândido "Carpe diem quam minimum credula postero"
quinta-feira, 13 de junho de 2013
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Mineração, pobreza e repressão - opera mundi
09/06/2013 - 08h41 | Luis A. Gómez | Calcutá
Mineração, pobreza e repressão à guerrilha maoísta afligem indígenas na Índia
Povos originários do Estado no norte do país são alvo de perseguição policial; mais de 6 mil estão presos sem provas
Em março, Jiten Marandi foi libertado por uma resolução da Suprema Corte na Índia. Passou quase cinco anos na prisão, condenado à morte por um assassinato que não cometeu. Como Marandi, há milhares de indígenas na cadeia, quase todos sem receber assistência legal pública ou sem ver seu processo iniciado. A acusação é sempre a mesma: a de pertencer à guerrilha maoísta.
Alguns desses presos acumulam anos de prisão. O fato de a maioria ser extremamente pobre impede a contratação de um advogado privado e a falta de tradução dos documentos para as línguas nativas dificulta o acesso.
Grande parte dos acusados vive em Estados onde a população indígena é numerosa, como Chhattisgarh, Orissa e Jharkhand, vastas regiões ricas em minerais e bosques onde, ao mesmo tempo, operam a guerrilha e as forças do Estado. Outro ingrediente de tensão é o interesse de companhias de mineração de extrair imensas quantidades de ferro, carbono e bauxita nessas localidades.
Na Índia, 461 grupos étnicos são reconhecidos como indígenas, ou povos originários. Mais de 80 milhões, eles formam cerca de 8% da população, apesar de existirem diversos outros grupos que não são oficialmente reconhecidos pelo Estado indiano.
Alarmados diante desse quadro, artistas e intelectuais da Índia publicaram uma carta aberta em 6 de maio para pedir ao governo para que providencie “justiça imediata a imparcial” para os indígenas, ou adivasis (habitantes originários), na autoproclamada maior democracia do mundo. Os participantes pedem à Suprema Corte, ao governo nacional e aos governos estaduais a criação de uma comissão de juristas que julgue os casos e os solucione o mais breve possível.
Vítimas ou acusados?
De acordo com Gladson Dungdung, defensor de direitos humanos e escritor indígena, apenas em Jharkhand, presos como Marandi são por volta de seis mil. No Estado, famoso pela diversidade indígena, bem como por suas imensas reservas de carbono e de ferro, aconteceram algumas das operações contrainsurgentes mais famosas dos últimos anos.
Dungdung, que assina a carta, dá como exemplo a Operação Anaconda, realizada em agosto de 2011. À época, a polícia informou em comunicado oficial a captura de até 33 guerrilheiros no bosque de Saranda, no sul do Estado. “É interessante notar que 29 deles tinham menos de 35 anos”, explica. “A polícia não apresentou provas contra nenhum, bastou acusá-los de serem membros do Partido Comunista da Índia-Maoísta [a guerrilha]”. Somente com a afirmação policial, os prisioneiros foram acusados formalmente de violar a Lei de Prevenção de Atividades Ilegais, a Lei de Armas e a de Atividades Criminosas. Nenhum foi liberado.
Outro caso emblemático é o das estudantes Jasmani Soy, Magdali Mundu e Juliyani Purty. As três foram presas em 30 de outubro de 2010 depois de um enfrentamento entre a guerrilha e a polícia. Foram acusadas e posteriormente presas por seis meses, sem qualquer comprovação dos fatos, nem de suas idades – as três eram menores de idade e passaram semanas na prisão Khunti. A intervenção de suas escolas, professores e pais deteve a máquina oficial e elas puderam sair da prisão, demonstrando sua inocência.
Arquivo pessoal
Jiten Marandi ), artista popular e reconhecido ativista contra a desapropriação territorial, teve a sorte de contar também com apoio. Personalidades locais como Arundhati Roy – escritora, novelista e ativista anti-globalização – levantaram a voz para ajudá-lo.
Mas os demais continuam presos, e não serão libertados prontamente porque, segundo explica Dungdung, “se dos milhares de presos [quase todos inocentes] libertam uns cinco mil, seria um duro golpe para o Estado. Por isso a polícia trata de se proteger” e sustenta suas acusações contra toda prova.
Terra ou liberdade?
Em Jahrkhand, com um território um pouco maior que o do Panamá, se produz atualmente um terço do carbono consumido na Índia (principal combustível para a geração de energia elétrica). Suas reservas de ferro e outros minerais preciosos levaram o governo estadual a assinar mais de 102 memorandos de entendimento com companhias de mineração nacionais e multinacionais. Esta abertura desatou expropriações violentas de grandes extensões de bosques e vales em territórios indígenas para fazer minas, fábricas de aço e geradoras de eletricidade.
