quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O corvo

O Corvo
Edgar Allan Poe (tradução de Machado de Assis) 
Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

Abaixo, O Corvo na tradução de Fernando Pessoa

O Corvo
Edgar Allan Poe (tradução de Fernando Pessoa)
    • O CORVO *
    • (de Edgar Allan Poe)

  • Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
    Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
    E já quase adormecia, ouvi o que parecia
    O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
    "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

    É só isto, e nada mais."Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
    E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
    Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
    P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,


    Mas sem nome aqui jamais!Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
    Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
    Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
    "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
    Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.


    É só isto, e nada mais".E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
    "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
    Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
    Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
    Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.


    Noite, noite e nada mais.A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
    Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
    Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
    E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
    Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

    Isso só e nada mais.Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
    Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
    "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
    Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
    Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.


    "É o vento, e nada mais."Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
    Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
    Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
    Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
    Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,


    Foi, pousou, e nada mais.E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
    Com o solene decoro de seus ares rituais.
    "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
    Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
    Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."


    Disse o corvo, "Nunca mais".Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
    Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
    Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
    Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
    Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,


    Com o nome "Nunca mais".Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
    Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
    Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
    Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
    Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".


    Disse o corvo, "Nunca mais".A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
    "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
    Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
    Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
    E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais


    Era este "Nunca mais".Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
    Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
    E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
    Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
    Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,


    Com aquele "Nunca mais".Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
    À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
    Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
    No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
    Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,


    Reclinar-se-á nunca mais!Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
    Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
    "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
    O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
    O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"


    Disse o corvo, "Nunca mais"."Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
    A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
    A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
    Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!


    Disse o corvo, "Nunca mais"."Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
    Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
    Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"


    Disse o corvo, "Nunca mais"."Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
    Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
    Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
    Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
    Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"


    Disse o corvo, "Nunca mais".E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
    No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
    Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
    E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,


    Libertar-se-á... nunca mais!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O MONÓLOGO DE HAMLET

Ser ou não ser, eis a questão!

O que é mais nobre para o espírito?

Sofrer na alma os dardos e as setas de um ultrajante fado
Ou, resistindo, pegar em armas contra um mar de desgraças,
para por-lhes um fim?

Morrer… dormir… nada mais.

E, com o sono, dizem, terminamos o pesar do coração
e os mil naturais conflitos que constituem a herança da carne!

Que fim poderia ser mais devotamente desejado?

Morrer… dormir… Dormir!… Sonhar talvez !?!

Sim, eis aí a dificuldade!

Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar
que sonhos possam sobrevir, durante o sono da morte,
quando tenhamos nos libertado do redemoinho da vida.

Aí está a reflexão que torna uma calamidade a vida assim tão longa!

Porque, senão, quem suportaria os ultrajes e os desdéns do tempo,
a injúria do opressor, a afronta do soberbo, a angústia do amor desprezado,
a morosidade da lei, as insolências do poder
e as humilhações que o paciente mérito recebe do homem indigno,
se ele próprio poderia encontrar quietude pela ponta de um punhal?

Quem preferiria suportar tão duras cargas,
gemendo e suando sob o peso de uma vida fatigante,
se não fosse o temor de algo depois da morte,
região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou,
confundindo nossa vontade
e impelindo-nos a suportar os males que nos afligirem,
ao invés de nos atirarmos a outros que não conhecemos?

E é assim que a consciência nos transforma em covardes;

E é assim que o primitivo verdor de nossas resoluções
se estiola na pálida sombra do pensamento;

E é assim que os empreendimentos de maior alento e importância,
com tais reflexões, desviam seu curso
e deixam de ter o nome de AÇÃO.

