sábado, 22 de junho de 2013

Mau senso - Pedro Rocha de Oliveira


Mau senso
Enquanto se condena a violência policial no centro da cidade, aceita-se a brutalidade na periferia

Pedro Rocha de Oliveira - O Estado de S. Paulo

Depois de quase duas décadas de marasmo, em meio à crise econômica, à onda internacional de protestos e às truculências simbólicas e concretas necessárias para adequar o País aos jogos internacionais, a juventude brasileira começou a se mexer. Nesse contexto, o descontentamento usual está produzindo forças não usuais, e essas forças estão se exprimindo. O tamanho delas surpreende, dá gosto de ver. A apreensão do sentido desse movimento enquanto ele está começando é, obviamente, muito difícil. Não obstante, vale a pena dialogar com alguns dos temas recorrentes que vêm povoando aquela apreensão - em especial, o tema da violência.

Ao refletir sobre os protestos no Brasil e no mundo, a "opinião pública" internacionalmente homogeneizada trabalha muito com a oposição "protesto pacífico x protesto violento". Fala-se em excessos por parte tanto da polícia quanto dos manifestantes. Joga-se com um dos mais primitivos e arraigados princípios da moralidade, a ideia de troca justa: manifestantes violentos merecem repressão violenta da polícia, e a polícia às vezes ganha um puxão de orelha se bate na cara em vez de bater nas costas. Trata-se de abalos na comensurabilidade entre quantidades de violência, mas o bom senso moral emprega a equivalência para resolver qualquer problema ético ou político. Fala-se de quantidades de violência como se diz que os lucros das empresas de ônibus talvez sejam grandes demais, ou que a corrupção alcançou níveis intoleráveis (a bizarra disputa discursiva que vem sendo empreendida para atribuir sentido aos protestos passa muito por aí).

Implicitamente, esse bom senso moral projeta a imagem clássica, batida e facilmente reconhecível de uma sociedade definida pelos atributos do equilíbrio e da ordem. Tais elementos teimam em marcar a consciência social na sociedade burguesa mesmo no período tardio em que já não a descrevem (se é que já o fizeram). Hoje, a violência é uma realidade presente, inconteste, inevitável, da qual ninguém pode realmente se manter higienicamente afastado, que ao mesmo tempo foi cientificamente desenvolvida pelo Estado e pelas corporações até chegar a níveis incomensuráveis com as capacidades dos meros mortais. Os lucros são todos indevidos, porque dependem de exclusão socioeconômica brutal, submissão da vida a procedimentos empresariais e relativização da viabilidade ecológica. A reivindicação política não pode mais apelar à consciência moral dos governantes porque as pressões do processo econômico transformaram o governo na aplicação de uma técnica administrativa independente de valores. O direito só pode ser encarado pelos governados com o mesmo cinismo arbitrário e instrumental com que é institucionalmente mantido. E todos esses elementos, que às vezes são associados à precariedade brasileira (turca, egípcia, etc.), não podem ser realmente vistos como exceção subcivilizada, mas ou bem como exemplo - uma "vanguarda do atraso" global - ou bem como herança da sinistra ciência da dominação que o Ocidente vem desenvolvendo ciosamente desde o advento da Gestapo e rende frutos, nos países centrais, sob a forma das execuções a distância pelos drones da CIA, ou dos policiais antiprotesto britânicos especializados em quebrar dedões.

No entanto, na hora de pensar os eventos em que a tessitura social fica amassada, se não rasgada, a consciência social não só rejeita os amassos do real como mau gosto, mas torna-se insensível a eles. Consequentemente, parte significativa da classe média que agora se sente empurrada para as ruas, ou que assiste a tudo com interesse, apreende com repugnância o horror das incomuns violências perpetradas contras os brancos nas manifestações - violências hediondas, e inéditas entre nós desde a ditadura -, mas não está preparada para reconhecer a violência sistemática que marca a experiência social dos pobres de outras cores e sustenta o que ela chama de vida normal.

É assim que, no Rio, o corte étnico-social dos 100 mil manifestantes do dia 17 de junho não destoou muito daquele que resulta da segregação usual que mantém os pobres longe do centro da cidade depois do horário do expediente. Nessa cidade, o controle territorial armado é ferramenta de gestão pública. Recentemente, o Jacarezinho - favela da Zona Norte do Rio e um dos menores IDHs da cidade - se levantou contra a UPP local. O significado desse evento não é pequeno, mas a "opinião pública" lhe deu pouca atenção. Nas cenas registradas do ocorrido por Patrick Granja e Guilherme Chalita do blog Nova Democracia, não há nenhum lugar para o juízo moralizante que domina a apreensão dos eventos de violência policial recentes. Ali, como tem ocorrido em tantas favelas submetidas ao regime de ocupação policial-militar, moradores reagiram à violência da abordagem e revista incessante, os agentes da segurança pública revidaram e acabaram encurralados em um beco, atirando contra uma multidão enraivecida e matando um garoto que comia num bar e ficou estendido no chão no meio de uma poça de sangue com o cachorro-quente do lado da mão. Consultado sobre o ocorrido, o diagnóstico do comandante da UPP, conforme matéria do jornal O Dia de abril, foi que a população tem que se acostumar com as abordagens constantes da polícia, que está ali para aquilo mesmo. Ou seja: no Jacarezinho, a violência policial é onipresente e normal.

Trata-se de lançar luz sobre algo óbvio: quando o Poder Executivo bate, tortura, mata durante o processo de "pacificação" ou "combate ao crime organizado" nas favelas e periferias - e ele faz isso sistematicamente -, a maior parte da grande mídia, a opinião pública e o bom senso moral passam batido, descontando a pimenta nos olhos dos outros como efeito colateral necessário para manter a ordem que tanto preza. É assim que, falando da atuação policial, o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, recentemente aplaudido pela população de bem ao passear em público, disse à imprensa que "mesmo morrendo crianças, não há outra alternativa. Esse é o caminho". Os teimosos de sempre postaram algo na internet, mas ninguém foi para as ruas, embora os princípios formais que regem a democracia ocidental estivessem em jogo nessa fala.

Ao contrário do que acontece com a violência policial exercida no centro, e contra gente branca, a opinião pública está preparada para encarar a repressão, acossamento, segregação, criminalização e brutalização sistemática dos pobres no morro e na periferia como coisa tão natural quanto a pobreza, o que já é uma violência danada. Esse bom senso moral saudou as invasões policiais como o "restabelecimento do Estado de Direito". Mas, se na favela ocupada a violência não é exceção, mas regra, tal violência não pode ser separada de um funcionamento social normal, de modo que o Estado de Direito foi para as cucuias. Se a normalidade é violenta, não há sustentação para a oposição entre violência devida e indevida. Sob ocupação policial constante, não há instituições justas e injustas, só a opressão explícita.

Isso significa que os princípios da equivalência e do bom senso moral não regem a experiência social dos pobres. O processo histórico do capitalismo fez com que o clamor pela justiça tradicional coincida com as fronteiras da segregação socioeconômica e espacial das cidades contemporâneas. O que não se deixa segregar é a violência: a polícia, dando tiro na cara dos brancos, promove um tipo de "igualdade e fraternidade", bem adequado à forma social contemporânea. Ela "democraticamente" aplica no centro a mesma truculência que foi treinada para usar há décadas na periferia e no morro, com consequências que vão desde os sigilosos altos índices de suicídio entre policiais até a costumeira invulnerabilidade legal que os protege de responderem pelos "excessos" calculados que lhes são exigidos pelos capos do Executivo.

Assim, a violência policial nos eventos de manifestação popular da classe média pode ironicamente devolver à experiência social o sentido de totalidade que o Estado policialesco trabalha para dissolver mantendo os pobres em seu devido lugar. Mas isso só vai acontecer se a apreensão desses eventos romper com os limites do campo de visão da classe média. Imaginemos o que aconteceria se, num belo (belíssimo) dia, milhares de pretos descessem dos morros cariocas para, também, tomar conta da Av. Rio Branco. Nenhuma medida de truculência policial seria, então, capaz de comover a já seletiva opinião pública, que hoje não hesita em acusar de colaboração com o "tráfico de drogas" os pobres que se levantam contra as UPPs.

Aliás, vale notar que, dada a existência das UPPs, dificilmente a marcha da massa favelada morro abaixo poderia ser empreendida por manifestantes "pacíficos"...

PEDRO ROCHA DE OLIVEIRA É PROFESSOR ADJUNTO DO DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIRIO E COORGANIZADOR DO LIVRO ATÉ O ÚLTIMO HOMEM: VISÕES CARIOCAS SOBRE A ADMINISTRAÇÃO ARMADA DA VIDA SOCIAL (BOITEMPO EDITORIAL)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A maneira como vivemos hoje - in http://umanovacultura.blogspot.com.br


A maneira como vivemos hoje
Esta é a tradução de uma palestra proferida pelo historiador americano Morris Berman a respeito do seu novo livro, Why America Failed (Por que a América falhou), lançado em 2011. O título original da palestra é The way we live today, e a transcrição foi cedida pelo próprio Berman para tradução. O objetivo de disponibilizá-la aqui é divulgar as ideias deste autor que, apesar de ser considerado um dos mais incisivos críticos da cultura americana, não foi traduzido no Brasil até agora. Berman se mudou para o México em 2006. Talvez seja mais conhecido por um livro chamado The Reenchantment of the World (O reencantamento do mundo), onde defende uma perspectiva ecológica baseada numa leitura crítica da história da ciência. Sua tese sobre os EUA talvez possa ser estendida à civilização como um todo.


A maneira como vivemos hoje
Por Morris Berman

Apesar da grande pressão para se conformar nos Estados Unidos, para comemorar os EUA como o melhor sistema do mundo, a nação não tem falta de críticos. As duas últimas décadas têm visto inúmeros trabalhos que criticam a política externa dos EUA, a política doméstica dos EUA (em especial, a política econômica), o sistema educacional norte-americano, o sistema judicial, os militares, os meios de comunicação, a influência das corporações sobre a vida americana, e assim por diante. A maioria deles é muito astuta, e eu aprendi muito com a leitura destes estudos. Mas duas coisas em particular estão em falta, na minha opinião, e são coisas que dificilmente aparecem para os olhos do público, em parte porque os americanos não são treinados para pensar de uma forma holística ou sintética, e em parte porque o tipo de análise que eu tenho em mente é difícil de ouvir para os americanos. A primeira coisa que falta nessas obras é uma integração dos diversos fatores que estão destroçando o país. Esses estudos tendem a ser sobre uma instituição específica, como se a instituição em análise existisse em uma espécie de vácuo, e poderia realmente ser entendida separada de outras instituições. A segunda coisa que eu acho que falta é uma relação com a cultura em geral, com os valores e comportamentos que os americanos manifestam diariamente. Como resultado, essas críticas são, enfim, superficiais; elas realmente não vão à raiz do problema, e este evitamento lhes permite ser otimistas, o que de fato os coloca no mainstream americano. Os autores muitas vezes concluem seus estudos com recomendações práticas de como as disfunções institucionais particulares que eles identificaram podem ser corrigidas. Eles não são, como resultado, uma grande ameaça. Geralmente é uma análise mecânica com uma solução mecânica. Se os autores percebessem que estes problemas não existem no vácuo, mas estão relacionados com todos os outros problemas e estão enraizados na natureza da cultura americana em si, no seu "DNA", por assim dizer, o prognóstico não seria tão belo. Porque se tornaria claro que simplesmente não há uma saída; que mudar as coisas de lugar não é realmente uma opção neste momento.

Para tomar apenas dois exemplos: Michael Moore e Noam Chomsky. Eu os admiro muito, eles fizeram muito para elevar a consciência nos Estados Unidos, para mostrar que tanto a política externa e interna, como atualmente buscadas são becos sem saída, ou pior. No entanto, ambos acreditam que o problema vem de cima, do Pentágono e das corporações. O que é verdade em parte, com certeza. O problema é que isto repousa sobre uma teoria da falsa consciência: ou seja, a crença de que essas instituições têm vendado os olhos do cidadão médio americano, que é, em última análise, racional e bem-intencionado. Por isso, a solução é a educação: tire a venda dos olhos, e os cidadãos vão espontaneamente despertar, e comprometer-se a algum tipo de visão socialista, populista ou democrática. Mas e se descobrirmos que a venda é os olhos? Que o assim chamado cidadão médio realmente quer, como Janis Joplin celebremente colocou, um Mercedes-Benz, e não muito mais? Que ele ou ela é grata às empresas por nos fornecer oceanos de bens de consumo, e ao Pentágono, por nos proteger desses horríveis Ay-rabs[i] à espreita no Oriente Médio? Então as possibilidades de mudança fundamental parecem ser bem pequenas, pois o que seria necessário é um conjunto de instituições muito diferentes, e um tipo muito diferente de cultura. Eu acho que todos nós concordamos que não há muita chance disso acontecer. A América é, afinal, o que é.