Arundhati Roy debate questão indígena em programa de televisão:
Muitos ativistas que se opõem aos projetos foram acusados de naxalitas, como são conhecidos os insurgentes, e há processos pendentes. Além do caso Marandi, tem repercutido nos últimos meses a resistência em Nagri, uma pequena população de Jharkhand onde o governo “cedeu gratuitamente” as terras cultiváveis a instituições privadas de educação superior. Tudo sem o consentimento da população.
Em outubro do ano passado, Dayamani Barla, ativista e comunicadora indígena, ficou na prisão por dois meses. Famosa por sua oposição a uma fábrica de aço da ArcelorMittal, Barla foi acusada de participar de uma manifestação em Nagri. Contra ela, a polícia levantou uma dezena de acusações, como insubordinação e difamação, além de ser membro de um grupo insurgente que queimou uma estátua na frente da corte em Ranchi, a capital do Estado.
Na mesma manifestação, Dungdung foi agredido. Ele diz que nessa situação há pelo menos outros cinco mil indígenas, com acusações inventadas – sobretudo a de serem guerrilheiros – por se oporem às expropriações e aos projetos industriais em Jharkhand. Um deles é Kumar Chandra Mardi, líder dos despejados pela Bhushan Steel & Power Ltd, presos por dois meses; a polícia o acusa de atacar o gerente geral da empresa.
“O que vamos fazer?”, explicou Barla em uma conversa. “É nossa terra”. Seu caso, certamente, é peculiar: sua luta de resistência indígena é desvinculada de partidos e outras organizações. Ela já enfrentou mais de uma vez os grupos maoístas ao qual o governo a acusa de pertencer.
Entretanto, a carta aberta não recebeu resposta de nenhum escritório oficial. Jiten Marandi foi liberado das acusações, mas a polícia teria que decadastrar os cinco oficiais que o acusaram falsamente e fabricaram testemunhas, de forma que preferem apelar diante da Corte Suprema e inventar novos processos – já são três. Enquanto isso, a superlotação e a fome nas cadeias de Jharkhand crescem a cada semana, segundo avaliação de Dungung. E quando pergunto pelas execuções extrajudiciais, o defensor dos direitos humanos sorri tristemente. “Isto é ainda pior, senhor jornalista”.
domingo, 9 de junho de 2013
democracia para o povo
A "democracia para o povo dos senhores", no passado e no presente
– Mas esta pode facilmente transformar-se numa ditadura para os deste povo
por Domenico Losurdo [*]
Andrew Jackson era o presidente do Estados Unidos no momento em que Tocqueville fez a viagem que levou à publicação da "Democracia na América". É verdade que este presidente liquida em grande parte a discriminação censitária [1] dos direitos políticos. Mas, paralelamente, encontramo-nos com um proprietário de escravos que, igualmente, ordena a deportação dos Peles Vermelhas (os cherokees). Foram homens, mulheres, velhos, crianças: um quarto morreu durante a viagem. Deveríamos considerar que Jackson é um democrata? Os autores da Declaração da Independência e da Constituição de 1787 são igualmente proprietários de escravos, logo, durante trinta e dois dos primeiros trinta e seis anos de existência dos Estados Unidos, a função de presidente é ocupada por proprietários de escravos, muitas vezes implicados na expropriação e deportação dos Peles Vermelhas.
Os Estados Unidos daquela época eram uma democracia?
Em geral, afastam-se estas questões através do recurso a um historicismo vulgar: as sociedades liberais teriam herdado práticas e relações sociais universalmente difundidas. Mas os factos são inteiramente diferentes. Tocqueville publica o primeiro livro da "Democracia na América" em 1835. Nesta data, a escravidão havia desaparecido em grande parte do continente. Na esteira da Revolução Francesa, a revolução dos escravos negros em São Domingos dá o impulso do processo de emancipação. Depois a revolução da América Latina explode a dominação espanhola: ela também se conclui com a abolição da escravatura. A revolução dos colonos ingleses que conduziu à fundação dos Estados Unidos é a única do continente americano a manter e mesmo reforçar e estender a instituição da escravatura: depois de ter arrancado o Texas ao México, a república norte-americana ali reintroduz a escravatura anteriormente abolida. Mais uma vez coloca-se a questão: os Estados Unidos daquela época eram uma democracia?
Linchamento em 1919 nos EUA. É mais adequado falar de Herrenvolk democracy, ou seja, de democracia que vale somente para o "povo dos senhores". Quando este regime acabou nos Estados Unidos? Com o fim da Guerra de Secessão e a abolição da escravatura que se seguiu? Na realidade, um dos capítulos mais trágicos da história dos afro-americanos foi escrito entre o fim do século XIX e princípios do século XX. O linchamento era um horrível espetáculo de massa. Quero citar aqui um historiador americano:
"As notícias de linchamento eram publicadas nas folhas locais e vagões suplementares eram acrescentados aos comboios para [transportar] os espectadores, por vez milhares, vindos de localidades situadas a quilômetros de distância. Para assistir ao linchamento, as crianças das escolas podiam ter um dia de liberdade. O epectáculo podia incluir a castração, o esfolamento, a assadura, o enforcamento, os tiros. As recordações para os compradores podiam incluir os dedos das mãos e dos pés, os ossos e mesmo os órgãos genitais da vitimas, assim como cartões postais ilustrados do acontecimento".