WILLIAM SHAKESPEARE
(26/04/1564 – 23/04/1616)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Rubem Braga e o poder


Rubem Braga e o poder


Jornal do BrasilMauro Santayana

Em 1990, Rubem Braga descobriu que estava com câncer. O presidente Collor confiscara todos os haveres bancários, incluídos os das cadernetas de poupança. Carlos Castello Branco – que não era amigo do cronista e havia feito uma cirurgia nos Estados Unidos, para livrar-se de mal semelhante – escreveu-lhe uma carta. Nela, com grande otimismo, aconselhava o autor de O Conde e o Passarinho a tratar-se no mesmo hospital em que se tratara, creio que em Houston.
Rubem disse aos amigos comuns que iria a Houston, com prazer, desde que o governo liberasse as suas aplicações. Sua amiga Vera Brant acionou as excelentes relações em Brasília, para que o dinheiro de Rubem – não tão grande assim – lhe fosse entregue para a viagem e o tratamento, comunicou ao cronista as suas diligências e a confiança em que tudo seria resolvido logo.

Rubem, segundo alguns amigos, começou a pensar na viagem, enquanto o tempo passava. Uma semana, duas semanas, um mês – e nada. As pessoas do governo, contatadas por Vera Brant, davam vagas informações do pleito, até que a brava mineira reclamou uma resposta clara: o Ministério da Fazenda – ou da Economia, não me lembro ao certo – informou que se todos os que estivessem com câncer pedissem a liberação de seus haveres, o Plano Collor fracassaria.
Vera então imaginou um ardil. Disse a Rubem que o dinheiro já estava liberado, mas dependia de meras providências burocráticas. Assim, ela e outros amigos iriam adiantar-lhe a importância necessária para a viagem, e ele, quando recebesse seu dinheiro, poderia devolvê-la.
Rubem agradeceu muito, mas como homem honrado e orgulhoso, não aceitava. Percebera a manobra amiga da escritora, agradeceu, recusou com elegância e polidez. Não era um necessitado, só queria que lhe devolvessem as economias que fizera, e com as quais cuidaria da própria saúde. Entendia a solidariedade de Vera e seus amigos, mas era um homem soberbo.
Quando percebeu que não havia outro jeito, tratou de se preparar para o pior. Com o dinheiro que reunira, de seus salários na televisão, Rubem foi a São Paulo, onde funcionava o único crematório no Brasil, indagou pelo preço, preencheu o cheque. E quando lhe perguntaram onde se encontrava o corpo, apontou o próprio peito, e disse que seriam informados na hora certa, mas descontassem o cheque logo. Voltou para o Rio, reuniu os amigos em seu apartamento, dois dias antes da morte, e falaram de tudo, dos ausentes, das mulheres amadas, daquele verão, com seu sol e suas chuvas.
Conheci Rubem em 1956, em Belo Horizonte, quando ele esteve na redação do Diário de Minas, para ver o jornalista Hermenegildo Chaves, de quem havia sido companheiro no Diário da Tarde no início dos anos 30. Rubem tinha então 43 anos e estava no auge de sua carreira.   Sempre que eu ia ao Rio, eu o visitava e, enquanto trabalhava com Chaves – que tinha o apelido de Monzeca – era portador de cachaça e requeijão de Montes Claros que ele enviava ao amigo.
Ao longo dos anos, sempre que nos encontrávamos, ele era muito amável e conversávamos invariavelmente sobre Minas e os mineiros.
Lembro-me de sua irritação quando descobriu que um sósia visitava escolas do Rio e se apresentava com seu  nome, sendo homenageado pelas professoras e pelos pequenos alunos.  Vociferava contra o canalha, por enganar as crianças e as professoras ingênuas.  Chegou mesmo a escrever uma crônica, denunciando que havia no Rio um sujeito que tinha o péssimo hábito de se passar por Rubem Braga. 
Não houve, em meu modesto juízo, quem melhor escrevesse em nossa língua portuguesa, nos dois lados do oceano. Seu texto fluía como as águas limpas de um riacho na montanha, contornando suavemente as rochas: sua profundidade se revelava, sem pudores e sem disfarces, na superfície. Era, embora muitos assim não o vissem, severo crítico da sociedade, já em seu tempo hipócrita e egoísta - embora muito menos do que hoje.
Certo marido, alertado por delator anônimo, surpreendeu a mulher em companhia do amante – e matou os dois. No dia seguinte, a sua crônica se endereçou ao canalha responsável pela tragédia, chamando-lhe hiena, e o cumprimentando pelo provável prazer diante dos mortos, dos filhos órfãos, das famílias atingidas.