Observando a cena crítica, então, eu encontro muito poucos escritores que veem as coisas de forma sintética, isto é, como um todo integrado, e que ainda relacionem isto com a natureza da cultura americana em si. Mas há alguns, e os títulos de seus livros os entrega: As origens puritanas do self americano, por Sacvan Bercovitch; Guerra é uma força que nos dá significado, Chris Hedges, o mito da diplomacia norte-americana, de Walter Hixson. Alguns historiadores eminentes também vêm à mente: C. Vann Woodward, por exemplo, ou William Appleman Williams, ou David Potter, ou Lears Jackson. Todos esses pensadores são radicais, no sentido de ir à raiz das coisas. Bercovitch, um canadense que ensinou Estudos americanos durante várias décadas em Harvard, argumenta que já a partir de 1630, os colonos estavam imbuídos da ideia de que eles estavam estabelecendo uma nova nação, sob a direção específica da Providência, e reencenando o drama do Êxodo, no Antigo Testamento. Assim, na travessia do Atlântico (= Rio Jordão), eles estavam entrando no Novo Mundo (= Canaã, que emana leite e mel); rejeitando a decadência da Inglaterra e da Europa em geral (= Antigo Egito), e estabelecendo uma nova ordem, Nova Jerusalém, e que tudo isso estava de acordo com a vontade de Deus. O historiador Walter Hixson afirma que a identidade americana originalmente se uniu em torno da ideia do Outro, quem quer que fosse, como sendo selvagem, e, portanto, que a nossa identidade sempre foi baseada na guerra, nós realmente nunca negociamos nada com ninguém, como outras nações descobriram (geralmente é tarde demais). O jornalista Chris Hedges amplifica essa noção, argumentando que a guerra deu aos americanos uma razão de ser, um sentido para suas vidas. Tudo isso, para mim, é muito mais sofisticado do que alguma suposta teoria da falsa consciência, uma crença de que os americanos são fundamentalmente bem-intencionados e racionais. Em vez disso, ele argumenta essencialmente que somos, e temos sido desde nossos primeiros dias, irremediavelmente neuróticos ou coisa pior, e que a crença de que podemos seguir um caminho realmente diferente nesta fase do jogo é ilusória, exigindo o que seria arrancar a psique americana de suas próprias raízes.

Em todo caso, eu gostaria de pensar que eu caio nesta última categoria de historiador, só porque eu acho que é esta versão da história americana que é fiel à realidade. Há uma série de temas que poderíamos discutir, neste ponto, que eu tenho examinado na minha trilogia sobre o império americano, da qual o terceiro volume, Por que a América falhou, acabou de chegar. Já que você não quer que eu fique falando por 12 ou 14 horas, deixe-me elaborar apenas uma única ideia, uma que eu apresentei na minha coleção de ensaios, Uma questão de valores, publicado no ano passado. Em um ensaio intitulado "Localizar o Inimigo", eu peguei emprestado um conceito do filósofo alemão Hegel, o de "identidade negativa". Por “negativa”, Hegel não quis dizer ruim, mas reativa. A identidade negativa, disse Hegel, é aquela que é formada em oposição a algo ou alguém. Ela permite que você desenvolva fronteiras muito fortes do ego, sempre avançando contra o seu inimigo, mas uma vez que é formada através de oposição, não tem conteúdo real. Como resultado, parece forte, mas na verdade é fraca, porque a sua auto-definição é inteiramente relacional. O que um mestre seria, pergunta Hegel, sem um escravo? Tire o escravo, e o mestre não teria nada pelo que se definir.

O que defendo é que este conceito de identidade negativa aplica-se particularmente bem à América, à história do continente americano. Oposição, sob qualquer forma, proveu os colonos com uma narrativa orientadora que lhes permitiu dar sentido às suas vidas. E já que, como facilmente demonstra Bercovitch, esta foi uma narrativa religiosa, não demorou muito para transformá-la num maniqueísmo, em que o inimigo, fosse quem fosse, era o mais sombrio dos sombrios. O alvo deste ódio hipócrita se metamorfoseou ao longo do tempo, mas a forma, que é a oposição maniqueísta, manteve-se a mesma. Assim, os nativos americanos foram rapidamente vistos como pouco mais do que selvagens, um obstáculo para a "civilização", e tratados como tal. Assim, em cada Ação de Graças, os americanos se sentam, cavam um peru, e comemoram o genocídio e a quase extinção de todo um povo indígena. O próximo alvo foi o britânico, que surgiu na Revolução Americana, embora este já estivesse presente quando os peregrinos partiram para a América, a partir de 1620. Grã-Bretanha estava decadente e corrupta, na visão dos colonos, hierárquica e orgânica, enquanto nós, cidadãos do futuro Estados Unidos, éramos essencialmente não-britânicos, não-europeus, mas republicanos, ou seja, antimonárquicos. O terror e brutalidade que caiu sobre os legalistas, os norte-americanos que não seguiram essa agenda simplista em preto-e-branco, quase nunca é discutido nos livros de história americana, mas foi registrada, apesar de tudo: a intimidação constante, humilhação[ii], confisca ou queima de propriedade, sendo expulsos de suas casas, e muitas vezes assassinados como "traidores". (Veja, por exemplo, o recente estudo da Maya Jasanoff, Exilados da liberdade. Há muito poucos livros americanos nesse gênero, porque violam o mito da inocência americana, de ideais nobres).

Movendo-nos a diante, chegamos à oposição com o México, que envolveu provocar uma guerra falsa e depois roubar mais da metade do país. Como no caso dos índios americanos, era conveniente considerar o povo mexicano como ignorante e pouco desenvolvido, "selvagens" de algum tipo, sem a energia empreendedora do capitalismo dos EUA, um infeliz estereótipo que persiste em certo ponto até os dias de hoje. Como os nativos americanos, os mexicanos eram vistos como ficando no caminho do "progresso", do Destino Manifesto americano (mais uma vez, ordenado por Deus). Na verdade, o governo mexicano estava bem ciente de com quem estava lidando. No final de 1820, uma comissão mexicana escreveu que os americanos eram um "povo ambicioso sempre pronto para invadir seus vizinhos, sem uma centelha de boa fé". Como Robert Kagan escreve em Dangerous Nation, praticamente todos viam os EUA desta forma, incluindo o espanhol, o francês, os russos e os britânicos. Diplomatas franceses chamaram a população americana de "guerreira" e "agitada".

Pouco depois, a mesma estrutura que tinha sido usada para caracterizar os nativos americanos e mexicanos foi aplicada pelo Norte para o Sul-Americano: uma preguiçosa sociedade sentada no caminho do progresso. Como eu discuto em Por que a América falhou, não foi a oposição do Norte à escravidão que desencadeou a Guerra Civil, embora, mais tarde, isso veio a desempenhar um papel importante como um tema unificador, um grito de guerra. Eu não estou, é claro, justificando a escravidão, e poderia muito bem ser argumentado que sem a Guerra a escravidão teria continuado por várias décadas, embora alguns historiadores discordem dessa avaliação. Mas o conflito mais fundamental foi um choque de culturas, a maneira lenta e calma do Sul, em oposição à inquieta expansão econômica do Norte. Ambos os lados considerando o outro como o diabo encarnado, o resultado foi a perda de 625 mil vidas e uma destruição maciça do Sul, sintetizado pela marcha de Sherman ao mar, que foi inacreditavelmente violenta. Essas cicatrizes ainda existem, é claro. Para o Sul, a guerra nunca acabou realmente, e o ressentimento é muito profundo.

Os alemães foram os próximos, embora esta oposição pareça perfeitamente justificada, e depois vieram os comunistas “sem deus”. A conversão dos russos de aliados para inimigos ocorreu quase do dia para a noite, e não é difícil perceber por que: com os alemães fora do jogo, tinha de haver um inimigo no seu lugar para preencher o vácuo resultante. E, embora a URSS fosse repressiva ao extremo, ela não tinha, como o diplomata americano George Kennan argumentou atrasadamente, que ser tratada como o inimigo final, porque o seu objetivo real estava em garantir suas próprias fronteiras. Arquivos da KGB abertos após a queda da União Soviética revelaram que o medo real da Rússia não era dos Estados Unidos, mas de uma Alemanha rearmada. Mas não houve nenhuma tentativa de negociar coisa alguma com a Rússia, como Stalin apontou já em 1946, para os americanos, "negociação" na verdade queria dizer "capitulação". Em qualquer caso, a Guerra Fria manteve os EUA ocupados por décadas, e assim, o assim chamado perímetro de defesa, que sustentava que qualquer perturbação no mundo era motivo para ação militar dos EUA, levou aos desastres do Irã, Guatemala, Vietnã, Chile, e assim por diante.

Naturalmente, a estrutura psicológica da identidade negativa levou a uma crise quando a União Soviética entrou em colapso: de repente, não tínhamos ninguém contra quem nos definir. A Guerra do Golfo de 1991 ajudou a preencher a lacuna, por um tempo, mas os anos de Clinton foram em grande parte sem sentido: sem um inimigo, não tínhamos ideia de quem éramos, e enchemos o espaço com O.J. Simpson e Monica Lewinsky. Finalmente, o mundo islâmico nos fez o maior favor imaginável: ele nos atacou. Da noite para o dia, o terrorismo substituiu o comunismo como o chavão crucial, e Bush Jr., como Reagan na caracterização da União Soviética, não hesitou em ver a disputa como uma guerra cósmica entre o bem e o mal. Não houve discussão possível sobre a política externa americana no Oriente Médio como tendo desempenhado um papel nestes eventos; tal sugestão era equivalente à traição. Não, os nossos inimigos eram maus ou insanos, ou de preferência ambos, e fim da história. Até o dia de hoje, sob a administração Obama, o dinheiro dos impostos americanos pagam oficinas para ensinar a polícia e os militares de que o Islã é uma religião do mal, que quer destruir a América, e que deve, portanto, ser destruída em primeiro lugar. (Chris Hedges postou um artigo no truthdig.com em 9 de maio de 2011, descrevendo a natureza desses programas em detalhes). Mais uma vez, é a civilização contra os selvagens.

George Kennan tentou advertir o governo norte-americano que fazer um monólito do comunismo foi um engano grosseiro, e que havia grandes conflitos entre a Rússia e a China, por exemplo. Mas como o maniqueísmo requer figuras de papelão, os presidentes americanos desde Truman não prestaram atenção no seu conselho. Algo semelhante agora existe em relação ao Islã. Acontece que apenas cerca de 10% dos muçulmanos americanos são realmente religiosos, pois para a maioria deles o Islã é mais uma coisa social do que qualquer outra coisa, e mesmo assim, muito poucos muçulmanos religiosos são jihadistas. Mas quando a sua identidade é negativa, no sentido hegeliano, este tipo de nuance tem de ser mantida fora de sua consciência. Por exemplo, os americanos tendem a considerar o Paquistão como um lugar sombrio e terrível, como o país que escondia Osama bin Laden das tropas americanas, ou que abriga a Al-Qaeda (daí os ataques por aviões não tripulados nossos no país, que em sua maioria mata civis), ou que está em conluio com os talibãs. O que os americanos diriam se lessem nos jornais, como eu fiz em junho passado no Guardian de Londres, que um programa de TV muito popular no Paquistão é o de um comediante estilo Jon Stewart, que ridiculariza o governo e mostra canções como "Burka Woman", que ridiculariza o fundamentalismo muçulmano? (A música é baseada em "Pretty Woman" de Roy Orbison, e diz: "Mulher Burka / Andando pela rua / Burka Woman / Com seus pés sensuais..."). É claro, nada disso foi pego pela imprensa americana, porque enfraqueceria a nossa capacidade de pintar o inimigo totalmente de preto, o que potencialmente levaria a um abrandamento das fronteiras do nosso ego, e a um questionamento posterior de quem nós somos, além de uma nação em oposição a algo, e isso francamente nos assusta, porque, então, o jogo acabaria.