Outro historiador americano (George M. Fredrickson) observa que "os esforços para manter a "pureza da raça" no Sul dos Estados Unidos antecipam certos aspectos da perseguição lançada pelo regime nazi contra os judeus nos anos 1930". Nos Estados Unidos, o Estado racial sobreviverá algum tempo após o afundamento do Terceiro Reich: em 1952, uma trintena de estados da União ainda proibiam o casamento e as relações sexuais interraciais, por vezes consideradas como delitos graves.
A "democracia para o povo dos senhores" e a história do Ocidente
Contudo, seria errado concentrar a atenção exclusivamente nos Estados Unidos. A categoria Herrenvolk democracy também pode ser útil para explicar a história da Inglaterra que, imediatamente após a Gloriosa Revolução liberal de 1688-89, arrebata à Espanha o monopólio do tráfico dos escravos negros e reforça sua opressão sobre os irlandeses impondo-lhes uma condição comparável àquela dos Peles Vermelhas. Ou melhor, a categoria Herrenvolk democracy pode ser útil para explicar a história do Ocidente enquanto tal. Com efeito, entre o fim do século XIX e os princípios do XX, a extensão do sufrágio na Europa caminha a par com o processo de colonização e a imposição de condições de trabalho servis ou semisservis às populações submetidas: a rule of law, o governo da lei na metrópole capitalista entrelaça-se com o poder arbitrário e policial e mesmo com o terror imposto nas colônias. Se se examinar bem, é o mesmo fenômeno que caracteriza a história dos Estados Unidos com esta diferença: no caso da Europa as populações colonizadas ao invés de viverem na metrópole são dela separadas pelo oceano. De modo significativo, na segunda metade do século XIX, um liberal de esquerda como John Stuart Mill por um lado celebra a liberdade e justifica-a, por outro lado celebra o "despotismo" do Ocidente sobre as raças ainda "menores" destinadas a observar uma "obediência absoluta".
A "democracia para o povo dos senhores" tem vida dura!
Chegado a este ponto, sintetizando e atualizando os resultados do meu livro, Contre-histoire du libéralisme (La Découverte, 2013 na tradução francesa), coloco-me três perguntas: a ultrapassagem da "democracia para o povo dos senhores" resulta de uma evolução espontânea do liberalismo? A resposta deve ser um não categórico. Em Dezembro de 1952, o ministro americano da Justiça envia uma carta eloquente ao Tribunal Supremo que está em vias de discutir a questão da integração nas escolas públicas: "a discriminação racial leva água ao moinho da propaganda comunista" que se difunde entre os afro-americanos (assim como entre todos os povos submetido à dominação colonial e racista). No século XX, o movimento comunista foi o grande adversário do colonialismo, da "democracia para o povo dos senhores" e do Estado racial.
E agora a segunda pergunta: o Estado racial americano exerceu influência sobre a Europa? Em 1930, um ideólogo do nazismo de primeiro plano, como Alfred Rosenberg, exprime sua admiração pela América da white supremacy, este "esplêndido país do futuro" que teve o mérito de formular a feliz "nova ideia de um Estado racial", ideia que era pois questão de também por em prática "com a força da juventude" na Alemanha. Hitler também se reclama explicitamente do modelo americano: na Europa Oriental, os índios a submeter são os eslavos que é preciso dizimar a fim de permitir a germanização do território e aqueles que serão poupados serão destinados a trabalhar como os escravos negros ao serviço da raça dos senhores (os judeus, ao contrário, são assimilados aos bolcheviques, tanto uns como outros devendo ser eliminados enquanto ideólogos e instigadores da revolta das "raças inferiores"). Naturalmente, é preciso manter em mente a distinção entre democracia (ainda que limitada somente à raça dos senhores) e ditadura. E contudo... Retornemos aos Estados Unidos nos anos que antecedem a Guerra de Secessão. Tocqueville observa a dureza das penas infligidas àqueles que ensinavam os escravos a ler e escrever. Naturalmente, a proibição visava excluir a raça dos servos de toda forma de instrução. E em caso de violação desta regra, os proprietários brancos eram os primeiros a serem atingidos. Além disso, as regras proibiam a miscigenação, as relações sexuais e os casamentos interraciais. Ou, mais uma vez, visando tornar hereditária e invariável a condição dos escravos, estas regras acabavam por trazer um grave atentados à liberdade dos proprietários. Por outras palavras, o regime da "democracia para o povo dos senhores" limitava profundamente a liberdade dos proprietários de escravos, confirmando a grande fórmula de Marx e Engels segundo a qual um povo que oprime outro não poderia ser livre.