Poucos conseguiram mostrar a patologia  do regime militar com a precisão de Rubem, ao compará-lo, em crônica, a “uma porca mal capada”. Os que conhecem o  meio rural sabem que raramente a porca castrada com imperícia consegue sobreviver: sobre a ferida as moscas pousam suas larvas, a infecção se torna invencível e o animal agoniza lentamente – a menos que alguém o sacrifique.   
Vai, aqui, modesta sugestão aos responsáveis pelo ensino de nossa língua: adotem os textos do velho Braga no ensino fundamental. Não há, neles, nada de politicamente incorreto, posto que são, e declaradamente, subversivos contra a ordem do ódio, as regras do ressentimento, o domínio do dinheiro.
Aconselho, como obrigatório, talvez o mais sério de seus textos, em que, aparentemente sem assunto, narra tenaz acompanhamento do cronista a fugaz borboleta amarela nas ruas centrais do Rio: alegre concessão da vida a si mesma, cumplicidade do homem e do inseto, partilhando a alegria de estarem vivos, sem destinos, sob o sol e o azul.
Rubem foi um dos maiores nomes da literatura brasileira. Há quem o compare a Machado de Assis. Ao autor de Dom Casmurro - salvo em dois ou três contos, nos quais a ironia ainda era mais forte do que a compaixão – faltava solidariedade para com o sofrimento e não havia a alegria com a felicidade dos outros.
Foram esses dois sentimentos que marcaram todos os textos de Rubem Braga.