Marshall McLuhan, o teórico da comunicação canadense, uma vez afirmou: "Todas as formas de violência são buscas por identidade". Mais recentemente, David Shulman, que é professor de humanidades na Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu: "Não há nada mais precioso do que um inimigo, especialmente um que você tenha em grande parte criado por seus próprios atos e que desempenha um papel necessário no drama interior de sua alma". O que é a alma americana? Será que sequer temos uma? O que, além da oposição, a define? Este vazio no centro torna a nossa busca por identidade especialmente aguda, e, portanto, a nossa política especialmente violenta. A política é sempre de destruição, parece-me, ou de "choque e pavor". Na plenitude do tempo, nós é que provamos sermos os selvagens, e tudo isso sem muita consciência ou reflexão. É interessante que o tema dos romances de Paul Auster é que a sociedade americana é incoerente, que carece de uma verdadeira identidade e não é nada mais do que uma sala de espelhos. Ele está dizendo isso há décadas, e em geral, os americanos não sabem quem é Paul Auster e não o leem. Por outro lado, Auster é tremendamente popular na Europa, e foi traduzido para mais de 20 idiomas, e edições estrangeiras constituem a maior parte de suas vendas.

A crítica não é possível em um mundo maniqueísta, é claro, e os EUA são muito bons em marginalizar escritores que tentam criticar o país de uma maneira fundamental. Os americanos não estão interessados, de qualquer forma, ​​em tais coisas, e é por isso que a censura explícita é realmente desnecessária nos EUA. Mas o resultado é que, como na famosa pintura de Goya, Saturno devorando seu filho, os EUA estão agora a implodir, comendo-se vivos. Argumentei isto mais recentemente, em 2006, em Dark Ages America, e os dados comprobatórios que se acumularam desde então são enormes. Não há uma única instituição americana que não esteja seriamente corrompida, e eu poderia ficar aqui por várias horas documentando isso. Em vez disso, deixe-me apenas citar alguns exemplos:

1. Ronald Dworkin, um dos principais intelectuais da América, fez um ensaio há alguns meses na New York Review of Books, mostrando que a Suprema Corte tornou-se um tribunal de homens, não de leis. No caso de 5 entre 9 julgamentos, ele ressalta, as decisões são normalmente feitas com antecedência, em uma direção política de direita, e então a justificação das decisões é colocada para fora após o fato, ainda que muitas vezes viole a Constituição.

2. Em Academically Adrift, os sociólogos Richard Arum e Josipa Roksa relatam que, após dois anos de faculdade, 45% dos estudantes americanos não aprenderam nada, e depois de quatro anos, 36% não aprenderam. A maioria dos estudantes define a faculdade como uma experiência social, não acadêmica. Metade dos alunos no seu estudo disse que não tinha tido uma única disciplina no semestre anterior que exigisse mais de 20 páginas de escrita, e um terço disse que não tinha feito nenhuma disciplina que exigisse mais de 40 páginas de leitura. Uma pesquisa lançada em 04 de julho de 2011 mostrou que 42% dos adultos americanos não estão cientes de que os EUA declararam a sua independência em 1776, e este número aumenta para 69% para a faixa etária de menores de 30 anos. 25% dos americanos não sabem de que país os Estados Unidos se separaram. Uma pesquisa recente da revista Newsweek revelou que 73% dos americanos não conseguem dar a versão oficial de por que lutamos na Guerra Fria, e 44% são incapazes de definir a Declaração de Direitos. Uma pesquisa realizada no sistema de ensino público de Oklahoma trouxe à tona o fato de que 77% dos alunos não sabiam quem George Washington era. Em várias cidades, as bibliotecas foram fechadas por falta de financiamento e, provavelmente, de interesse também. Em janeiro passado, um sério candidato presidencial elogiou os Pais Fundadores por "trabalhar incansavelmente" para abolir a escravidão, quando, na verdade, esses fundadores concordaram que uma pessoa negra legalmente constituía 60% de um ser humano, e consagraram a escravidão na Constituição. Ele também afirmou que o governo dos EUA foi conivente com o chinês em abolir o dólar. Este indivíduo, Michele Bachmann, que é essencialmente uma idiota, tem uma enorme liderança política; milhões de americanos a consideram como material presidencial.

3. No rescaldo do crash de 2008, as mesmas pessoas que promulgaram a ideologia que levou ao crash foram nomeadas como assessores econômicos do presidente: Lawrence Summers, Timothy Geithner e Ben Bernanke. Nem um único líder financeiro de Wall Street enfrentou a prisão. De fato, as principais figuras corporativas que levaram a economia para baixo foram premiadas com bônus enormes; alguns protegidos encontros em lugares prestigiados como a Universidade Johns Hopkins e o Instituto Brookings. Enquanto isso, as próprias práticas que levaram ao crash, tais como derivativos, permuta de crédito e similares, agora estão sendo buscados com ainda mais vigor do que eram antes do crash. O Nobel em economia Paul Krugman pergunta, um tanto retoricamente, como é que, na esteira do óbvio fracasso do capitalismo de casino e do neoliberalismo, a culpa pelo crash não é dos bancos (que receberam socorro de cerca de US $ 19 trilhões) e das corporações, mas do setor público?

4. Entre 1987 e 2007, o número de norte-americanos tão inválidos por causa de transtornos mentais que se qualificam para a renda de seguridade suplementar ou o seguro de invalidez da segurança social aumentou 2,5 vezes, de modo que 1 de cada 76 americanos agora pertence a esta categoria. Um de cada setenta de seis. Para as crianças, o aumento é de 35 vezes durante o mesmo período de tempo, e a doença mental é hoje a principal causa de incapacidade entre esta população. Uma pesquisa com adultos americanos, realizada pelo Instituto Nacional de Saúde Mental, 2001-3, descobriu que 46% deles preenchiam os critérios da Associação Americana de Psiquiatria por ser doente mental em algum momento de suas vidas. Dez por cento dos americanos com mais de seis anos de idade agora tomam antidepressivos, e eu li em algum lugar que, em termos de mercado global (ou seja, em dólares, em vendas), o consumo americano dessas drogas equivale a 2/3 do o mundo inteiro, para um país que tem menos de 5% da população planetária.

(Algum tempo atrás eu vi uma pequena placa satírica que tinha o título: “às 7 da noite no Salão Paroquial”. Depois seguia segunda-feira: Alcoólicos; terça-feira: esposas abusadas; quarta-feira: transtornos alimentares; quinta-feira: toxicodependência; sexta-feira: suicídio adolescente, sábado: sopa e, finalmente, sermão do domingo, às 9:00: "O Futuro Jocundo da América")

5. A infraestrutura nos Estados Unidos está desmoronando, e não há dinheiro para consertá-la. Há também, em alguns casos, a oposição ideológica a consertá-lo. Os diques de Nova Orleans estão da mesma forma agora do que eles eram antes do Katrina. Eu li um artigo há algum tempo sobre a tentativa de resolver isto, a nível estadual ou municipal, não me lembro, e os vereadores afirmaram que não queriam seguir em frente, porque seria necessário um esforço de cooperação, e isso, segundo eles, significava o socialismo. Então, aparentemente, trabalhar juntos é equivalente ao socialismo, e é melhor correr o risco de ter outro Katrina do que isso.

6. A dívida nacional está agora em mais de US $ 14 trilhões, e o número oficial da pobreza e da fome é de 45 milhões de cidadãos. Isso com base em critérios que são bastante obsoletos. Quase 20% dos adultos americanos estão fora do trabalho, e com poucas perspectivas de emprego, os economistas dizem-nos, para os próximos dez anos.

7. O presidente agora tem o direito, ainda que viole os Acordos de Genebra, de designar qualquer cidadão americano, e na verdade qualquer um no planeta, como inimigo, e ordenar que ele ou ela seja assassinado. Mas não para por aí. Em um ensaio intitulado "Os desaparecidos da América", enviada ao truthdig.com em 18 de julho de 2011, Chris Hedges escreve:

"A tortura, detenção prolongada sem julgamento, humilhação sexual, estupro, desaparecimento, extorsão, pilhagem, assassinato aleatório e abuso tornaram-se, como na Argentina durante a Guerra Suja, uma parte do nosso próprio mundo subterrâneo de locais de detenção e centros de tortura... Nós sabemos de pelo menos 100 presos que morreram durante os interrogatórios em nossos ‘locais sombrios’... Há provavelmente muitos, muitos mais cujo destino nunca foi tornado público. Dezenas de milhares de homens muçulmanos passaram por nossos centros de detenção clandestinos sem o devido processo. ‘Nós torturamos pessoas sem piedade’, admitiu o general aposentado Barry McCaffrey. ‘Nós provavelmente assassinamos dezenas deles... tanto as forças armadas quanto a CIA’. Dezenas de milhares de norte-americanos estão sendo mantidos em prisões de segurança máxima, onde são privados do contato e psicologicamente destruídos. Trabalhadores sem documentos são levados e desaparecem de suas famílias por semanas ou meses. [Na verdade, nos dois anos após o discurso de Obama pedindo a reforma da imigração, o governo dos EUA deportou um milhão de imigrantes]. Unidades de polícia militarizada quebram as portas de cerca de 40.000 americanos por ano para transportá-los na calada da noite, como se eles fossem combatentes inimigos. Habeas corpus não existe mais".

8. O exército dos EUA, que absorve 50% do orçamento discricionário, é aparentemente incapaz de vencer duas guerras em dois pequenos países. Na verdade, ele não teve uma vitória real desde a Segunda Guerra Mundial, após o que decidiu cutucar ditadores vira-latas e nações menores.

9. Um relatório de inteligência dos EUA lançado em 2008, "Tendências Globais 2025", prevê um declínio constante no domínio americano nas próximas décadas, com a liderança dos EUA corroendo "a um ritmo acelerado", nas "arenas políticas, econômicas e, possivelmente, culturais". Que eu saiba, o presidente nunca mencionou este relatório, nem ninguém trabalhando no governo.

10. Em 19 de Julho de 2010, o Washington Post informou que a Agência de Segurança Nacional (NSA) tem escritórios em 33 complexos de edifícios chegando a 1,5 milhões de metros quadrados de espaço, na capital e na área suburbana. Todos os dias, sistemas de coleta na NSA interceptam e armazenam 1,7 bilhões de e-mails e telefonemas de cidadãos americanos, o que equivale a um grande sistema de espionagem doméstica. Escrevendo na revista The New Yorker em 23 de maio de 2011, Jane Mayer informou que a NSA tem três vezes o orçamento da CIA, e tem a capacidade de baixar, a cada 6 horas, as comunicações eletrônicas equivalentes a todo o conteúdo da Biblioteca do Congresso. Eles também desenvolveram um programa chamado Thin Thread, que permite que computadores examinem o material em busca de palavras-chave, e eles coletam os registros de contas e os números de telefone que foram discados por todos no país. Em violação às leis de comunicação, ATT, Verizon e BellSouth abriram seus registros eletrônicos para o governo. No auge de sua insanidade, a Stasi na Alemanha Oriental estava espionando 1 de cada 7 cidadãos. Os EUA agora estão espionando 7 de cada 7.

11. Agora você pode ir para a cadeia nos Estados Unidos simplesmente por falar. No final de julho deste ano, o ativista ambiental Tim DeChristopher foi condenado a dois anos de prisão por sua declaração repetida de que a proteção ambiental exigia desobediência civil, ou seja, não violenta. Imagino se o mesmo juiz, Dee Benson, também teria colocado Rosa Parks e Mahatma Gandhi na cadeia, se estivesse por ali.

12. Finalmente, o meu favorito, que também ocorreu em julho de 2011. É um pequeno incidente, mas de alguma forma é o símbolo do que aconteceu com a América durante os últimos 60 anos. A polícia da Geórgia fechou uma barraquinha de limonada de três meninas, com idades entre 10-14, que estavam tentando economizar para uma viagem a um parque aquático local. A polícia disse que elas não sabiam o que tinha na limonada, e, além disso, que as meninas precisavam de uma licença de negócio, uma licença de vendedor ambulante, e uma autorização de alimentos, a fim de manter o negócio. As licenças, por sinal, custam US $ 50 por dia ou US $ 180 por ano.

Eu vou parar com 12 exemplos, mas como eu disse, nós poderíamos ficar aqui a noite toda com esse tipo de dados.

Apesar de não entrar na questão da identidade negativa por si só, o escritor francês Denis Duclos, que é diretor de um prestigiado instituto de pesquisa em Paris, o CNRS, relacionou o problema da obsessão em ter um inimigo, e da violência que resulta disso, em seu livro de 1994, Le complexe du loup-garou, o complexo de lobisomem. Em seu epílogo da edição de 2005, ele escreve que a América sempre dependeu de uma figura como o lobisomem, uma sombria besta selvagem que supostamente quer destrui-la. A besta muda de conteúdo, ele diz, mas a forma é sempre a mesma. No centro disso há o medo terrível que os americanos têm do vazio, que é uma ansiedade de não existir, e que disfarçam com um otimismo hiperativo. Uma sociedade curiosa, ele escreve; um povo que realmente não sabe quem eles são. Tal como os romanos, eles sempre se veem sob o cerco, o que poderia desencadear num populismo fascista. "O medo americano do monstro sempre marcou sua história, seja este existindo no interior ou no exterior. Isto leva a isolar o país em uma espécie de psicose coletiva que só pode contribuir para a instabilidade internacional".