Pode-se pensar do que acontecia quando os escravos se rebelavam ou quando os proprietários temiam serem privados da sua "propriedade" de um modo ou de outro. As testemunhas da época relatam: "o serviço militar [das patrulhas brancas] é assegurado noite e dia, Richmond parece uma cidade sitiada [...] Os negros [...] não se arriscam a comunicarem entre si por medo de serem punidos". Os abolicionistas brancos também eram afetados porque eram considerados como traidores da raça branca e por isso eram assimilados aos negros. Vamos dar, mais uma vez, a palavra às testemunhas da época: aqueles que criticam a instituição da escravatura "não ousam sequer intercambiar opiniões com aqueles que pensam como eles por medo de serem traídos". Todos são constrangidos pelo terror a "não abrirem as bocas, a abafar suas próprias dúvidas e a enterrar suas próprias reticência". Como se vê, a dominação terrorista que os proprietários de escravos exerciam sobre os negros acabava por atingir duramente os membros e as frações da classe dominante. Em condições de crise aguda, a "democracia para o povo dos senhores" pode facilmente transformar-se numa ditadura para o povo dos senhores. Entre o Estado racial nos EUA e o Estado racial na Alemanha, há elementos de continuidade e de descontinuidade.
Finalmente, a última pergunta: a "democracia para o povo do senhores" desapareceu totalmente dos nossos dias? Inegavelmente, muitas coisas mudaram a gigantesca vaga de revoluções anticoloniais irrompendo no mundo a partir de Outubro de 1917 e, sobretudo, de Stalingrado. Contudo, a ideologia dominante celebra Israel como a única democracia autêntica do Médio Oriente. Salvo que a rule of law, o governo da lei para os cidadãos israelenses de pleno direito caminha a par com a expropriação, a deportação, a prisão arbitrária e mesmo a execução extra judicial perpetrados contra os palestinos: é a democracia para o povo dos senhores. E à escala internacional? Pisoteando de modo explícito o princípio da igualdade entre as nações, os Estados Unidos e o Ocidente continuam a arrogar-se o direito soberano de invadir, bombardear, submeter a embargo e à fome este o aquele país mesmo sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. Às proclamações vibrantes prestando homenagem à liberdade e à democracia corresponde a tentativa de exercer uma ditadura no plano internacional. Infelizmente, a "democracia para o povo dos senhores" tem a vida dura!
[1] Discriminação censitária: sufrágio que exclui categorias de eleitores com base em factores como riqueza, classe de tributação, classe social, religião, conhecimento, raça, idade, criminalidade, residência, nacionalidade, naturalização, função.
O original encontra-se em http://projet.pcf.fr/38614
– Mas esta pode facilmente transformar-se numa ditadura para os deste povo
por Domenico Losurdo [*]
Andrew Jackson era o presidente do Estados Unidos no momento em que Tocqueville fez a viagem que levou à publicação da "Democracia na América". É verdade que este presidente liquida em grande parte a discriminação censitária [1] dos direitos políticos. Mas, paralelamente, encontramo-nos com um proprietário de escravos que, igualmente, ordena a deportação dos Peles Vermelhas (os cherokees). Foram homens, mulheres, velhos, crianças: um quarto morreu durante a viagem. Deveríamos considerar que Jackson é um democrata? Os autores da Declaração da Independência e da Constituição de 1787 são igualmente proprietários de escravos, logo, durante trinta e dois dos primeiros trinta e seis anos de existência dos Estados Unidos, a função de presidente é ocupada por proprietários de escravos, muitas vezes implicados na expropriação e deportação dos Peles Vermelhas.
Os Estados Unidos daquela época eram uma democracia?
Em geral, afastam-se estas questões através do recurso a um historicismo vulgar: as sociedades liberais teriam herdado práticas e relações sociais universalmente difundidas. Mas os factos são inteiramente diferentes. Tocqueville publica o primeiro livro da "Democracia na América" em 1835. Nesta data, a escravidão havia desaparecido em grande parte do continente. Na esteira da Revolução Francesa, a revolução dos escravos negros em São Domingos dá o impulso do processo de emancipação. Depois a revolução da América Latina explode a dominação espanhola: ela também se conclui com a abolição da escravatura. A revolução dos colonos ingleses que conduziu à fundação dos Estados Unidos é a única do continente americano a manter e mesmo reforçar e estender a instituição da escravatura: depois de ter arrancado o Texas ao México, a república norte-americana ali reintroduz a escravatura anteriormente abolida. Mais uma vez coloca-se a questão: os Estados Unidos daquela época eram uma democracia?