Zelia Duncan - entrevista com Sonia Racy -estadão


Por que começar o ano cantando Itamar Assumpção?
Zélia Duncan - É um dos meus maiores ídolos, sua música está perto de mim desde sempre.
Ele sempre teve fama de "maldito", isso incomoda?
Zélia Duncan - O rótulo é que é maldito. Ele tinha lá suas intensidades, profundidades, paradoxos. Ao mesmo tempo, tinha uma característica extremamente popular e algo que puxava para o underground. Mas isso não quer dizer uma maldição, é uma característica. A minha proposta é mostrar o lado solar dele, sem tirar sua profundidade. Ele é profundo, é solar, é underground, é tudo. O rótulo de maldito não dá conta do leque de possibilidades que essa obra tem.
Você já tinha gravado 11 músicas do Itamar antes. Agora sua missão está cumprida?
Zélia Duncan - A obra do Itamar é muito maior do que esse disco meu. Não considero minha missão cumprida porque não me impus a missão de revelar o Itamar, tenho a missão de me sentir bem com o que eu canto. Meu compromisso é com a minha vida artística.
De onde surgiu a ideia de homenagear Luiz Tatit? 
Zélia Duncan - Comemorei 30 anos de carreira em 2011 e me impus três desafios: fazer o DVD Pelo Sabor do Gesto em Cena, gravado no Municipal de Niterói, onde eu nasci; fazer o TôTatiando; e gravar um álbum só com músicas de Itamar Assumpção. Tatit e Itamar se encontraram sem querer, mas agora um dá força para o outro. São trabalhos complementares, que vão caminhar juntos pelos próximos dois anos. Esses dois projetos são preciosos e acabaram de nascer. É muito trabalho para digerir e mostrar. Pretendo carregar comigo esses dois autores incríveis. Já carrego há 30 anos, carregar por mais dois vai ser tranquilo.
TôTatiando é teatro ou show? 
Zélia Duncan - Adoro jogar essa dúvida na tua mão. Tive a necessidade de ir para espaços de teatro porque, primeiro, ele é um espetáculo e não um show pop. Eu não estou com a guitarra na mão, com a minha banda, as pessoas não estão cantando. E tem uma parte extremamente teatral.
Você fez teatro?
Zélia Duncan - Eu fiz a CAL, logo que cheguei ao Rio. Não queria pensar só em música para não fica louca. É uma obsessão. Intuitivamente, queria abrir o leque. Eu me apoio na música para fazer o que conheço pouco - atuar.
Você pensa em atuar profissionalmente?
Zélia Duncan - É difícil dizer, mas, se aparecer algo que me arrebate.... Já disse muitos "nãos" e alguns "sins" bem esquisitos, tipo cantar com Os Mutantes. Esse mesmo sim estou dando para o teatro. Um jornalista me perguntou: "Por que isso agora?" Agora para mim é enquanto estou viva. Vou seguindo a maré por uma obsessão de manter o frescor no palco. O artista só tem uma possibilidade na vida, que é a de se arriscar. E quando não se arrisca, está se arriscando mais do que qualquer coisa. É o risco de ficar parado, de parar de crescer. A vida é dura, para conseguir um espaço é difícil. Então, as pessoas naturalmente querem se manter seguras. Mas isso escorre pelos dedos. O meu álbum se chama Pelo Sabor do Gesto porque eu já estava querendo dizer isso, aquele sabor da menina que morava em Brasília e sonhava em ser cantora. O TôTatiando me devolve isso, é uma aventura.
Você saiu da zona de conforto?
Zélia Duncan - Totalmente. Estou dando a cara a tapa, mas não sou idiota, me cerquei de pessoas incríveis para poder arriscar. Você tem que se arriscar e eventualmente, errar, achando que está acertando. Errar desconfiada que estava errando é uma burrice. Quando erro, caio com a cara no chão porque jurava que era um grande acerto, entendeu?
São Paulo tem uma grande influência na sua obra.
Zélia Duncan - Desde nova, ouvia o que vem de São Paulo. Tem muita gente que acha que sou de São Paulo, às vezes acho que eu sou. Isso me dá uma certa particularidade. Uma pessoa que nasceu em Niterói e foi criada em Brasília já é uma pessoa cuja identidade está meio balançada. Eu me sinto um pouco múltipla.
Quem são seus maiores ídolos no Brasil?
Zélia Duncan - Primeiro tem Rita Lee - o primeiro LP que eu ganhei, Tutti Frutti. Maria Bethânia - cantava com sotaque baiano por causa dela. Também ouvia Elis Regina o dia inteiro, tive uma fase blues, uma fase Milton Nascimento, uma fase Caetano. Minha formação é bagunçada, mas adoro isso. Sou de fases, mas, na verdade, vou aglutinando essas fases.
O que você acha do cenário atual da música brasileira?
Zélia Duncan - Sempre houve, paralelamente ao que as pessoas consideram uma boa música, a música duvidosa. Sempre tivemos artistas que diziam que era para ganhar dinheiro. Isso é um pouco cretino, mas não me incomoda, o que me incomoda é a superfície em que a gente fica.
Como assim?
Zélia Duncan - Tem esse lance dos 15 minutos de fama, estamos vivendo os 5 minutos de fama. Tem gente que é famosa há tantos anos e você não sabe por que. Hoje, a plateia mudou de atitude, acha que é um artista em potencial porque qualquer um pode gravar um disco em casa. Não sinto mais uma plateia totalmente isenta. O que adianta fazer a música mais linda do mundo se você não ouvir? Isso significa que você é 50% do que eu faço. No entanto, o cara não está satisfeito com isso, ele também quer fazer o que eu faço.
Isso é bom ou ruim?
Zélia Duncan - Muito ruim. A fama é um negócio sedutor. Hoje em dia, todo mundo pode, entre aspas. Você faz um ‘disquinho, se apresenta em um lugar, faz um site lindo na internet. Ao mesmo tempo que a internet pode ser vista pelo lado legal, de democratizar, ela dilui terrivelmente, entre artistas e não artistas, o que você quer ouvir.
Como é sua relação com a plateia?
Zélia Duncan - Eu acho uma pena que a maioria da plateia de hoje não entenda como é bacana ouvir. É preciso que você fique quieto para ouvir. As pessoas vão para o show hoje em dia e dizem: "Me divirta!" Não entendem a parte delas naquilo. Um colega meu já disse uma vez que cada público tem o show que merece. O silêncio também é uma participação. É óbvio que eu adoro ouvir todo mundo cantando as minhas músicas comigo, mas acho que existe hora certa para isso. A desatenção, a distração contemporânea e o excesso de informação me afligem um pouco.
Você se irrita com as pessoas filmando ou tirando fotos nos seus shows?
Zélia Duncan - Eu lamento. É louco entrar num show se sentindo tão na obrigação de compartilhar aquele show. Tem coisas que é preciso guardar na emoção, não adianta. Quando você vai ver um show, uma peça, e está filmando, está abrindo mão de uma experiência única. O que você vai filmar não é o que você viu.
O que você está ouvindo em casa agora?
Zélia Duncan - Tenho ouvido vinil em casa com um prazer impressionante. Comprei uma pick-up nova. O vinil que se preza é velho, mas agora tem uns novos. A Fernanda Takai me deu o dela, da Nara Leão, é uma delícia. A Fernanda e o Pato Fu, aliás, ouço sempre. Os meus contemporâneos também, assim como o novo disco da Tulipa Ruiz. Também ganhei, aí em São Paulo, o disco do 5 a Seco, um grupo de jovens bem divertido, influenciado pela minha geração. Esses garotos são muito interessantes.
Concorda com a limitação da meia-entrada?
Zélia Duncan - Plenamente. Mesmo porque etade dos meus amigos tem carteira falsa. Juro. Pronto, falei. Acho que em lugar nenhum se paga tanta meia-entrada quanto em cultura. Por quê? A gente rala à beça. Quando vejo um ingresso com preço alto, lembro que tem a meia-entrada, mas que a nossa folha de pagamento é enorme. Quando vamos ao supermercado, pagamos meia- carne? Não, não pagamos metade por nada. E por que quando vamos ao teatro queremos pagar a metade? Acho que é justo ter preços mais acessíveis, ter uma cota para estudantes e idosos, mas isso virar uma regra, não me parece justo.
O que é sucesso para você?
Zélia Duncan - Sucesso é fazer, é realizar o seu desejo. Aliás, ter sucesso na vida é realizar o seu desejo. E pagar as contas com isso.