Que é como a maior parte do mundo nos vê, é claro: uma pesquisa internacional de alguns anos atrás, que fez a pergunta: qual nação você acha que é a maior ameaça à paz mundial, resultou na nomeação dos Estados Unidos como de longe o candidato óbvio. Escrevendo na revista Der Spiegel em agosto passado, Jakob Augstein argumenta que os EUA são basicamente um estado falido, realmente não são mais parte do Ocidente, e que a Europa necessita se proteger, e manter distância do que é uma cultura política muito diferente, e aparentemente insana. Sua evidência para esta afirmação, e para a desintegração social dos Estados Unidos, é tristemente familiar. "Não há", ele conclui, "libertação à vista."

Algum tempo atrás eu recebi um e-mail de um fã que escreveu: "Acabei de ler The Twilight of American Culture e Dark Ages America. Quero agradecer a você por seus livros brilhantes e sem sentido. Achei este comentário bastante divertido, porque é claro, o cara estava certo: Os livros são inúteis no que eles não têm capacidade de mudar qualquer coisa. O que significa saúde mental em um caso individual? Pelo menos isto: que a pessoa saiba sua narrativa pessoal, seja capaz de vê-la de fora, como é, e como resultado dessa transparência, compromete-se a fazer algo diferente. Talvez o mesmo seja verdade de uma nação, ou de uma civilização, eu não sei. Mas o que eu sei é que há muito pouca compreensão, nos Estados Unidos, sobre qual é a narrativa subjacente, ou mesmo se há uma narrativa subjacente. Há também muito pouco interesse em pensar sobre a identidade nacional, ou a falta da mesma, de modo mais do que superficial, tal como é provido, por exemplo, pelo New York Times. Em tal situação, a mudança simplesmente não é possível, as chances de que vamos continuar neste caminho inconsciente são esmagadoras. Nesse sentido, meu trabalho é realmente inútil. Como escritor e crítico social, eu não posso impedir o avião de cair, ninguém pode. Eu estou um pouco como o engenheiro que examina os destroços, localiza a caixa preta, a desmonta, e escreve o relatório, o post mortem. E isso, creio eu, tem algum pequeno valor. Pois nós finalmente precisamos saber Por que a América falhou.


[i] NT: Forma pejorativa de se referir aos árabes.
[ii] NT: No original, “tarring and feathering”, que se refere a uma prática usada como punição não oficializada em que se derramava piche seguido de penas sobre uma pessoa.
Postado por Janos Biro às 07:55

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Olá,

Acho que o mais interessante no texto é entendê-lo como uma crítica à cultura civilizada como um todo, e não à cultura estadunidense especificamente. Os EUA são apenas o vetor de propagação. Em outros textos, Morris compara os EUA ao império Romano.

Outra crítica interessante o autor faz, e que não aparece neste texto, é que o movimento Tea Party e o movimento Occupy, por mais opostos que pareçam, são impulsionados pela mesma ideia de que os valores originais dos EUA foram deturpados, como se a culpa fosse de grupos de interesse, e não da cultura como um todo. Isso explica porque o autor é tão pouco conhecido.

Outra coisa é que o autor estudou religião. Ele compara a crença dos estadunidenses de que são um povo escolhido, com o princípio expansionista das religiões ocidentais.

"Riqueza material infinita baseada no esforço individual é o ideal estadunidense e o desejo de mudar esse paradigma é praticamente nulo. Inclusive os pobres abraçam este mesmo sonho, motivo pelo qual John Steinbeck notou que estes viam a si mesmos como 'milionários temporariamente na falência'".

"Uma sociedade em que os fundamentos são a busca de status e a aquisição de objetos não pode funcionar".

"O psicoterapeuta Douglas LaBier, de Washington, tem um nome para esse tipo de comportamento, que ele afirma ser comuníssimo nos Estados Unidos: síndrome da falta de solidariedade".

"Basicamente, é um termo elegante para designar quem não dá a mínima para ninguém senão para si próprio. LaBier sustenta que solidariedade é uma emoção natural, mas logo cedo perdida pelos americanos porque nossa sociedade dá foco nas coisas materiais e evita reflexão interior."

"Isso se manifesta numa espécie de ausência de alma, algo de que a capital Washington é um exemplo perfeito. Se você quer ter um amigo na cidade, como Harry Truman disse, então compre um cachorro".

Os EUA foram os responsáveis por fazer as pessoas do mundo inteiro acreditarem no imperativo da mobilidade. "Berman nota que as estatísticas mostram que a imensa maioria das pessoas nos Estados Unidos morrem na classe em que nasceram. Ainda assim, elas acham que um dia vão ser Bill Gates. Têm essa 'alucinação', em vez de achar um absurdo que alguém possa ter mais de 60 bilhões de dólares, como Bill Gates".

Sobre ter mudado para o México: "Há uma decência humana no México que não existe nos Estados Unidos". Porém, creio que o problema é sistêmico.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Explicações? Menosprezaram a história de luta do brasileiro



Lúcio de Castro

Lúcio é carioca, formado em História e Jornalismo, e hoje trabalha como repórter da ESPN Brasil e comentarista do Bate-Bola 1ª edição
18/06/2013

Explicações? Menosprezaram a história de luta do brasileiro
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Juan Arias é um premiado e competente intelectual. Homem de formação sólida, ocupou nos últimos anos ao posto de correspondente do bom jornal espanhol El Pais no Brasil. Sua inquestionável formação não o livrou de um imenso lapso ao reportar e analisar as manifestações que pipocam Brasil afora nos últimos dias. No dia 12 de junho, com os protestos engatinhando e parecendo ainda apenas serem contra um aumento de vinte centavos nas passagens, abriu seu relato com as seguintes palavras: "Brasil, pouco acostumado a protestar na rua, desta vez se levantou nas principais cidades do país contra o aumento das passagens do transporte público."

O jornalista desconhece a essência do que construiu boa parte da história do Brasil: sangue, protestos, manifestações, revoltas. Dezenas, centenas, milhares de revoltas. Nada por aqui foi conquistado sem reivindicação e muita revolta. Justiça seja feita, não está sozinho em sua desinformação. Muita gente boa por aqui acredita nessa história oficial e nesse chavão que pretendeu rotular o povo brasileiro como "bundão". Um rótulo conveniente e disseminado não à toa por quem tem tal interesse.

Um olhar sobre a história do Brasil é mergulhar na história de um povo que lutou e luta para driblar o projeto original (ou a ausência dele) que estava previsto desde sempre para ele: ser mão de obra desqualificada, ser escravo, ser trabalhador braçal sem direitos. E se hoje esse projeto está desmoralizado, e o país tem um papel importante no mundo, é porque muito sangue rolou. E esse projeto não foi aceito com conformação.

Desde sempre estava expressa a vontade soberana de um povo em não aceitar dominações vindas de fora. Já vão longe, mais de quatro séculos, a Confederação dos Cariris, a Revolta da Cachaça, do Sal, e tantas outras. Vieram os Mascates, os confederados do Equador, a revolução Pernambucana. As Conjurações. Mineira, Carioca, a Conspiração dos Suassunas, Praieira, Mascates. Diferentes razões, muitas vezes diferentes camadas sociais, mas, na maior parte delas, o sentimento de ser senhor da própria história.

Foram dezenas de revoltas indígenas. Outras tantas escravas e negras. O Maranhão com seus Balaios, a Bahia de tantas e inúmeras revoltas lutas pela independência, da Conjuração, dos Malês, da Sabinada, dos Guanais e da Guerra do Conselheiro, Belém e seus Cabanos, o Rio de João Cândido contra a Chibata e da Vacina e tantas outras que adoro o nome, como "Mata-Galegos", o sul da Farroupilha, do Contestado, as revoltas paulistas. Mesmo as mulheres brasileiras, muito a frente do seu tempo, viveram em Natal sua revolta. Tem tanta coisa, tanta história de revolta em nossas páginas que forçosamente irei cometer o pecado da omissão.

Com uma história dessas, por que diabos esses caras acreditaram quando tentaram nos jogar a pecha de bundões? Se a intenção era alimentar a conformidade, falharam. Basta lembrar mais uma, que já ia sendo omitida: a Revolta do Vintém, no Rio do fim do século XIX, que tanto tem a ver com o que acontece agora. Começou contra o aumento do bonde e virou algo bem maior.

Aqui vale a pequena digressão: a história da polícia militar e sua criação nesse país, a mesma que agora reprime passeatas sem o menor preparo e com inacreditável violência, a mesma que mata e tortura todos os dias na periferia (com as exceções de praxe), está intimamente ligada aos protestos de nossa gente. A primeira polícia nasce no Rio, sempre ao lado da corte. Depois, nos anos 30 do século XIX, vem as demais, com o intuito inicial e preponderante de reprimir as revoltas populares, que gritavam nas ruas contra a legitimidade do monarca que chegava. Nasce com o DNA e a função preponderante de bater em pobre, preto e povo. Com a certeza de que isso não é crime. A certeza dessa impunidade cresce nos anos de chumbo. O que se vê agora é apenas a sequência dessa trajetória. Que enquanto não for refundada, enquanto não se passar a limpo a história do país, dos crimes de estado, sempre será assim.

Voltemos as revoltas que marcam nosso povo. Veio o século XX e mais uma vez o povo tava nas ruas. Sempre. Perdoai, falar que é uma gente "pouco acostumada a protestar nas ruas" é desconhecer o histórico da mudança de uma capital. Pois mudaram uma capital, construíram uma cidade nova no meio do nada com a ilusão de que os governantes estariam livre de pressão. Governar no Rio não era fácil...Panela de pressão. Povo na rua o tempo inteiro...

Por uma dessas ironias, deixaram o projeto para Niemeyer. Humanista de corpo e alma, pensou com sua pena lugares e grandes vãos para protestos, para que o povo ocupasse. Num de seus desenhos, sentenciou que um dia a praça seria do povo e que nesse dia os direitos humanos e as liberdades "seriam conquistas irreversíveis". Mais uma vez o projeto de alijar o povo dava errado. Brasília virou um caldeirão de protestos semanais. Os anos de chumbo, muita gente boa caindo, cem mil nas ruas... A redemocratização, Diretas Já, milhões na rua. Tem pouco tempo, e o povo botou um presidente pra fora. Bundões? Podem querer relativizar, dizer que foi por isso, aquilo, mas sem a gente das ruas gritando, fazendo sua hora, nada teria acontecido...

E eis que estamos na rua novamente...A dificuldade de alguns em entender o que está acontecendo é o desconhecimento de nossa história, de nossa gente, de nossa essência.

O temor de muita gente boa em ver o que é legítimo com alguma desconfiança tem suas razões. O medo de desandar, dos oportunistas, daquela turma que marchou com Deus pela liberdade. (O temor de ter que relembrar a genialidade de Zé Keti: "Marchou com Deus pela democracia/ agora chia/ agora chia"!). Da mesma turma que outro dia pedia que a polícia metralhasse a favela e agora reclama. Quando o clima é de barata voa e a boiada estoura, os oportunistas sempre tentam fincar sua bandeira. Num país que nos últimos anos fez imensos progressos, a brecha para fincar a bandeira do oportunismo andou pequena. Mas nada deve ser temido. Povo na rua nunca deve ser razão de temor. Mesmo as eventuais distorções não podem assustar. A história não tem pressa. Mesmo a eventual despolitização que tentam impor ao movimento não passa.

Chegamos aos dias de hoje. Nesse caldeirão que tanto dificulta a análise dos nossos cientistas sociais, um elemento não pode ser esquecido e é dele que tratamos até aqui: menosprezaram demais um povo que tem em seu DNA os protestos e a revolta. Acreditaram na história do povo bundão. Valendo-se de bons ventos da economia, de inegáveis indicadores que melhoravam, iniciou-se uma farra. Cujo ápice tem a ver com nossa seara de esportes. Em nome da Copa do Mundo, em nome da Fifa, foram entregando tudo, passando por cima da lei. É claro que não digo aqui que esse é o estopim. Seria ridículo. Mas isso é elemento forte desse caldeirão. A farra do boi que some com milhões e constrói obras faraônicas, a volta do estado de exceção, com remoções à margem da lei imperando. Um templo sagrado destruído no Rio igonorando a lei como foi o Maracanã enquanto o mandatário estava em Paris de guardanapo na cabeça. Não foi uma nem duas vezes que escrevi aqui em textos antigos ou falei em nossos programas que isso teria uma resposta da população, que era uma falta de conhecimento de tudo achar que iriam seguir brincando e sumindo com dinheiro e nada aconteceria. Vinha gente de fora e debochava, falando em "dar um chute no traseiro. Elimina-se o povo da festa. Em algum momento vem a conta. Estive nas ruas hoje. Lembrava do Maracanã quando o povo xingava o Cabral...Escrevi tantas vezes que a vingança viria...Tinha motivos para estar especialmente comovido com tudo.