Linchamento em 1919 nos EUA. É mais adequado falar de Herrenvolk democracy, ou seja, de democracia que vale somente para o "povo dos senhores". Quando este regime acabou nos Estados Unidos? Com o fim da Guerra de Secessão e a abolição da escravatura que se seguiu? Na realidade, um dos capítulos mais trágicos da história dos afro-americanos foi escrito entre o fim do século XIX e princípios do século XX. O linchamento era um horrível espetáculo de massa. Quero citar aqui um historiador americano:
"As notícias de linchamento eram publicadas nas folhas locais e vagões suplementares eram acrescentados aos comboios para [transportar] os espectadores, por vez milhares, vindos de localidades situadas a quilômetros de distância. Para assistir ao linchamento, as crianças das escolas podiam ter um dia de liberdade. O epectáculo podia incluir a castração, o esfolamento, a assadura, o enforcamento, os tiros. As recordações para os compradores podiam incluir os dedos das mãos e dos pés, os ossos e mesmo os órgãos genitais da vitimas, assim como cartões postais ilustrados do acontecimento".
Outro historiador americano (George M. Fredrickson) observa que "os esforços para manter a "pureza da raça" no Sul dos Estados Unidos antecipam certos aspectos da perseguição lançada pelo regime nazi contra os judeus nos anos 1930". Nos Estados Unidos, o Estado racial sobreviverá algum tempo após o afundamento do Terceiro Reich: em 1952, uma trintena de estados da União ainda proibiam o casamento e as relações sexuais interraciais, por vezes consideradas como delitos graves.
A "democracia para o povo dos senhores" e a história do Ocidente
Contudo, seria errado concentrar a atenção exclusivamente nos Estados Unidos. A categoria Herrenvolk democracy também pode ser útil para explicar a história da Inglaterra que, imediatamente após a Gloriosa Revolução liberal de 1688-89, arrebata à Espanha o monopólio do tráfico dos escravos negros e reforça sua opressão sobre os irlandeses impondo-lhes uma condição comparável àquela dos Peles Vermelhas. Ou melhor, a categoria Herrenvolk democracy pode ser útil para explicar a história do Ocidente enquanto tal. Com efeito, entre o fim do século XIX e os princípios do XX, a extensão do sufrágio na Europa caminha a par com o processo de colonização e a imposição de condições de trabalho servis ou semisservis às populações submetidas: a rule of law, o governo da lei na metrópole capitalista entrelaça-se com o poder arbitrário e policial e mesmo com o terror imposto nas colônias. Se se examinar bem, é o mesmo fenômeno que caracteriza a história dos Estados Unidos com esta diferença: no caso da Europa as populações colonizadas ao invés de viverem na metrópole são dela separadas pelo oceano. De modo significativo, na segunda metade do século XIX, um liberal de esquerda como John Stuart Mill por um lado celebra a liberdade e justifica-a, por outro lado celebra o "despotismo" do Ocidente sobre as raças ainda "menores" destinadas a observar uma "obediência absoluta".
A "democracia para o povo dos senhores" tem vida dura!
Chegado a este ponto, sintetizando e atualizando os resultados do meu livro, Contre-histoire du libéralisme (La Découverte, 2013 na tradução francesa), coloco-me três perguntas: a ultrapassagem da "democracia para o povo dos senhores" resulta de uma evolução espontânea do liberalismo? A resposta deve ser um não categórico. Em Dezembro de 1952, o ministro americano da Justiça envia uma carta eloquente ao Tribunal Supremo que está em vias de discutir a questão da integração nas escolas públicas: "a discriminação racial leva água ao moinho da propaganda comunista" que se difunde entre os afro-americanos (assim como entre todos os povos submetido à dominação colonial e racista). No século XX, o movimento comunista foi o grande adversário do colonialismo, da "democracia para o povo dos senhores" e do Estado racial.
E agora a segunda pergunta: o Estado racial americano exerceu influência sobre a Europa? Em 1930, um ideólogo do nazismo de primeiro plano, como Alfred Rosenberg, exprime sua admiração pela América da white supremacy, este "esplêndido país do futuro" que teve o mérito de formular a feliz "nova ideia de um Estado racial", ideia que era pois questão de também por em prática "com a força da juventude" na Alemanha. Hitler também se reclama explicitamente do modelo americano: na Europa Oriental, os índios a submeter são os eslavos que é preciso dizimar a fim de permitir a germanização do território e aqueles que serão poupados serão destinados a trabalhar como os escravos negros ao serviço da raça dos senhores (os judeus, ao contrário, são assimilados aos bolcheviques, tanto uns como outros devendo ser eliminados enquanto ideólogos e instigadores da revolta das "raças inferiores"). Naturalmente, é preciso manter em mente a distinção entre democracia (ainda que limitada somente à raça dos senhores) e ditadura. E contudo... Retornemos aos Estados Unidos nos anos que antecedem a Guerra de Secessão. Tocqueville observa a dureza das penas infligidas àqueles que ensinavam os escravos a ler e escrever. Naturalmente, a proibição visava excluir a raça dos servos de toda forma de instrução. E em caso de violação desta regra, os proprietários brancos eram os primeiros a serem atingidos. Além disso, as regras proibiam a miscigenação, as relações sexuais e os casamentos interraciais. Ou, mais uma vez, visando tornar hereditária e invariável a condição dos escravos, estas regras acabavam por trazer um grave atentados à liberdade dos proprietários. Por outras palavras, o regime da "democracia para o povo dos senhores" limitava profundamente a liberdade dos proprietários de escravos, confirmando a grande fórmula de Marx e Engels segundo a qual um povo que oprime outro não poderia ser livre.