sábado, 12 de janeiro de 2013

As 10 fotografias brasileiras - revista BULA

POR EM 31/12/2012 ÀS 04:02 PM

As 10 fotografias brasileiras mais famosas de todos os tempos: a lista das listas

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Para se chegar ao resul­tado fiz uma compilação de exposições, reportagens, listas publicadas por sites especializados em fotografia, es­por­tes, cultura pop, política e história. O objetivo de minha pesquisa era identificar quais são as 10 fotografias brasileiras mais famosas de todos os tempos. Participaram do levantamento as publicações: “Uni­verso Online”, “Arquivo Pú­blico do Estado de São Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “O Es­tado de S. Paulo”, revista “Placar” revista “Isto é”, revista “Veja”, “Jornal do Brasil”, “O Globo”, “World’s Famous Photos”, “Al Fotto”, “Images e Visions”. Abaixo, em ordem classificatória, as 10 fotografias selecionadas baseadas nas pu­blicações pesquisadas.
1 — O coração do Rei (1970)

Fotografia feita em 30 de setembro de 1970, durante o jogo Brasil 2 x México 1, no estádio do Maracanã, Rio de Janeiro. Na imagem, o suor na camiseta de Pelé forma desenho de um coração. A versão que a foto teria sido simulada já foi desmentida dezenas de vezes. “Ainda hoje há quem me pergunte se não foi Photoshop, sempre tenho de explicar que isso nem existia naquela época”, afirma Luiz Paulo Machado. Fotografia: Luiz Paulo Machado.