Como foi possível um governador destruir um símbolo por cima da lei e entregar ao amigo que empresta jatinhos? Como foi possível um prefeito ignorar lei ambientais, modificar, para permitir empreendimentos imobiliários, campos de golfe? Mais incrível foi terem achado que iam fazer tudo isso e não prestariam contas nas ruas.



Foi Eduardo Galeano que exemplarmente definiu o que foi o período na mineração no Brasil, dizendo que "o ouro deixou buracos no Brasil, templos em Portugal e fábricas na Inglaterra". Tantos anos depois, nos vemos diante do mesmo fenômeno. Agora é uma copa de confederações, uma copa do mundo, que vai deixando buracos no Brasil, ouro na Fifa e na conta de alguns.

Dá pra imaginar o que passa na cabeça da presidenta a essa altura. Se arrependimento matasse...Ah, essa copa...Ah, essas Olimpíadas...Dona de bela biografia de luta e resistência, tem mil pecados e responsabilidades nisso tudo, principalmente porque não soube dizer não a uma situação e acordos que herdou. Até ter que engolir o aperto de mão com José Maria Marin. Se omitiu em tantas coisas... E a óbvia maldade risonha de Blatter rindo ao botar fogo na vaia do estádio. Quem muito se abaixa... Quem muito faz concessão. Nessa história toda, está ficando sozinha com o ônus. Lula, que depois de rasgar sua biografia perdeu o pudor em tudo, segue rindo e lucrando com a copa, em suas viagens e palestras para empreiteiras. Fazendo lobby pra Ricardo Teixeira, Marin...Governadores, políticos, todos...Dilma ficou com o ônus. Pediu isso ao se omitir. Deixou Cabral rasgar a constituição e passar por cima dela no Maracanã. A alma dos removidos pesa, os milhões consumidos em elefantes brancos enquanto o povo pena nos hospitais e escolas debilitadas, no transporte. A conta chegou.

Está sendo cobrada por um povo acostumado a fazer isso. Por mais que ainda queiram dizer que não.

Ps- depois de testemunhar tudo que vi, sei que foram muito mais de cem mil. Ainda tenho muitas perguntas para fazer, tentar responder, várias coisas que não entendi ainda. Os próximos dias vão dizer, ajudar a entender. Mas tenho certeza de uma coisa: o DNA de um povo que forjou sua história com muita rua e luta foi o decisivo. Muitas vezes brutalmente reprimido por um estado que sempre o deixou à margem. Se reinventando nas brechas, até a próxima luta ou revolta. Não menosprezem. Não tentem distorcer a história dele.

Quanto a Fifa, melhor botar as barbas de molho. Acharam que vinham para um passeio. Teriam um estado de exceção, removeriam casas, debochariam, dariam pé na bunda. Sempre com a cumplicidade colonizada e desonesta de alguns serviçais que vão levando suas generosas partes. Destruiriam nossos templos e nos deixariam de fora da festa. O povo no seu lugar de hábito mandou avisar que vai participar da festa. Do seu jeito. Como ele decidir. Soberano.

Os mandamentos do manifestante



Os mandamentos do manifestante
Kiko Nogueira 16 de junho de 2013 dcm


Um pequeno manual para quem, depois de reclamar pelo Facebook, decidiu sair à rua.

(Lista elaborada por ANDRES VERA, o prodígio dos Bálcãs)

01. Vá de transporte público. Não é um apelo sustentável. É prático. Estacionar o carro próximo à concentração inicial e acompanhar a marcha em seu trajeto por 5 horas significa caminhar 10 quilômetros – descontada a volta.

02. Use tênis. Roupas confortáveis são fundamentais para aguentar a longa caminhada. E para correr. Ainda que a repercussão negativa da violência nas primeiras manifestações deva apaziguar os ânimos, é bom estar preparado para se afastar o quanto antes de qualquer confusão.

03. Capriche nos acessórios. Neste caso, nada de bolsas ou penduricalhos. Dê preferência a lenço ou máscara de pintor para proteger o rosto do gás lacrimogêneo e óculos de natação para proteger os olhos de estilhaços.

04. Leve vinagre. Embebido no líquido, um lenço sobre o rosto ajuda a neutralizar o efeito do gás lacrimogêneo. Melhor de tudo: vinagre, apesar de tudo, não é crime.

05. Não use lente de contato. A substância química do gás lacrimogêneo fica presa na lente, aumentando a irritação nos olhos. Prefira óculos de grau.

06. Ande em grupo. É mais seguro e garante sua integridade. Na última manifestação, registros mostraram a polícia espancando um “manifestante” solitário. Era um jornalista.

07. Filme o máximo que puder. Registrar sua participação na íntegra eventualmente leva ao registro precioso de abusos cometidos pela polícia. Um tutorial completo sobre como usar a câmera você pode ler abaixo.

08. Não filme indiscriminadamente. A verdadeira “arma branca” da última manifestação foi a câmera do celular. Encarar de perto formações policiais da tropa de choque costumava evá-los, paradoxalmente, a reagir agressivamente.

09. Não filme o rosto dos líderes da manifestação. Eles temem represálias posteriores da polícia. Os mais exaltados certamente irão censurá-lo. Pichadores em ação também não gostam de cinegrafistas.

10. Seja pacífico. Diante de confronto com a PM ou atos de depredação, afaste-se. Provocar e incitar os policiais ou promover qualquer destruição desvirtua a causa (seja lá qual seja a sua) e legitima a reação desproporcional da polícia.

Boa manifestação.

Como usar sua câmera

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=EhfH7-iM4Lg

Muitas dessas imagens estão sendo usadas como prova em casos de abuso de autoridade. Não existe passeio no parque com a PM. Sua câmera é uma arma e deve ser usada de forma responsável. (Dê também uma olhada no vídeo dos protestos no Maracanã, ocorridos no domingo, ao pé deste artigo).

O movimento Occupy americano fez um ótimo tutorial com dicas de como registrar um protesto. O vídeo acima traz essas sugestões de maneira clara e límpida.

Basicamente:

Prepare-se: conheça seu equipamento. Carregue a bateria. Desligue os dispositivos que gastam energia. Se sua câmera tiver alça, envolva-a em torno do pulso.
Registre data e hora.
Mantenha-se em segurança. Preza sua integridade física. Evite confusão. Mas, em caso de confronto, continue filmando! Na medida do possível, não banque o heroi.
Trabalhe em equipe. Não ande sozinho. Tenha alguém com você para ajudar em caso de problemas.
Coloque o seu vídeo no YouTube com um título direto. Por exemplo: “Colunista do Diário é atingido por bomba da PM”. Use tags como MPL, Movimento Passe Livre, Protestos etc.
Filmou algo comprometedor e que você acha que pode trazer problemas legais? Consulte um advogado.


https://www.youtube.com/watch?v=l2nFIZO3qjA&feature=player_embedded

domingo, 16 de junho de 2013

ODE À BADERNA – por Leandro Fortes


ODE À BADERNA – por Leandro Fortes (http://on.fb.me/17N6Cra)

Nada mais assustador para um conservador do que a baderna.

Um dos discursos mais comuns à direita brasileira é esse: peçam o que quiserem, digam o que quiserem, mas não façam baderna. E, sobretudo, não atrapalhem o trânsito. Não por outra razão, qualquer cobertura da mídia nacional sobre passeatas, manifestações e grandes movimentações de massa acabam, sempre, em manchetes de trânsito. Os camponeses foram a Brasília pedir reforma agrária? Atrapalharam o trânsito. As mulheres da Marcha das Margaridas invadiram as Esplanada dos Ministérios para pedir saúde e educação no campo? Provocaram engarrafamentos. A moçada parou São Paulo para reclamar do aumento da tarifa do transporte público? O promotor mentecapto, parado no trânsito, pede a PM para espancar e matar os manifestantes. Afinal, o filhinho dele está na escola. Mas como chegar para pegá-lo a tempo, se os bárbaros impedem o trânsito?

Quando, além de parar o trânsito, os manifestantes fazem baderna, aí não! Aí já é demais! Não pode ter baderna. Tem que ser como aquelas passeatas pela paz na Zona Sul do Rio de Janeiro, todos de branco na Avenida Atlântica, copos-de-leite às mãos, o trânsito compreensivelmente parado para a procissão de cidadãos contritos. A polícia, claro, à distância, com as sirenes reverencialmente desligadas. Tudo assim, sem baderna, dentro da lei e da ordem. A manifestação do mundo ideal.

Pena que para quem pega quatro conduções por dia e gasta em média quatro horas dentro delas (ou esperando por elas) a realidade seja outra. No mundo do transporte público não tem hakuna matata. O pau come no ponto, no ônibus lotado, nas estações de trem e metrô diariamente conflagradas. Para o usuário de transporte coletivo, todo dia tem confusão e baderna, mas é difícil explicar isso para o mundo da Avenida Paulista. Para a classe média bem motorizada, as demandas do transporte coletivo são subterrâneas, confinadas a um universo específico sobre o qual só se tem notícia quando motoristas e cobradores entram em greve. É o dia em que a patroa de Higienópolis se inquieta porque a empregada vai chegar mais tarde ou, horror dos horrores, nem vem trabalhar. Quem vai fazer almoço? E os petizes, sob a guarda de quem ficarão no playground?

E, de repente, vem a baderna.

Multidões de cidadãos, jovens, velhos, brancos, negros, empregadas, office-boys, desempregados, professores, trabalhadores, trabalhadoras, desocupados. Baderneiros. Quebram ônibus, depredam vidraças, picham paredes, revolvem a cidade e deixam marcas no asfalto.

O horror, o horror!

Então, todos se unem contra a baderna. Podem pedir o que quiserem, podem se manifestar, cruzar as ruas com bandeiras, mas, por favor, não atrapalhem o trânsito. Políticos de todos os matizes se unem para bradar: baderna, não! Antigos militantes de esquerda que ainda acham um lindo momento histórico as barricadas de Paris, em 1968, estão, ora vejam, revoltados com a baderna. Pedras, paus, coquetéis molotov, é preciso conter os bárbaros e acabar com a baderna. Não interessa se eles vivem em panelas de pressão, amontoados em latas automotivas superlotadas, se ganham uma miséria e, agora, terão que pagar mais 20 centavos pelo mesmo sofrimento diário. O que importa é que eles, baderneiros, estão atrapalhando o trânsito.

Então, a solução é descer a porrada. Passar a borracha no lombo desses baderneiros, enfiar-lhes o cassetete na cuca, tocar o gado revoltado para o corredor polonês.

Que a violência policial contra os manifestantes venha do governo de São Paulo, não causa espécie a ninguém. O PSDB é um partido de direita, o governador Geraldo Alckmin é um numerário da Opus Dei, organização católica de extrema-direita, e a PM de São Paulo é um substrato intocável do aparato policial-militar herdado da ditadura. Os policiais que tomaram o centro da cidade para espancar e prender manifestantes e jornalistas são os cães de guarda desse sistema. Não há disfunção alguma no que estão fazendo: eles existem, basicamente, para isso. Para tocar a negrada a pau, para dar paz a Higienópolis e garantir a brisa fresca de domingo nos Jardins. Dessa gente e de sua guarda pretoriana devem cuidar, nas próximas eleições, o povo de São Paulo.

Mas, onde está o PT? Onde está o prefeito Fernando Haddad, este que já avisou, de Paris, pelo Twitter, que não irá “tolerar vandalismo”? Onde estão os vereadores, deputados e senadores do partido que nasceu nas monumentais greves do ABC paulista, em plena ditadura militar, que os chamava, ora vejam, de baderneiros? Nada. Ninguém de braços dados para enfrentar a tropa de choque. Todos quietinhos, com seus militantes sempre tão subordinados, para saber o que vai sair no Jornal Nacional e na Veja de domingo. Até lá, melhor deixar as barbas de molho. Para os que ainda têm barba, claro.

Nessa vergonhosa escalada de violência tocada pelo governo tucano de São Paulo, não podia faltar, claro, o apoio da mídia. Não há manifestantes para a ela, mas só baderneiros. Manifestantes são franceses, suecos, turcos, chineses. No Brasil, são vândalos e desocupados interessados em depredar o patrimônio público, como se a imprensa brasileira, hoje povoada de engomadinhos formados em cursinhos de trainee, alguma vez tenha se preocupado, de fato, com a segurança física dos ônibus usados pelos pobres.