Pode-se pensar do que acontecia quando os escravos se rebelavam ou quando os proprietários temiam serem privados da sua "propriedade" de um modo ou de outro. As testemunhas da época relatam: "o serviço militar [das patrulhas brancas] é assegurado noite e dia, Richmond parece uma cidade sitiada [...] Os negros [...] não se arriscam a comunicarem entre si por medo de serem punidos". Os abolicionistas brancos também eram afetados porque eram considerados como traidores da raça branca e por isso eram assimilados aos negros. Vamos dar, mais uma vez, a palavra às testemunhas da época: aqueles que criticam a instituição da escravatura "não ousam sequer intercambiar opiniões com aqueles que pensam como eles por medo de serem traídos". Todos são constrangidos pelo terror a "não abrirem as bocas, a abafar suas próprias dúvidas e a enterrar suas próprias reticência". Como se vê, a dominação terrorista que os proprietários de escravos exerciam sobre os negros acabava por atingir duramente os membros e as frações da classe dominante. Em condições de crise aguda, a "democracia para o povo dos senhores" pode facilmente transformar-se numa ditadura para o povo dos senhores. Entre o Estado racial nos EUA e o Estado racial na Alemanha, há elementos de continuidade e de descontinuidade.
Finalmente, a última pergunta: a "democracia para o povo do senhores" desapareceu totalmente dos nossos dias? Inegavelmente, muitas coisas mudaram a gigantesca vaga de revoluções anticoloniais irrompendo no mundo a partir de Outubro de 1917 e, sobretudo, de Stalingrado. Contudo, a ideologia dominante celebra Israel como a única democracia autêntica do Médio Oriente. Salvo que a rule of law, o governo da lei para os cidadãos israelenses de pleno direito caminha a par com a expropriação, a deportação, a prisão arbitrária e mesmo a execução extra judicial perpetrados contra os palestinos: é a democracia para o povo dos senhores. E à escala internacional? Pisoteando de modo explícito o princípio da igualdade entre as nações, os Estados Unidos e o Ocidente continuam a arrogar-se o direito soberano de invadir, bombardear, submeter a embargo e à fome este o aquele país mesmo sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. Às proclamações vibrantes prestando homenagem à liberdade e à democracia corresponde a tentativa de exercer uma ditadura no plano internacional. Infelizmente, a "democracia para o povo dos senhores" tem a vida dura!
[1] Discriminação censitária: sufrágio que exclui categorias de eleitores com base em factores como riqueza, classe de tributação, classe social, religião, conhecimento, raça, idade, criminalidade, residência, nacionalidade, naturalização, função.
O original encontra-se em http://projet.pcf.fr/38614
sexta-feira, 7 de junho de 2013
San Ernesto Guevara de La Higuera
Ele foi beatificado pelo povo sem a necessidade de trâmites legais.
Tem realizado milagres.
Capelas humildes construídas pelos fiéis.
Orações matutinas e vespertinas.
"nadie muere mientras se lo recuerde".
Estamos falando de San Ernesto Guevara de La Higuera.
El Che.
O Che que foi assassinado pela CIA quando, revolucionário, tentava libertar a Bolívia das garras do imperialismo.
Quis o destino que o soldado que disparou os tiros a queima roupa, enviasse recentemente uma carta ao comandante Fidel Castro agradecendo o tratamento que lhe dedicaram médicos cubanos que estão na Bolívia cuidando da saúde da população.
“Teria ficado cego não fosse um dos médicos cubanos que aqui trabalhavam” diz a carta que ele enviou.
O nome do soldado?
Mario Teran, que por mais de 30 anos dizia chamar-se Pedro Salazar.
Mario Teran diz arrepender-se por ter obedecido a ordem de executar “el Santo Ernesto”, de quem ele também tornou-se devoto.
São inúmeros os milagres que San Ernesto tem realizado.
E continua realizando de acordo com os humildes moradores de La Higuera.
Assim foi a breve vida de Che Guevara, el San Ernesto, um ser humano que lutou por um mundo melhor, sem explorados e oprimidos.