2 — A piscada de Ayrton Senna (1989)
Fotografia feita em 26 de março de 1989, durante o Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Na fotografia, Ayrton Senna pisca o olho para o chefe de equipe da McLaren, Ron Dennis, sinalizando que estava pronto para correr. Fotografia: Evandro Teixeira.

3 — Serra Pelada gold mine (1986)
Fotografia feita em abril de 1986, no garimpo de Serra Pelada, no sul do Estado do Pará. Serra Pelada se tornou mundialmente conhecida por ter abrigado a maior corrida do ouro da era moderna, onde foram extraídas, oficialmente, 30 toneladas de ouro. Fotografia: Sebastião Salgado.

4 — A garota de Ipanema (1960)
Fotografia feita em março de em 1960 pelo fotógrafo francês Milan Alram, na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. Dois anos depois, a garota da foto, Eneida Menezes Paes Pinto Pinheiro (Helô Pinheiro), seria imortalizada por Vinícius de Moraes e Tom Jobim na canção “Garota de Ipanema”, uma das músicas mais executadas no mundo. Fotografia: Milan Alram.

5 — O suicídio de Vladimir Herzog (1975)
A fotografia, que tornou-se um símbolo da repressão promovida pela ditadura militar, foi feita em 25 de outubro de 1975 nas dependências do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo. Na fotografia, o jornalista Vladimir Herzog é encontrado enforcado com um cinto. Mais de três décadas depois, o fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, autor do registro, afirmou, em entrevista a “Folha de S. Paulo”, ter sido usado pela ditadura para forjar uma cena de suicídio. Fotografia: Silvaldo Leung Vieira.

6 — Leila Diniz grávida na praia (1971)
Fotografia feita em 15 de agosto de 1971 na ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. A imagem de Leila Diniz de biquíni — grávida de seis meses — escandalizou o Brasil e virou um clássico da iconografia feminina no país. A fotografia, na ocasião, despertou a ira dos conservadores. Fotografia: Joel Maia.

7 — Falcão comemorando o empate contra a Itália (1982)
Fotografia feita em 5 de julho de 1982, no estádio Sarriá, em Barcelona, Espanha. Paulo Roberto Falcão comemora o gol de empate contra a Itália, na Copa do Mundo de 1982. A seleção brasileira, considerada uma das melhores da história das copas e favorita ao título, acabaria sendo desclassificada por 3 x 2. O jogo ficou conhecido como o Massacre do Sarriá. Fotografia: J.B. Scalco.

8 — Janis Joplin no Rio (1970)
Fotografia feita em fevereiro de 1970, na cidade do Rio de Janeiro, onde Janis Joplin passou 10 dias acompanhada pelo pelo fotógrafo Ricky Ferreira e pelo cantor Serguei. “Creio que a viagem ao Brasil não foi uma boa experiência para ela. Foi muito maltratada. Acho que eles pensavam que a superstar Janis Joplin era mais uma das belezas do cenário hollywoodiano”, afirma o fotógrafo. Fotografia: Ricky Ferreira.

9 — JK e a inauguração de Brasília (1960)
Fotografia feita em 21 de abril de 1960. Gervásio Baptista, repórter fotográfico da revista “Manchete”, tinha ido a Brasília com a missão de fazer a foto de uma edição especial sobre a inauguração da nova capital. A fotografia, na subida da rampa do Palácio do Planalto, com Juscelino Kubitschek acenando com a cartola correu o mundo e virou um dos símbolos da cidade. Fotografia: Gervásio Baptista.