Perdão, gente indignada com os vândalos. Mas entre a hipocrisia e a baderna, eu fico, alegremente, com a segunda.

Revista Brasileira de História - A LÓGICA DA SUSPEIÇÃO


Revista Brasileira de História

A LÓGICA DA SUSPEIÇÃO:
SOBRE OS APARELHOS REPRESSIVOS
À ÉPOCA DA DITADURA MILITAR NO BRASIL (*)

Por Marionilde Dias Brepohl de Magalhães (http://bit.ly/13PcWbS)

“Do rio que tudo arrasta se diz que ele é violento.
Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”
(Bertold Brecht)

INTRODUÇÃO

Para muitos intelectuais que se propõem analisar a ditadura militar no Brasil, a questão da tortura é especialmente destacada; segundo diversos trabalhos, essa prática constituiu o núcleo do sistema repressivo: de uma ação arbitrária por parte de alguns interrogadores, transformou-se em método científico, criteriosamente planejado, com a finalidade de obter informações sobre atividades e/ou indivíduos considerados inimigos internos da nação (1).

Através da tortura, garantiu-se também a eliminação de muitos líderes de movimentos de resistência e de oposição, o que permitiu ao regime orientar suas ações sem que precisasse buscar, para suas decisões, qualquer legitimação da sociedade civil.

Neste trabalho, procuraremos destacar um outro mecanismo repressivo de que se valeu o regime militar no Brasil, e que em muitos casos demonstrou ser mais eficiente e produtivo:
a repressão preventiva, que consistia na vigilância e controle cotidiano sobre a sociedade, prática consolidada pela criação do que foi denominado “Comunidade de Informações”.

Ao destacarmos este dispositivo, buscaremos contribuir ainda para a compreensão de atores políticos que normalmente são pouco enfatizados pelos estudiosos desta temática: referimo-nos àqueles que, em diversos sistemas políticos e mesmo em diversas relações sociais, não pertencem às elites dirigentes nem aos que a ela fazem oposição, mas demonstraram-se dispostos a colaborar, de forma direta ou indireta, com os poderes instituídos.

A COMUNIDADE DE INFORMAÇÕES

Com o advento da ditadura militar no Brasil, e em nome da “Segurança Nacional”, instalou-se um complexo sistema repressivo para combater a subversão e, ao mesmo tempo, reprimir preventivamente qualquer atividade considerada suspeita por se afigurar como potencialmente perturbadora da ordem.

À diferença dos aparatos repressivos preexistentes, em que as unidades de força militares ou policiais guardavam autonomia de ação entre si, este pretendeu consolidar uma estrutura única e coesa, como uma rede inextricável, cujas ações eram coordenadas a partir de um núcleo central, o “Serviço Nacional de Informações – SNI”.
Criado em 1964, este organismo subordinou rapidamente todos os outros órgãos repressivos, como os centros de informações das três armas, a polícia federal e as polícias estaduais.
Para integrá-los e harmonizar suas ações, criou-se o “Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, DOI-CODI”, uma instituição tornada oficial em 1970, que aglutinava representantes de todas as demais forças policiais. Dotada de recursos financeiros e tecnológicos, suas atividades eram estrategicamente planejadas e orientadas pela lógica da disciplina militar, com vistas a enfrentar o que seus próprios agentes entendiam como uma “guerra revolucionária”.

A seleção de pessoal para o exercício de funções repressivas submetia-se a um conjunto de critérios cuidadosamente elaborado, seguindo uma rígida hierarquia: no topo da pirâmide situava-se o presidente da República e como seu ‘staff’ para assuntos de segurança, o Conselho de Segurança Nacional e a equipe executiva do SNI.
A este organismo subordinavam-se os órgãos de repressão alocados em todas as regiões do país, cada um deles coordenado por um militar.
Para assessorá-lo, contrataram-se “analistas de informações”, concebidos como a elite do sistema;
estes subsidiavam seus superiores com dados e informações já processados e recomendavam programas e planos de ação. Para tanto, tinham de freqüentar cursos ministrados pela “Escola Nacional de Informações – EsNI”, uma instituição cujos currículos foram delineados com o apoio técnico de profissionais ligados às áreas de segurança da Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos.

No estrato intermediário situava-se o interrogador, função que se dividia em duas atividades: a de responsável direto pelos interrogatórios e a de monitor.
Este se escondia atrás de um espelho falso para observar o andamento do interrogatório e, por meio de um aparelho de transmissão, sugeria perguntas, técnicas de intimidação, hora de interromper a sessão, etc.

Segundo o depoimento de um militar que realizou um curso sobre técnicas de informações no Panamá,

“Os interrogatórios, em geral, eram feitos por pessoal mais especializado, e uma das técnicas utilizadas era fazer cansar o interrogado. Por exemplo, começa-se o interrogatório às duas horas da tarde e, às cinco horas da manhã seguinte, o indivíduo ainda está sendo interrogado. (…) Em todos os cursos de informações aprende-se a fazer isto. Uns chegam e ameaçam: ‘Você vai sofrer punição por isso’. Aí, o outro diz: ‘Não, eu sou seu amigo. Ele é muito bruto, muito nervoso’. Então procura ser amigo do interrogado para colher informações. Quando fica padrinho, amiguinho, chega outro mais violento, mais zangado: ‘Nada disso, você tem de dizer a verdade. O que ia fazer com o fulano?’ Dali a pouco aparece outro. Então, faz-se ele repetir vinte vezes a mesma coisa” (2).

Abaixo dos interrogadores, com uma formação menos especializada, estavam os captores – policiais responsáveis pelo aprisionamento dos suspeitos -, o pessoal administrativo e o de carceragem (3).

Em paralelo a estas atividades, e exercendo um maior ou menor poder de influência sobre aqueles, estavam os “informantes”, aos quais podia-se, de acordo com sua competência, delegar também a função de “analista”, “interrogador” ou “captor”.

Para efeitos de confiabilidade, estes homens denominados “fontes” eram classificados segundo uma escala de seis níveis:

“Há seis níveis de fontes e seis graus de veracidade do informe: A,B,C,D,E,F e 1,2,3,4,5,6. Um informante A1 é um informe de uma fonte sempre idônea e com grande probabilidade de verdade. (…) Se o informe é F6, significa que não pode se saber a idoneidade da fonte, pode ser de um maluco qualquer (…) O grosso caía no C. Quer dizer, fonte razoalvelmente idônea e o informe tem possibilidades de ser verídico. O trabalho do analista é juntar tudo numa pasta ou, agora, num computador, e fazer uma análise (…) o que ele dá ao chefe do escalão e com o máximo que pode alcançar de precisão” (4).

Geralmente, o agente do tipo ‘C’ era do próprio exército, na maior parte das vezes um sargento formado pela EsNI, o qual, vestido à paisana, infiltrava-se nos mais diversos locais para coletar o maior número possível de dados.

Os agentes do tipo ‘D’, ‘E’ e ‘F’ eram, em sua maioria, informantes eventuais (remunerados ou não) ou informantes “espontâneos”, vale dizer, pessoas que possuíam certa cumplicidade com o regime e que voluntariamente se dispunham a cooperar, fosse por convicção, fosse para receber algum apoio de caráter pessoal.

A técnica de infiltração consistia em suspeitar, em princípio, de todos, coletar e arquivar quaisquer dados obtidos e entregá-los, por escrito, à polícia.
Ali estes seriam classificados com palavras-chave extremamente sugestivas, por caracterizarem uma gradação em que se colocava num extremo o inimigo mais perigoso, e em outro, aqueles que estariam, provavelmente, dispostos a cooperar.

Obedecendo a esta ordem, cite-se um exemplo desta técnica de arquivamento: “terrorista”, “fanático comunista”, “esquerdista” ou “socialista”, “subversivo”, “autor de atos indiretamente subversivos”, “inocente útil”, “idôneo” ou “confiável”.

Além de aumentar a eficiência do processo repressivo, os informes obtidos podiam também assumir um papel preventivo, uma vez que instruíam os poderes sobre as tendências, em cada microconjuntura, dos movimentos de oposição.

Esta prática adquiriu relevância após 1968, quando os militares assumiram uma posição mais profissional, se assim podemos dizer, com relação às técnicas de repressão.

Segundo o depoimento de um militar que foi chefe do SNI nos anos setenta, a tortura devia ser preterida em favor da “infiltração” pelo menos por dois motivos:
primeiro, por macular a imagem do governo e, segundo, porque os próprios suspeitos já haviam desenvolvido uma certa experiência que lhes permitia driblar os interrogadores (5).

Isto se confirma no trecho de um relatório do SNI, redigido em 1969:

“Os subversivos têm se negado, cada vez mais, a dar quaisquer informações. Os últimos elementos detidos, apesar de submetidos aos mais cerrados interrogatórios, negaram-se a declarar até o próprio nome. Decorrido um determinado tempo, falam sem problemas, mas porque este é o tempo demarcado para que os demais companheiros saiam dos seus aparelhos” (6).

Se a tortura tinha ainda alguma utilidade, conforme um militar que esteve à frente do DOI-CODI entre 1972 e 1974, era no sentido de intimidar aqueles que não estavam preparados para aquela guerra:

“O medo é o grande auxiliar do interrogatório. Os ingleses, por exemplo, recomendam que só se interrogue o prisioneiro despido porque, segundo eles, uma das defesas do homem e da mulher é a roupa, e tirando a sua roupa, fica-se muito agoniado, num estado de depressão muito grande.

Depois (de um interrogatório) grande parte abandona suas atividades e retorna à boa vida de pequeno burguês. (…) Os frios, evidentemente que não. Esses eram muito estruturados, muito rancorosos, e só pensavam na volta, no troco. Quando liberados, retornavam ao grupo terrorista” (7).

Daí se depreende que a tortura, além de servir como técnica para obter algumas informações, funcionava também como instrumento para desmobilizar as oposições por meio da intimidação, atingindo não apenas aqueles que eram a ela submetidos, mas também, e talvez principalmente, os grupos e movimentos de que faziam parte tais indivíduos, uma vez que a experiência com os interrogatórios era transmitida aos demais.

Já a infiltração, levada a efeito pelo informante (remunerado ou espontâneo, profissional ou amador) era uma prática sigilosa que, ademais, arregimentava indivíduos dispostos a colaborar, fosse para obter algum proveito pessoal ou porque, devido a propaganda, acabava por identificar-se com o regime.

A seguir, procuraremos entender os vínculos que se formaram entre os informantes e a cúpula do sistema.

A FABRICAÇÃO DO INFORMANTE

No que se refere aos aparelhos repressivos, pode-se detectar alguns mecanismos, discursos e procedimentos que se inspiraram, seguramente, em experiências totalitárias [Nazi-Fascistas], notadamente a experiência da propaganda política e o emprego do terror…

Não estamos nos referindo à propaganda do governo sobre suas intervenções oficiais na esfera pública, que eram veiculadas nos jornais de consumo difundido (9).
Também ela se afigurava como um recurso para a ampliação das bases de apoio ao regime, mas não era neste espaço, obviamente, que os militares buscavam conquistar colaboradores para as práticas repressivas.

Referimo-nos a uma propaganda de alcance restrito, dirigida a uma pequena parcela da população por meio de documentos sigilosos, que eram dados a conhecer segundo a confiabilidade que o regime dispensava aos receptores, e que possuía uma finalidade mais organizativa.

Para entendermos esta máquina de propaganda recorramos, primeiramente, ao historiador Pierre Ansart que, analisando as diferentes feições do trabalho ideológico, instância em que é operada não a violência física, mas a violência simbólica, distingue três campos a partir dos quais os discursos são elaborados:

“a ortodoxia apoiada”, que é alcançada pela difusão de mensagens aceitas, na maioria das vezes, de forma espontânea;
“a ortodoxia consentida”, que significa uma forma organizada e sistemática de inculcação e controle sobre a opinião pública,
e “a ortodoxia terrorista”, em que os discursos racionais são substituídos por uma linguagem prenhe de mitos, com o objetivo de garantir total obediência aos poderes oficiais.
Neste nível, os indivíduos deixam de ser meros receptores das mensagens, e passam à condição de entusiastas defensores da ‘verdade’ (10).

Sob um regime autoritário, torna-se imprescindível aos poderes oficiais, além de difundir certezas, inculcar em seus governados que os valores transmitidos pelo discurso ideológico podem e devem ser representados pelos detentores do poder – apresentados não somente como governantes, mas como “protetores da nação”.