TRIBUTO AL CHE
http://youtu.be/1OBomlxC-30
Postado há 2 days ago por Georges Bourdoukan
Marcadores: che guevara che san ernesto la higuera bolivia
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Kennedy
Michael Moore não escreve para convencer ''incautos''. - Michael: «Sempre entendi que o conceito do dinheiro que gera dinheiro criara uma classe de gente gananciosa, preguiçosa, que nada produz além de miséria e medo para os pobres. Eles inventaram meios de comprar empresas menores, para imediatamente as fechar. Inventaram esquemas para jogar com as poupanças e aposentadorias dos pobres, como se dinheiro dos outros fosse dinheiro deles. Exigiram que as empresas sempre registrassem lucros (o que as empresas só conseguiram porque demitiram milhares de trabalhadores e acabaram com os serviços de saúde pública para os que ainda tinham empregos). Decidi que, se ia afinal ‘ganhar a vida’, teria de ganhá-la com meu trabalho, meu suor, minhas ideias, minha criatividade. Eu produziria produtos tangíveis, algo que pudesse ser partilhado com todos ou de que todos gostassem, como entretenimento, ou do qual pudessem aprender alguma coisa. Meu trabalho, sim, criaria empregos, bons empregos, com salários decentes e todos os benefícios de assistência médica. -- Continuei a fazer filmes, a produzir séries de televisão e a escrever livros. Nunca iniciei um projeto pensando “quanto de dinheiro posso ganhar com isso?”. Nunca deixei que o dinheiro fosse a força que me fizesse fazer qualquer coisa. Fiz, simplesmente, exatamente o que queria fazer. Essa atitude ajuda a manter honesto o meu trabalho – e, acho, ao mesmo tempo, resultou em milhões de pessoas que compram ingresso para assistir aos meus filmes, assistem aos programas que produzo e compram meus livros. -- E isso, precisamente, enlouqueceu a Direitona. Como é possível que alguém da esquerda tenha tanta audiência no ‘grande público’?! Não pode ser! Não era para acontecer (Noam Chomsky, infelizmente, não aparece na lista dos 10 programas mais vistos da televisão; e Howard Zinn, espantosamente, só chegou à lista dos mais vendidos do New York Times, depois de morto). Assim opera a mídia-máquina. Está regulada para que ninguém jamais ouça falar dos que, se pudessem, mudariam todo o sistema, para coisa muito melhor. Só liberais babacas, que vivem de exigir cautela e concessões e reformas lentas, aparecem com os nomes impressos nas páginas de editoriais dos jornais ou nos programas da televisão aos domingos. -- Eu, de algum modo, encontrei uma brecha na muralha e meti-me por ali. Sinto-me abençoado, podendo viver como vivo – e não ajo como se tudo fosse garantido para sempre. Acredito nas lições que aprendi numa escola católica: que se você se dá bem, maior a sua responsabilidade por quem não tenha a mesma sorte. “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.” Meio metido a comunista, eu sei, mas a ideia é que a família humana existe para partilhar com justiça as riquezas da terra, para que os filhos de Deus passem por essa vida, com menos sofrimento.
“Você está rico por causa do capitalismo!” – eles gritam. Não. Não assistiram as aulas de Economia I? O capitalismo é um sistema, um esquema ‘pirâmide’ que explora a vasta maioria, para que uns poucos, no topo, enriqueçam cada vez mais. Fiz meu dinheiro, à moda antiga, honestamente, fabricando produtos, coisas. Nuns anos, ganho uma montanha de dinheiro, noutros anos, como o ano passado, não tenho trabalho (nada de filme, nada de livro); então, ganho muito menos. “Como é que você diz defender os pobres, se você é rico, exatamente o contrário de ser pobre?!” É o mesmo argumento de quem diz que, “Você nunca fez sexo com outro homem! Como pode ser a favor do casamento entre dois homens?!" -- Penso como pensava aquele Congresso só de homens que votou a favor do voto para as mulheres, ou como os muitos brancos que foram às ruas, marchar com Martin Luther Ling, Jr. (E lá vêm a Direitona, aos gritos, ao longo da história: “Hei! Você não é negro! Você nem foi linchado! Por que está a favor dos negros?!”). Essa desconexão impede que os Republicanos entendam por que alguém dá o próprio tempo ou o próprio dinheiro, para ajudar quem tenha menos sorte. É coisa que o cérebro da Direitona não consegue processar. “Kanye West ganha milhões! O que está fazendo lá, em Occupy Wall Street?!”. Exatamente – lá está, exigindo que aumentem os impostos cobrados dele mesmo. Isso, para a Direitona, é definição de loucura. Todo o resto do mundo somos muito gratos que gente como ele se tenha levantado, ainda que – e sobretudo porque – é gente que se levantou contra seus pessoais interesses financeiros. É precisamente a atitude que a Bíblia que aqueles conservadores tanto exaltam por aí exige de todos os ricos. --- Naquele dia distante, em novembro de 1989, quando vendi meu primeiro filme, um grande amigo meu disse o seguinte: “Eles cometeram erro muito grave, ao entregar tanto dinheiro a um sujeito como você. Essa grana fará de você homem perigosíssimo. É prova do acerto do velho dito popular: ‘Capitalista é o sujeito que vende a você a corda para enforcar ele mesmo, se achar que, na venda, ele pode ganhar algum.”» Fonte: ''Carta'', Michael Moore Blog, http://www.michaelmoore.com/words/mike-friends-blog/life-among-1
quarta-feira, 5 de junho de 2013
O amor é ingrato- Fabio Hernandez em DCM
O amor é ingrato como o rei que matou o homem que o salvara da morte
Fabio Hernandez 5 de junho de 2013
Os gregos já sabiam: gratidão e amor são coisas incompatíveis.