10 — Passeata dos Cem Mil (1968)
Fotografia foi feita em de 26 de junho de 1968, na cidade do Rio de Janeiro, durante uma manifestação popular de protesto contra a ditadura militar, organizada pelo movimento estudantil e que contou com a participação de artistas, intelectuais e setores da sociedade brasileira. Fotografia: Evandro Teixeira.

Quatorze

POR EM 11/01/2013 ÀS 05:42 PM
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Todas as mulheres deveriam ter quatorze anos.Nelson Rodrigues
Fotografia: RevolvverComo era mesmo o nome dela? Lembrava da saia do colegial, dobrada na cintura para parecer mais curta, até a madre superiora aparecer do nada, “Desce a saia, arruma as meias”. Quantos anos ela teria? Quatorze. Os cabelos quase lisos desciam até os ombros, quando não estavam presos num rabo de cavalo com elásticos que ela conseguia no almoxarifado. O servente oferecia canetas, apontadores, cadernos pautados, elásticos, qualquer coisa que ela pedisse. Devia ser por causa da saia dobrada ou dos olhos castanhos amendoados. Os cílios. Em lugar do sutiã, usava uma camiseta sem mangas e, encoberta pela camisa da escola, uma medalhinha num cordão de ouro. Como era mesmo o seu nome? Ela carregava os livros e cadernos junto ao peito, antes de começar a usar fichários. Sua letra era apressada, abreviava as palavras ditadas pelo professor de ciências, mordia a ponta do lápis, fazia círculos na última página do caderno, espirais, estrelas. Eu me sentava atrás dela, ainda usava bermudas e meu rosto era coberto por um óculos de grau e meia dúzia de espinhas. Garotos assim apenas admiram e se apaixonam. E eu olhava pra ela na fila da cantina e depois quando jogava pingue pongue, a raquete e o sanduíche que ela comia pelas beiradas, virando o pão em sentido circular, hábito que, por ela, acabei adquirindo por toda à vida. Não era boa aluna, mas não acumulava notas vermelhas. Tinha uma amiga muito gorda, cujo apelido era este, que sabia seus segredos. Muitas vezes vi a Gorda segurando sua mão, enquanto ela chorava no recreio. Por que ela chorava? Como era mesmo o seu nome? Daria tudo para lembrar. Onde eu sentava podia sentir o perfume que vinha dos seus cabelos, o perfume da nuca visível. Não era de frasco nem sabonete, isso eu tinha certeza. Era o cheiro da sua pele que fugia do alcance do corpo e se espalhava pela sala inteira, como um jasmineiro. Um dia ela pediu minha borracha emprestada, que entreguei com as mãos trêmulas. Ela devolveu minutos depois, com o desenho de um coração vermelho. “Você se importa?”, perguntou, enquanto eu olhava a borracha, o coração arredondado, flechado por uma seta. Eu era muito jovem para adivinhar se havia ou não algum tipo de malícia naquele rosto, os cílios inocentes, a pele quase morena. Ela devia ter quatorze anos, as meias desabando perna abaixo, a saia plissada azul marinho do­brada na cintura.
Debaixo da saia, as coxas.

O Mais Raro De Todos

O Mais Raro De Todos


São apreciados, como algo de raro, aqueles que sabem ouvir calma e atentamente; igualmente raro é um verdadeiro leitor e o mais raro de todos é aquele que deixa que os seus semelhantes actuem sobre ele sem, constantemente, com a sua inquietação interior, vaidade ou egoísmo, destruir ou mesmo aniquilar a impressão.
Hugo Hofmannsthal,  in "Livro Dos Amigos"

O Bom Narrador 
O narrador comum narra como algo poderia acontecer acidentalmente. O bom narrador faz acontecer algo no momento actual diante dos nossos olhos. O mestre narra como se acontecesse de novo algo há muito acontecido.
Hugo Hofmannsthal, in 'Livro Dos Amigos'