A relação que se procura estabelecer é semelhante àquela mantida com o “pai severo”, porém “protetor”. Esta depende, no entanto, de um sentimento de identidade, de ser parte de uma comunidade afetiva (a grande família, a nação, a pátria), cultuada como um ente acima de quaisquer interesses privados.

A sacralização de imagens como a bandeira, a pátria, o hino nacional, a própria história, subjaz, com maior ou menor intensidade, em todos os sistemas políticos, e pode explicar a dimensão afetiva da submissão.

Por estas razões, os poderes instituídos, mesmo num regime autoritário, elaboram uma série de mensagens que visam senão o total apoio da população, pelo menos a sua tolerância.

Orientados por esta tipologia, parece-nos plausível afirmar que o governo militar buscou, recorrentemente, o apoio ou o consentimento da população por meio de sua propaganda oficial.

Mas no que se refere aos “homens de confiança”, o trabalho ideológico pautou-se, segundo nosso entendimento, na ortodoxia terrorista.
Pois, neste nível, segundo Pierre Ansart, o terror ideológico designa “o inimigo”, que passa a ser visto como o outro [lado] da ‘verdade’, e transforma-o em ‘um objeto a ser destruído’.

Com esta linguagem,

“A ideologia oferece bem mais do que uma identificação com a lei, oferece a exaltante identificação na submissão a uma força pronta a enfrentar a violência. O apelo faz de cada qual um ser que se ultrapassa a si mesmo, arrebatado à mediocridade do cotidiano, vencendo o medo inculcado pela cumplicidade com o déspota.

O membro do grupo legitimado é obscuramente chamado a se identificar com o agente da violência e, quando a perseguição se aproximar do sujeito fanatizado, a fronteira entre a identificação com o herói e a interiorização do perseguidor se confundirá” (1978, p. 153).

A partir destas considerações, podem ser detectados os vínculos existentes entre a violência simbólica e a violência física.

Para os funcionários ou colaboradores da repressão, o inimigo é apresentado, cotidianamente, como dotado de uma força demoníaca, contra quem não adianta querer combater ou controlar, mas impõe-se destruir, para que assim, e só assim, seja garantido o bem-estar da sociedade.

Ainda que oculto ou mesmo desconhecido, “o inimigo” é citado cotidianamente como sempre pronto a atacar.

A linguagem empregada para designá-lo (‘perigoso’, ‘fanático’, ‘terrorista’, etc.) desperta, por sua vez, sentimentos paranóicos na sociedade, o que provoca em muitos a disposição à violência.

Esta linguagem pode ser encontrada com uma clareza meridiana nos relatórios e instruções do SNI à época do regime militar no Brasil, como por exemplo no seguinte texto, distribuído sob forma de panfleto:

“Decálogo da Segurança

1 – Os terroristas jogam com o mêdo e o pânico. Somente um povo prevenido e valente pode combatê-los. Ao ver um assalto ou alguém em atitude suspeita, não fique indiferente, não finja que não viu, não seja conivente, avisa logo a polícia. As autoridades lhe dão todas as garantias, inclusive do anonimato.

2 – Antes de formar uma opinião, verifique várias vezes se ela é realmente sua, ou seja, se não passa de influência de amigos que o envolveram. Não estará sendo você um inocente útil numa guerra que visa destruir você, sua família e tudo o que você mais ama nesta vida?

3 – Aprenda a ler jornais, ouvir rádio e assistir TV com certa malícia. Aprenda a captar mensagens indiretas e intenções ocultas em tudo o que você vê e ouve. Não vai se divertir muito com o jogo daqueles que pensam que são mais inteligentes do que você e estão tentando fazer você de bobo com um simples jogo de palavras.

4 – Se você fôr convidado ou sondado ou conversado sobre assuntos que lhes pareçam estranhos ou suspeitos, finja que concorda e cultive relações com a pessoa que assim o sondou e avise a polícia ou o quartel mais próximo. As autoridades lhe dão todas as garantias, inclusive do anonimato.

5 – Aprenda a observar e guardar de memória alguns detalhes das pessoas, viaturas e objetos, na rua, nos bares, nos cinemas, teatros e auditórios, nos ônibus, nos edifícios comerciais e residenciais, nas feiras, nos armazéns, nas lojas, nos cabeleireiros, nos bancos, nos escritórios, nas estações ferroviárias, nos trens, nos aeroportos, nas estradas, nos lugares de maior movimento ou aglomeração de gente.

6 – Não receba estranhos em sua casa, mesmo que sejam da polícia – sem antes pedir-lhes a identidade e observá-los até guardar de memória alguns detalhes: número da identidade, repartição que expediu, roupa, aspecto pessoal, sinais especiais, etc . O documento também pode ser falso.

7 – Nunca pare seu carro solicitado por estranhos, nem lhes dê carona. Ande sempre com as portas de seu carro trancadas por dentro. Quando deixar o seu carro em algum estacionamento ou posto de serviço, procure guardar alguns detalhes das pessoas que o cercam.

8 – Há muitas linhas telefônicas cruzadas. Sempre que encontrar uma delas, mantenha-se na escuta e informe logo a polícia ou o quartel mais próximo. As autoridades lhe dão todas as garantias, inclusive do anonimato.

9 – Quando um novo morador se mudar para o seu edifício ou para o seu quarteirão, avise logo a polícia ou o quartel mais próximo. As autoridades lhe dão todas as garantias, inclusive do anonimato.

10 – A nossa desunião será a maior fôrça de nosso inimigo. Se soubermos nos manter compreensivos, cordiais, informados, confiantes e unidos, ninguém nos vencerá” (11).

Observa-se aí uma linguagem típica da ortodoxia terrorista: segundo o panfleto, a sociedade brasileira está dividida entre algozes e vítimas.

E a única forma de defesa é a cooperação com o regime, que se apresenta como autoridade protetora da nação.

Todos eram convidados a participar da “Comunidade de Informações”, suspeitando de tudo e de todos que os cercassem, como que movidos por um sentimento de ameaça permanente.
Como um interrogador que tem diante de si um espelho falso que lhe permite ver sem ser visto, as atividades do informante devem se tornar invisíveis para a sociedade, tanto quanto para os poderes oficiais, que lhe garantem o anonimato.

Só assim ele pode exercer um poder efetivamente produtivo: o de orientar o governo à ação. Pois que o inimigo jamais descansa, está sempre ali e acolá, mudando de tática, aliciando pessoas, incitando à desordem.

Suspeite-se, por exemplo, do tráfico de entorpecentes. Este não é um crime comum, uma vez que
“é muito fácil conquistar o país com a utilização de tóxicos. Estes afetam a masculinidade dos moços e fazem as moças perderem seu instinto de defesa moral. Por isto são um perigo real, um mal que se alastra (…) trata-se de um plano para enfraquecer a nação, um plano subversivo” (12).

Suspeite-se dos estudantes quando participam de passeatas, momento em que são instigados a desacatar as autoridades policiais, “com o objetivo muito claro: de produzir uma vítima, o que lhes permitirá criar um clima de comoção social a seu favor” (13).

Suspeite-se até mesmo de brincadeiras aparentemente inocentes, como o trote dos calouros nas universidades, o que é compreendido como uma tática de aliciamento dos subversivos, pois
“No momento do trote (…) raspam-lhes os cabelos, fazem-nos desfilar com cartazes contendo palavras obscenas, pintam-lhes o rosto para que pareçam palhaços, ensinam-lhes a desacatar as autoridades, para que depois, enfraquecidos espiritualmente, estes adolescentes encontrem no líder estudantil um dominador capaz, um substituto de seu pai…” (14)

Suspeite-se dos hospitais, que podem estar tratando de subversivos feridos sem comunicar nada às autoridades, das livrarias que clandestinamente vendem livros subversivos, do ‘rock and roll’, esta música eletrizante, e portanto subversiva, dos advogados, jornalistas, professores.

E assim, por meio da produção continuada de “notícias” que estão a falar de um perigo iminente, o cidadão comum é convidado a participar da “comunidade de informações”, que lhe dá a um só tempo proteção e sentido para a sua existência, pois pelo menos no momento da delação ele tem a prazerosa sensação de estar exercendo um poder cuja natureza é idêntica à de seu chefe.

A FABRICAÇÃO DO MEDO

Os documentos que foram escritos para orientar a ação dos informantes eram produzidos pelos “analistas de informações”.

Tais documentos, pelo que se depreende de sua análise, prestavam-se a uma dupla função: a de assessorar as elites dirigentes do regime e a de produzir material de propaganda dirigida aos informantes.

Tratemos de verificar, apesar das limitações impostas pela natureza de nossos documentos, como os informantes “amadores” compreendem essas mensagens, e como aplicam, na prática, suas recomendações.

Nossa atenção se dirige, principalmente, para os informantes classificados pelo sistema como ‘D’, ‘E’ e ‘F’.

São eles uma fonte duvidosa, porém digna de registro, posto que compartilham dos “ideais da revolução” – homens invisíveis que, ao mesmo tempo em que cooperam com a repressão, constituem uma base de sustentação do regime.
Apesar das limitações das fontes de que dispomos (o nome do informante raramente é mencionado, os registros que produz são bastante sucintos, as causas de suas denúncias raramente reveladas, etc.), pudemos detectar, através da leitura de 172 informes, alguns denominadores comuns, e que podem contribuir para a compreensão de suas motivações subjetivas, visões de mundo, personalidade.

Além disto, entendemos, como Michel Foucault, que quando se trata de analisar o processo de sujeição em qualquer sistema político, é necessário “captar o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações” (15), pois é nesta instância que ele é efetivamente exercido.

Como já foi mencionado, o sistema possuía funcionários e colaboradores de diferentes ‘status’ e com diferentes atribuições.

Os informantes ‘D’, ‘E’ e ‘F’ não pertenciam formalmente ao sistema, mas suas informações contribuíam para que a repressão preventiva fosse praticada.
Muitos membros deste segmento eram recrutados pelos poderes oficiais entre os quadros do funcionalismo público.

Para tanto, sua vida pregressa era avaliada e, após serem considerados confiáveis, eram arrolados como eventuais fontes de informação (16).

Tratava-se, de uma certa maneira, de um clientelismo às avessas: se o funcionário não cooperasse, poderia perder alguns benefícios inerentes à sua função, ou pior, tornar-se, ele mesmo, um suspeito.

Um outro grupo era composto por membros de entidades e associações da própria sociedade civil, comprometidos com ideologias conservadoras e radicalmente anticomunistas, como por exemplo, a “Tradição, Família e Propriedade – TFP” – grupo ligado à ala ultraconservadora da Igreja Católica, o “Comando Geral Democrático” e o “Comando de Caça aos Comunistas” (17).
Prestavam informações espontaneamente, como uma forma de colaboração ao regime.
Ao mesmo tempo, sentiam-se representados por aquele governo, como se fossem o partido da situação.

Finalmente, os informantes voluntários, cujas origens são mais difíceis de precisar, uma vez que atuavam individualmente, mas que, como os demais, mantinham vínculos de cooperação com o sistema.

Como se comportam estes informantes, quais suas expectativas no ato de vigiar e quais suas interpretações sobre esta tarefa?

Ao compararmos os registros, cartas, pareceres e formas de inserção no sistema, pudemos constatar diversas semelhanças em seus procedimentos, que podem ser assim caracterizados:

“- O informante sempre age sozinho. Seus planos de infiltração, suas desconfianças, os contatos que faz com os órgãos de repressão não são conhecidos por ninguém. Ele não expõe suas opiniões, aliás, o que é de resto opinião pessoal, transforma-se em uma sentença. Mesmo quando não está seguro de sua acusação, sugere que pelo menos o suspeito que ele denunciou seja chamado a prestar esclarecimentos.

- Seu campo privilegiado de investigação é o seu próprio ambiente de convívio: vizinhos, colegas e amigos são seu objeto de suspeição. Isso se depreende pela intimidade com a qual ele faz referência aos seus suspeitos e pelo conhecimento que demonstra ter dos hábitos mais corriqueiros de cada um deles. E ainda mais: ao denunciar, pede que seu nome não seja jamais mencionado, pois o acusado o conhece, e pode prejudicá-lo ou mesmo persegui-lo. Em alguns casos, justifica sua denúncia por querer o bem daquela pessoa, apresentada como uma vítima nas mãos dos subversivos.

- Está sempre a sugerir às autoridades outros suspeitos, ou lugares que não estejam devidamente vigiados, armadilhas não descobertas. Faz recomendações e reflexões sobre a sociedade, a economia, a cultura. Além de informar, ele quer participar mais ativamente dos poderes decisórios, quer ser reconhecido pelas autoridades, por quem sempre expressa sua admiração e respeito.