mel-ramos-plenti-grand-odalisque-1973
Meu tio Fábio, um homem sábio do interior, um dia me entregou um livro do Plutarco. Confesso que tremi diante da idéia de enfrentar, na inexpugnável solidão da leitura, as páginas com certeza brilhantes mas inevitavelmente árduas do grego.
Mas, prático que é, e conhecedor das limitações de seu sobrinho como leitor, tio Fábio me avisou que desejava que eu lesse somente um trecho marcado numa determinada página.
Ali se contava a história de um soldado que salvara a vida de um rei numa batalha. Um sábio imediatamente aconselhou o soldado a fugir. O soldado preferiu ficar, na esperança de ser recompensado pelo rei que salvara.
Acabou morto. E logo.
Quando terminei de ler essa história, imediatamente me lembrei de outro trecho de livro que tio Fábio me passara.
Platão – tio Fábio sempre bebeu na sabedoria grega — contava que Sócrates disse mais ou menos o seguinte aos homens que o condenaram a tomar cicuta: que bem fiz eu a vocês para que me tratem assim?
As duas história tratam do mesmo tema: a ingratidão. E francamente: não sei por que iniciei minha coluna com a dupla história grega de ingratidão humana.
Ou melhor. Sei sim. É que eu queria fazer uma conexão entre aqueles episódios e a vida amorosa. O fato cruel e inescapável é o seguinte: o amor é ingrato. O amor tem uma série de virtude: ele ilumina, ele embeleza a vida, ele torna divertido um congestionamento.
Mas ele é ingrato como o rei que matou o soldado que o salvara e os atenienses que fizeram Sócrates beber cicuta.
Um amigo meu, Roni Maldonado, outro dia veio desabafar comigo. Ele acabara de romper com a namorada, uma loira de fazer cego olhar para trás, e ela além de gritar-lhe insultos arrebentou a pontapés a porta de seu carro.
Roni é essencialmente um ingênuo do amor, um otimista das relações sentimentais. Ela sinceramente achava que, por fatos como ter arrumado um bom emprego para a namorada e num período de depressão ter-lhe até financiado um terapeuta de 220 reais a hora, receberia de volta alguma gratidão, e não uma porta de carro arrebentada a golpes de salto alto.
Tive vontade de apresentar Roni a tio Fábio e pedir a meu tio que falasse um pouco a meu amigo sobre a gratidão humana.
Tive vontade de falar um pouco do soldado e de Sócrates, do rei assassino e da cicuta. Mas apenas balancei a cabeça numa muda expressão de solidariedade a meu amigo ferido na alma.
Roni, refleti, passará a vida inteira atrás de uma ilusão, de uma fantasia tão irreal quanto a espada de Arthur: a gratidão amorosa.
O que você possa ter feito de bom a alguém numa relação amorosa não conta no final. O que vale são apenas os crimes, geralmente imaginários, que você cometeu.
Não conheço caso de amor que termine com uma declaração sincera de agradecimento pelos serviços prestados.
Roni me contou, em sua estupefação tola, que até em relação ao sexo ouviu palavras que quase o reduzem a um eunuco da corte de Ramsés. “E ela vivia me agradecendo por tê-la ensinado a gozar com penetração”, me repetia ele. “No final me disse que eu não tinha nenhuma imaginação quanto a sexo. Que eu era um idiota sexual.”
O meu ponto é o seguinte: faça sempre tudo que puder por sua namorada, mulher, amante. Tudo. Agrade-a de todas as maneiras possíveis. Flores, beijos, bom sexo, atenção. Dê tudo.
Mas jamais cometa o erro fatal do soldado. Não faça nada esperando gratidão. O amor é ingrato como o rei que matou o homem que o salvara da morte.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Escreva Lola Escreva: EU JÁ FIQUEI DO LADO DAS GRANDES CORPORAÇÕES
Escreva Lola Escreva: EU JÁ FIQUEI DO LADO DAS GRANDES CORPORAÇÕES: Não chore sobre o café fervendo derramado Venho aqui fazer um mea culpa. Eu já fui uma cretina que achava ridículos os processos jud...
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