- Não poucos acabam por revelar, nas entrelinhas, diversos preconceitos, dentre os quais o mais destacado é o racial. O subversivo, quando judeu, por exemplo, merece mais severidade no tratamento que os demais;o polonês ou ucraniano são sempre comunistas (18); o negro, desordeiro. E os estrangeiros, em geral, são qualificados como portadores de idéias estranhas ao sistema.”

Ressalte-se ainda o apego à moral conservadora.

“- Tanto quanto os analistas de informações, o informante amador associa invariavelmente a subversão à promiscuidade. Cite-se um episódio ilustrativo: mesmo quando uma prostituta denunciou subversivos que queriam contratá-la para manter relações sexuais com um militar e dele retirar informações, seu depoimento não só foi rejeitado como ela mesma foi colocada sob suspeita (19).

- Às mulheres é dispensado um tratamento diferenciado no ato de informar: se consideradas subversivas, sua vida privada é quase sempre devassada, como se a atividade política fosse uma decorrência de sua moral sexual; se os homens conquistam adeptos para a sua causa por meio de técnicas de propaganda, aquelas se valem da sedução. Amasiam-se, prostituem-se, usam drogas. Pelo conteúdo dos registros, pode-se afirmar que a maioria dos informantes possui um radical desprezo pela mulher subversiva, considerada, a um só tempo, degradada e perigosa. Neste caso, o seu espaço de convívio privilegiado, – o lar, e o papel de esposa e mãe de família, foram sufocados em nome de uma postura agressiva, tipicamente masculina.

- Aos olhos do informante, a delação mais preciosa é a de um verdadeiro comunista. Quando isto ocorre, ele descreve suas informações de forma extremamente minuciosa, seja para comprovar a veracidade de seu informe, seja para deixar clara a importância de sua descoberta.”

Nestes casos, é particularmente interessante observar como a vida pregressa do acusado é cuidadosamente descrita.

Enquanto do mero subversivo ou esquerdista são mencionados apenas seus atos, do comunista impõe-se esquadrinhar toda a sua história.

Esta prática nos aproxima de uma importante reflexão de Michel Foucault, quando ele analisa a figura delinqüente: o delinqüente, conceito elaborado pelas instituições penais no século XIX, é um criminoso que existe antes mesmo do seu próprio crime, uma vez que traz consigo tendências psicológicas que o predispõem ao delito.

“À medida que a biografia do criminoso acompanha na prática penal a análise das circunstâncias, (…) vemos os discursos penal e psiquiátrico confundirem suas fronteiras: e aí, em seu ponto de junção, forma-se aquela noção de indivíduo perigoso que permite estabelecer uma rede de causalidade na escala de uma biografia inteira e estabelecer um veredicto de punição-correção” (20).

Esta observação nos parece fundamental e passível de ser aplicada aos dias atuais.

Mesmo que se trate de uma categoria identificável também em regimes não-autoritários, a designação de um determinado grupo como “elemento perigoso” suscita sentimentos de rejeição e medo, passíveis de serem instrumentalizados politicamente por diversos organismos, sejam ou não de caráter oficial.

Desta maneira, atribui-se responsabilidade pela desordem a mendigos, menores de rua, trabalhadores imigrantes, pessoas de outra etnia ou quaisquer outros, de acordo com os diferentes contextos políticos de cada sociedade.

No período da ditadura militar, mais do que em qualquer outro, o comunista representou esse “elemento perigoso”, perturbador e nocivo; no limite, alguém possuído por forças malignas e incontroláveis.
Um elemento a quem se devia temer.

Tal sentimento foi seguramente experimentado pelo informante, um medo que se demonstrou tão ou mais mobilizador do que suas convicções políticas.

Ao lado de sua fidelidade a idéias, do comportamento arrivista quando estava em causa a possibilidade de uma ascensão profissional, ou, ao contrário, o receio de perder o emprego, não se pode desconsiderar os traços de medo que se refletiam em seus escritos: o medo da retaliação, de ser descoberto como delator, da desordem, do poder, enfim, o medo que o fantasma da subversão lhe provocava.

Por isto, o sistema, que ao apostar na ciência para criar uma máquina repressiva desprovida de qualquer subjetividade teve de conviver, para seu desgosto, com homens que denunciavam seus chefes, suas ex-esposas, seus vizinhos, o próprio governo, e não poucas vezes, outros informantes: denunciavam todos a quem temiam.

O medo do outro, entendido como detentor de um poder absoluto provoca, em seus extremos, atitudes que desfazem as fronteiras entre realidade e fantasia, esfera pública e privada, passado e presente.

Como se pode verificar num exemplo-limite que nos chamou a atenção justamente pela sua incongruência:
trata-se de uma carta bastante sugestiva, de oito páginas, escrita à mão, em que um informante espontâneo, após arrolar 22 nomes e descrever detalhadamente as atividades de cada um, codinomes, hábitos cotidianos, motivo de suas suspeitas e supostos endereços, termina pedindo como retribuição pelo serviço ao regime que as autoridades o protejam de seu próprio pai:
“um homem terrível, confidente secreto de Salazar, amigo de Hitler, nazista e comunista … amigo do governador do Estado do Amazonas, em nome de quem presta favores a subversivos, como a seu próprio irmão, um padre que treina jovens para a guerrilha …”
um homem que o chamava de retardado durante a sua infância, e que ele solicita que seja, “finalmente, castigado” (21).

Não pretendemos com esta última citação concluir pela ineficiência do sistema. É bem provável que cartas como esta fossem ignoradas, apesar de arquivadas, como “a de um louco qualquer…”, conforme aludiu Adyr Fiúza de Castro (22).

Ela é importante para a nossa análise à medida que revela as expectativas e sentimentos que determinados indivíduos nutriram pelo regime, este “bom pai” alternativo à sua experiência de infância.
E para demonstrar que mesmo os informantes que faziam uso do sistema para manifestar seus ódios pessoais podiam ser úteis, em alguma medida, à “Comunidade de Informações”.
Afinal, eles faziam parte de uma cadeia cujas ações eram propositadamente segmentadas e hierarquizadas, como num sistema “taylorista”, o que permitia que nenhum agente tivesse plena responsabilidade ou mesmo consciência dos resultados de suas ações.

E é justamente esta técnica que nos leva a identificar o caráter produtivo da suspeição praticada tanto por “profissionais” como por “amadores”, bem como sua semelhança com as técnicas de divisão de tarefas adotada nos sistemas carcerários da Alemanha nazista.

Neste caso, racionalidade e irracionalidade se confundem, conformando personalidades, gestos e palavras plenamente solidárias à prática da violência política.

NOTAS

(*) Tema originalmente apresentado no III Congresso da BRASA – Brazilian Studies Association, em Cambridge, Inglaterra, setembro de 1996.

(1) ARQUIDIOCESE de São Paulo. Brasil; nunca mais. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 32.
(2) João Paulo Moreira Burnier. In: D’ARAÚJO, Maria Celina et all. Os anos de chumbo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. p. 207.
(3) Adyr Fiúza de Castro. idem, p. 62 e ss.
(4) Idem, p.47
(5) Carlos Alberto da Fontoura. idem, p. 91 e ss.
(6) Departamento Estadual de Arquivo e Microfilmagem do Paraná – DEAP/Departamento de Ordem Política e Social – DOPS, Pasta SNI.
(7) Adyr Fiúza de Castro. In: D’ARAÚJO, Maria Celina et all. Os anos de chumbo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994, pp. 64-66.
(8) A este respeito ver especialmente TRINDADE, Hélgio. “O radicalismo militar em 64 e a nova tentação fascista”. In: SOARES, Glaucio Ary D. e D’Araújo, M. Celina (org). 21 anos de regime militar: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1994. pp.123-41.
(9)Cite-se, como um dos exemplos mais importantes,o slogan “Milagre Brasileiro”, termo repetidamente empregado para enunciar o crescimento econômico acelerado por que passou o Brasil no início da década de setenta.
(10) ANSART, Pierre. Ideologia, conflito e poder. Rio de Janeiro:: Zahar, 1978, p. 112 e ss.
(11) DEAP/DOPS, Pasta SNI, 1969.
(12) DEAP/DOPS, Pasta 1547. [ Links ]
(13) DEAP/DOPS, Pasta SNI, Informe n. 184.
(14) DEAP/DOPS, Pasta SNI – Contribuição ao conhecimento da guerra revolucionária.
(15) FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder.4.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1984, p.182.
(16) À guisa de ilustração, cite-se uma lista de 540 nomes de funcionários públicos do Estado do Paraná, enviados ao DOPS pelo SNI para que este órgão selecionasse aqueles que, dada a sua vida pregressa, poderiam estar dispostos a cooperar com o sistema (DEAP/DOPS, 1966 – Pasta 1543).
(17) Sobre este último grupo, que dada a sua importância, mereceria um estudo mais aprofundado, mencione-se apenas um registro: para os poderes oficiais, segundo o parecer de um analista de informações, mesmo que suas informações sejam úteis ao sistema, tal grupo deve ser colocado sob suspeita, porquanto seus membros querem por si mesmos eliminar os comunistas, além de prejudicarem a imagem do governo, uma vez que suas ações são confundidas, pela opinião pública, com as dos órgãos de segurança (DEAP/DOPS, 1978, Pasta 256).
(18) Esta observação deve ser interpretada como uma especificidade do Paraná, Estado que recebeu diversos imigrantes destas origens, e que provinham de regiões pobres da Europa, e foram muitas vezes discriminados como elementos de raça e cultura inferiores. À época do regime militar, àqueles preconceitos se somara também a suspeita de subversão, uma vez que seus países de origem ou de seus ascendentes estavam alinhados com o bloco soviético.
(19) DEAP/DOPS, Pasta 1.547.
(20) FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1986, p.224.
(21) DEAP/DOPS. Carta ao Brigadeiro Nelson de Souza Mendes e Coronel Maciel. Assinatura ilegível – 19-10-1972.
(22) Ver citação n. 4.

Rev. bras. Hist. vol. 17 n. 34 São Paulo 1997

(http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-01881997000200011&script=sci_arttext)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O que mudou? bourdokan

O que mudou? bourdoukan



1967

Jornalista, tinha uma coluna estudantil no Jornal Ultima Hora, o único veiculo de comunicação que ainda respirava os ares de centro-esquerda.

A manifestação estudantil estava em seu auge.

Ocupavam as Praças da Sé e Clovis Bevilaqua.

Milhares ainda atravessavam o Viaduto do Chá e caminhavam pela Rua Direita para engrossar as fileiras dos protestantes.

Havia muitos policiais infiltrados, mas a maioria era reconhecida.

Eram os únicos que portavam um caderno ou um livro.

E todos gritavam ABAIXO A DITADURA.

E o pau começou a comer.

A polícia militar batia sem dó nem piedade.

Não havia balas de borracha, mas os cassetetes, em sua maioria eram de madeira.

Tentei seguir um rastro de sangue para ver onde terminava.

E terminava no interior da Catedral da Sé.

Ao subir a escadaria, levei a primeira porrada.

No ombro e em seguida na nuca.

E ao cair, bati com a boca na escada, o que me custou dois dentes.

Ainda meio zonzo gritei que era jornalista e que estava ali a trabalho. E que mesmo se não fosse eles não tinham direito de agir com tanta brutalidade.

Apanhei que é uma beleza.

Escapei e corri para o interior da Catedral, onde outros jornalistas tentavam se abrigar das pancadas e do gás lacrimogêneo, que a mídia de hoje denomina “bombas de efeito moral”...

Como se houvesse moral em bombas.

E paro por aí porque esse é um tema para um livro e não para um simples blog.


2013

Avenida Paulista e Centro de São Paulo

Policia Militar fortemente armada, com tudo que lhe é de direito descarrega sua ira contra estudantes e trabalhadores que protestavam contra o aumento.

Novamente bateu sem dó e nem piedade.

São os herdeiros do prendo e arrebento.

Em 1967, tanto o prefeito quanto o governador eram figuras biônicas. Não tinham que dar satisfação a ninguém.

Apenas aos militares que governavam o país e carinhosamente denominados de GORILAS.

Com todo respeito aos gorilas, chipanzés e orangotangos.

Hoje o prefeito é do PT e o governador do PSDB.

Ambos eleitos com o voto popular.

E, teoricamente, ao povo, apenas ao povo que eles teriam que dar satisfação.

Bem, isso teoricamente.

E a Polícia Militar?

Nada mudou, com certeza.

E a mídia?

A mídia sempre pertenceu à Casa Grande.

Voltarei ainda ao assunto...